A navegação consulta e descarregamento dos títulos inseridos nas Bibliotecas Digitais UC Digitalis, UC Pombalina e UC Impactum, pressupõem a aceitação plena e sem reservas dos Termos e Condições de Uso destas Bibliotecas Digitais, disponíveis em https://digitalis.uc.pt/pt-pt/termos. Conforme exposto nos referidos Termos e Condições de Uso, o descarregamento de títulos de acesso restrito requer uma licença válida de autorização devendo o utilizador aceder ao(s) documento(s) a partir de um endereço de IP da instituição detentora da supramencionada licença. Ao utilizador é apenas permitido o descarregamento para uso pessoal, pelo que o emprego do(s) título(s) descarregado(s) para outro fim, designadamente comercial, carece de autorização do respetivo autor ou editor da obra. Na medida em que todas as obras da UC Digitalis se encontram protegidas pelo Código do Direito de Autor e Direitos Conexos e demais legislação aplicável, toda a cópia, parcial ou total, deste documento, nos casos em que é legalmente admitida, deverá conter ou fazer-se acompanhar por este aviso. Arqueologias de Império Autor(es): Leão, Delfim (coord.); Ramos, José Augusto (coord.); Rodrigues, Nuno Simões (coord.) Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra URL persistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/45208 DOI: DOI:https://doi.org/10.14195/978-989-26-1626-1 Accessed : 29-Jul-2020 17:00:11 digitalis.uc.pt pombalina.uc.pt Delfim Leão, José Augusto Ramos, Nuno Simões Rodrigues (coords.) Arqueologias de Império IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA COIMBRA UNIVERSITY PRESS HVMANITAS SVPPLEMENTVM • ESTUDOS MONOGRÁFICOS ISSN: 2182-8814 Apresentação: esta série destina-se a publicar estudos de fundo sobre um leque variado de temas e perspetivas de abordagem (literatura, cultura, história antiga, arqueologia, história da arte, filosofia, língua e linguística), mantendo embora como denominador comum os Estudos Clássicos e sua projeção na Idade Média, Renascimento e receção na atualidade. Breve nota curricular sobre os autores do volume Delfim F. Leão é Professor Catedrático do Instituto de Estudos Clássicos e investigador do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. As suas principais áreas de interesse científico são a história antiga, o direito e a teorização política dos Gregos, a pragmática teatral e a escrita romanesca antiga. Tem-se dedicado igualmente à área das Humanidades Digitais. José Augusto Martins Ramos é Professor Emérito da FLUL, licenciado em Teologia (Instituto Católico de Toulouse 1969), Ciências Bíblicas e Orientais (Instituto Bíblico de Roma, 1972), doutorado em História Antiga (Universidade de Lisboa, 1989). Áreas de trabalho: Hebraico, Acádico, Ugarítico; História da Antiguidade Pré-Clássica e História das Culturas da Antiguidade Pré-Clássica; História Comparada das Religiões Pré-Clássicas; Literaturas Pré-Clássicas; História do Cristianismo Antigo; tradutor e coordenador científico, desde 1972 até ao presente, em vários projetos e modelos diferentes de tradução da Bíblia, em colaboração com a Sociedade Bíblica, a Difusora Bíblica e a Conferência Episcopal Portuguesa. Além do trabalho de tradução e coordenação, as suas numerosas publicações inscrevem-se na variedade de temáticas referidas. Nuno Simões Rodrigues é Doutor em Letras, especialidade de História da Antiguidade Clássica. Professor da Universidade de Lisboa e investigador dos Centros de História e de Estudos Clássicos da ULisboa e de Estudos Clássicos e Humanísticos da UCoimbra. Tem-se dedicado ao estudo da cultura grega (mitologia e religião), da sociedade e política romanas do fim da República e início do Principado e da receção de temas clássicos no cinema. Publicou «Iudaei in Vrbe. Os Judeus em Roma do tempo de Pompeio ao tempo dos Flávios» (2007) e «Mitos e Lendas da Roma Antiga» (2ª ed. 2010). Série Humanitas Supplementum Estudos Monográficos Estruturas Editoriais Série Humanitas Supplementum Estudos Monográficos ISSN: 2182‑8814 Diretor Principal Main Editor Delfim Leão Universidade de Coimbra Assistentes Editoriais Editoral Assistants Daniela Dantas Universidade de Lisboa João Pedro Gomes Universidade de Coimbra Martim Aires Horta Universidade de Lisboa Comissão Científica Editorial Board Carlos Fabião Universidade de Lisboa Cláudia Teixeira Universidade de Évora Francisco Caramelo Universidade Nova de Lisboa Inmaculada Vivas Sáinz Universidad Nacional de Educación a Distancia, Madrid Juan Luis Montero Fenollós Universidad de La Coruña Juan Pablo Vita CCHS‑CSIC, España Judith Mossman University of Coventry Lucía Díaz‑Iglesias ILC‑CCHS‑CSIC, España Paolo Fedeli Università degli Studi di Bari «Aldo Moro» Roberto Nicolai Università di Roma «La Sapienza» Sabino Perea Yébenes Universidad Nacional de Educación a Distancia, Madrid William J. Dominik University of Otago Todos os volumes desta série são submetidos a arbitragem científica independente. Delfim Leão, José Augusto Ramos, Nuno Simões Rodrigues (coords.) Universidade de Coimbra, Centro de História da Universidade de Lisboa Arqueologias de Império IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA COIMBRA UNIVERSITY PRESS Conceção Gráfica Graphics Rodolfo Lopes, Nelson Ferreira Infografia Infographics Nelson Ferreira Impressão e Acabamento Printed by KDP ISSN 2182‑8814 ISBN 978‑989‑26‑1625‑4 ISBN Digital 978‑989‑26‑1626‑1 DOI https://doi.org/10.14195/978‑989‑26‑1626‑1 Título Title Arqueologias de Império Archaeologies of empire Coords. Eds. Delfim Leão, José Augusto Ramos, Nuno Simões Rodrigues Editores Publishers Imprensa da Universidade de Coimbra Coimbra University Press www.uc.pt/imprensa_uc Contacto Contact imprensa@uc.pt Vendas online Online Sales http://livrariadaimprensa.uc.pt Elaboração de Índices Index listing Daniela Dantas Martim Aires Horta Coordenação Editorial Editorial Coordination Imprensa da Universidade de Coimbra © Setembro 2018 Trabalho publicado ao abrigo da Licença This work is licensed under Creative Commons CC‑BY (http://creativecommons.org/licenses/by/3.0/pt/legalcode) POCI/2010 Imprensa da Universidade de Coimbra Classica Digitalia Vniversitatis Conimbrigensis http://classicadigitalia.uc.pt Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra Série Humanitas Supplementum Estudos Monográficos Projeto UID/ELT/00196/2013 ‑ Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra e Projeto UID/HIS/04311/2013 – Centro de História da Universidade de Lisboa Arqueologias de Império Archaeologies of empire Coordenadores editors Delfim Leão, José Augusto Ramos, Nuno Simões Rodrigues (coords.) Filiação Affiliation Universidade de Coimbra, Centro de História da Universidade de Lisboa, Universidade de Lisboa Resumo Este contributo português para a discussão da ideia de «Império» consiste num conjunto de 17 estudos que abrangem também as várias áreas de investigação da Antiguidade. A partir das fontes bíblicas, propõe‑se uma estruturação de categorias e uma organização de semânticas como possíveis caminhos para o entendimento da ideia de «império». Aborda‑se o caso egípcio, focando‑se a problemática da periodização da História egípcia e a terminologia utilizada para a definir, bem como a desintegração política que ocorreu no Egito no final do Império Novo. Para o universo dos impérios antigos da Mesopotâmia, foca‑se a emergência da hegemonia paleobabilónica através da análise da ideologia subjacente às políticas sociais e militares levadas a cabo por Hammurabi em dois momentos cruciais da história da Babilónia: a guerra contra o Elam e o ataque ao reino de Larsa, e reflete‑se sobre o facto de, habitualmente, ser atribuído à dinastia de Akkad o estatuto de “Primeiro Império”. Para o espaço da Anatólia e do território fenício/siro palestinense, recorre‑se a um método que colhe nas narrativas mítico‑religiosas elementos para o estudo das realidades políticas e apresenta‑se uma reflexão sobre Imperialismo no mundo colonial fenício. As civilizações e sociedades neomesopotâmicas estão representadas neste livro por estudos sobre contextos de violência, militar ou venatória; sobre Jeremias e a defesa de uma submissão divinamente fundamentada de Judá ao chamado Império Neobabilónico; sobre a figura de Nabónido, o último rei deste período; e ainda sobre os diferentes comportamentos de Nabónido e de Ciro relativamente ao culto de Marduk. Sobre a Pérsia, lemos textos sobre a teorização política que Heródoto apresenta em 3.80‑82 e acerca das rainhas na Pérsia Antiga. De igual modo, sobre o período helenístico, reflecte‑se sobre o papel e a importância da mulher na sociedade helenística, especialmente no que diz respeito à esfera do poder. Nos últimos quatro estudos deste conjunto de ensaios, propõe‑se uma genealogia conceptual para a ideia de imperium no mundo romano; trata‑se a representação que na historiografia antiga se faz do processo de construção do imperialismo romano e dos seus intervenientes; analisa‑se as Vidas dos Césares, obra em que Suetónio revela a sua interpretação do poder imperial e a forma como ele deve ser exercido; e sugere‑se uma ideia de globalização para o mundo romano tardio. Palabras‑clave Império Egípcio, Império Assírio, Império Babilónico, Império Fenício, Impérios Anatólicos, Império Helenístico, Império Romano. Abstract This Portuguese contribution to the debate on the concept of “Empire” brings together 17 essays covering various areas and periods across Antiquity. Biblical sources allow us to structure various categories and organize their related meanings as valuable paths to inform our understating of the idea of “Empire”. Egypt first serves as the opportunity to inquire the usefulness of “Empire” as a concept within the larger discussion of periodization in History, as well as the scope and limitations of its definitions, as the observed political dissolution in the Late New Kingdom shows. Regarding Ancient “Mesopotamian Empires”, the first “Empire” is usually attributed to the political formulas brought forth by the dynasty of Akkad, which emerged before the hegemony of Babylon. The underlying ideology to Hammurabi’s social and military policies through two crucial moments in Babylonian History provides the ground to analyze the emergence of its first hegemony: the war with Elam and the expedition to the Kingdom of Larsa. Approaches to the Anatolian and the Phoenician/Syrian‑Palestinian territories follow a methodology focused on myth and religious narratives and the traces of political realities found there, as well as a reflection on the validity of “imperialism” when applied to the Phoenician colonial world. Later Mesopotamian imperial formulas are analyzed within the context of violence, military and ritual: on Jeremias and the rationale for a heavenly justified submission of Judah to the so‑called “Neo‑Babylonian Empire”; on Nabonidus, the last king of this dynasty; and on the diverging behavior of both Nabonidus and Cyrus to the cult of Marduk. Herodotus, a privileged source for the classical perception of eastern formulas, displays the Persian Empire as the background for different Greek political proposals at play (famously in 3.80‑82), and informs us of the queenship and the queens of Ancient Persia. Moreover, the role and status of women in Hellenistic societies is further examined, most notably in its relations to power. The last four essays propose a conceptual genealogy for the idea of imperium through the Roman World: from the representation Ancient Historiography creates of the processes structuring Roman “imperialism” and their agents; the interpretation Suetonius proposes of imperial power and how it ought to be used; to the validity of a certain notion of “globalization” applied to the Late Roman expanse. Keywords Egyptian Empire, Assyrian Empire, Babylonian Empire, Phoenician Empire, Anatolian Empires, Hellenistic Empires, Ro‑ man Empire. Coordenadores Delfim F. Leão é Professor Catedrático do Instituto de Estudos Clássicos e investiga- dor do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra. As suas principais áreas de interesse científico são a história antiga, o direito e a teori- zação política dos Gregos, a pragmática teatral e a escrita romanesca antiga. Tem-se dedicado igualmente à área das Humanidades Digitais. Orcid ID: 0000-0002-8107-9165 (leo@fl.uc.pt) José Augusto Martins Ramos é Professor Emérito da FLUL, licenciado em Teologia (Instituto Católico de Toulouse 1969), Ciências Bíblicas e Orientais (Instituto Bíblico de Roma, 1972), doutorado em História Antiga (Universidade de Lisboa, 1989). Áreas de trabalho: Hebraico, Acádico, Ugarítico; História da Antiguidade Pré-Clássica e História das Culturas da Antiguidade Pré-Clássica; História Comparada das Reli- giões Pré-Clássicas; Literaturas Pré-Clássicas; História do Cristianismo Antigo; tradutor e coordenador científico, desde 1972 até ao presente, em vários projetos e modelos diferentes de tradução da Bíblia, em colaboração com a Sociedade Bíblica, a Difusora Bíblica e a Conferência Episcopal Portuguesa. Além do trabalho de tra- dução e coordenação, as suas numerosas publicações inscrevem-se na variedade de temáticas referidas. Orcid ID: 0000-0002-3247-2163 (joseramos@letras.ulisboa.pt) Nuno Simões Rodrigues é Doutor em Letras, especialidade de História da Antiguidade Clássica. Professor da Universidade de Lisboa e investigador dos Centros de História e de Estudos Clássicos da ULisboa e de Estudos Clássicos e Humanísticos da UCoimbra. Tem-se dedicado ao estudo da cultura grega (mitologia e religião), da sociedade e política romanas do fim da República e início do Principado e da receção de temas clássicos no cinema. Publicou Iudaei in Vrbe. Os Judeus em Roma do tempo de Pompeio ao tempo dos Flávio s (2007) e Mitos e Lendas da Roma Antiga (2ª ed. 2010). Orcid ID: 0000-0001-6109-4096 (nonnius@fl.ul.pt) Editors Delfim F. Leão is Full Professor at the Institute of Classical Studies and researcher at the Centre for Classical and Humanistic Studies at the University of Coimbra. His main areas of scientific interest are ancient history, law and political theory of the Greeks, theatrical pragmatics, and the ancient novel. He also has a deep interest in Digital Humanities. José Augusto Martins Ramos is an Emeritus Professor at the School of Arts and Humanities, graduated in Theology (Catholic Institute of Toulouse, 1969), Oriental and Biblical Sciences (Biblical Institute at Rome, 1972), and has a PhD in Ancient History (University of Lisbon, 1989). His main areas of research, on which he has published extensively, are: Hebrew, Akkadian, Ugaritic, History and Culture of Ancient Near- Eastern Societies, Ancient Near-Eastern Literature, Comparative History of Religions, Ancient Christianity. Since 1972, has translated and coordinated various projects on the Bible and its Portuguese translations, in collaboration with the Portuguese Biblical Society, Difusora Bíblica and the Portuguese Episcopalian Conference. Nuno Simões Rodrigues is Professor at the University of Lisbon and researcher at the Centres for History and Classical Studies at ULisbon and for Classical and Humanistic Studies at University of Coimbra. He has a PhD in Ancient History (Classical History) and his main scientific areas of research are Greek culture (Mythology and Religion), Roman society and politics (from the end of the Republic to the beginnings of the Principate), and also to the reception of Classical themes in cinema. He has published “Iudaei in Vrbe”. Os Judeus em Roma do tempo de Pompeio ao tempo dos Flávios (2007) and Mitos e Lendas da Roma Antiga (2nd ed. 2010). Sumário Apresentação: De Imperio – De imperiis 13 Delfim F. Leão, José A. Ramos, Nuno S. Rodrigues Mitologias, Teologias e Taxonomias da História, seguindo a ideia bíblica de império 21 (Mythologies, Theologies and Taxonomies of History through the biblical idea of empire) José A. Ramos Os Impérios da História do Antigo Egipto: em torno do conceito de «Império» 37 (Empires in the History of Ancient Egypt: on conceptual validity of «Império») José das Candeias Sales Começar de novo: a «repetição do nascimento» e a transformação política do Egito na viragem para o I Milénio 57 (Starting anew: the «repetition of birth» and Egypt’s political transformation on the brink of the 1st Millenium) Rogério Sousa Hammu-rabi e o início da sua ascensão até à hegemonia: a ordem política e a legitimação divina 75 (Hammu-rabi and the beginning of his hegemonic ascent: political order and divine legitimation) Maria de Fátima Rosa «Rei das Quatro Regiões»: Sargão de Akkad e o modelo imperial na Mesopotâmia 89 (‘King of the four lands’: Sargon of Akkad and the imperial model in Mesopotamia) Marcel L. Paiva do Monte A hurritização das conceções mitológicas de poder no império hitita 107 (The hurritisation of mythological concepts of power in the Hittite Empire) João Paulo Galhano Imperialismo no Mundo Colonial Fenício 139 (Imperialism in the Phoenician colonial World) Elisa de Sousa Decapitação e exibição do inimigo como discurso e exercício de poder no império neoassírio 155 (Decapitation and exhibition of the enemy as discourse and exercise of power in the neo-Assyrian empire) Marcel Paiva do Monte Beber do Nilo ou do Eufrates? O papel (do Livro) de Jeremias na legitimação do imperium neobabilónico em Judá 179 (To drink from the Nile or the Euphrates? On the role of (the book of) of Jeremiah in legitimising the Neo-Babilonic imperium over Judah) João Pedro Vieira Nabónido e o final do Império Neobabilónico 201 (Nabonidus and the end of the Neobabilonian Empire) António Ramos dos Santos A queda da Babilónia em 539 a.C. Nabónido e Ciro: duas atitudes divergentes face ao culto do deus Marduk 209 (The fall of Babylon in 539 BC. Nabonidus and Cyrus: two different approaches to the cult of god Marduk) Maria de Fátima Rosa Monarcas persas nas Histórias de Heródoto: lei e liberdade, fundamentos da ideologia monárquica 221 (Persian Kings in Herodotus’ Histories: Law and Freedom, roots of the monarchic ideology) Carmen L. Soares Ser rainha na Pérsia antiga 237 (To be a Queen in Ancient Persia) Maria de Fátima Silva Peri Basilissas Em torno da importância política de cinco rainhas helenísticas 257 ( Peri Basilissas . Regarding the political importance of five Hellenistic queens) Nuno Simões Rodrigues O Imperium , da origem ao Principado 277 ( Imperium , from origin to Principate) Filipe Carmo A construção do império na Hispânia: contrastes nas narrativas da conquista romana do Ocidente 295 (Building the empire in Hispania: contrasts amongst the narratives on the Roman conquest of the West) Amílcar Guerra Um olhar sobre o poder imperial em Suetónio 311 (A look over imperial power in Suetonius) José Luís Brandão Peregrinationes ad loca sancta : o estranho percurso de Melânia-a-Antiga num Mediterrâneo globalizado 331 ( Peregrinationes ad loca sancta : the strange route of Melania-the-Elder in a globalised Mediterranean) Rodrigo Furtado Índice Teonímico 347 Índice Antroponímico 349 Índice Toponímico e Etnonímico 356 Índice de Fontes Antigas 363 (Página deixada propositadamente em branco) 13 Delom F. Leão, José A. Ramos, Nuno Simões Rodrigues Apresentação De Imperio – De Imperiis O livro que agora se publica resulta de um seminário interdisciplinar de História Antiga, organizado pelos Centros de História da Universidade de Lisboa e de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra 1 . O referido seminário decorreu na Universidade de Lisboa, em três momentos distribuídos pelos seguintes subtemas: “Fórmulas originárias de Império”, “Impérios da era axial” e “Impérios da globalização”. O principal objetivo deste encontro, que reuniu especialistas em Estudos da Antiguidade provenientes de seis Universidades portuguesas (Lisboa, Coimbra, Nova de Lisboa, Porto, Aberta e Évora), foi refletir sobre o conceito de “Império” e a sua aplicação aos momentos-chave da História Antiga, do Egito ao Mundo Romano. Se, para este último caso, a aplicação de uma ideia que é na sua origem latina/romana não coloca grandes problemas teóricos ou epistemológicos, o mesmo não se poderá dizer sobre todas as realidades político-institucionais que antecedem o universo romano. Com efeito, como bem nota Filipe Carmo no texto que aqui se publica, imperium é um conceito romano, com uma evolução própria e uma aplicação histórica e historiograficamente específica, pelo que, apesar do pragmatismo e da sua utilidade enquanto ferramenta conceptual, os historiadores, como os arqueólogos e os filólogos, devem estar conscientes dos perigos de anacronismo e das limitações epistemológicas que ele implica 2 . Isso não obsta, porém, que a matriz do que reconheceremos como modelo imperial romano remonte à Época Pré-Clássica, como bem mostrou Francis Joannès 3 Importa, também por isso, refletir sobre a pertinência e eficácia do seu uso quando nos referimos a outras épocas da História, muito especialmente as que se definiram antes de Roma se ter assumido como uma macroestrutura política que veio a trilhar de modo definitivo o caminho que a Humanidade tem vindo a percorrer desde então. Além disso, importa ter também presente, como nota Christophe Badel 4 , que a noção de “Império” conhece nos dias de hoje interesse renovado por todos os que se interessam por geopolítica e por cientistas e filósofos políticos, quando se debruçam sobre as formas contemporâneas do nosso “universo globalizado”. A 1 Esta investigação foi realizada no âmbito dos projetos UID/ELT/00196/2013 do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra e UID/HIS/04311/2013 do Centro de História da Universidade de Lisboa, financiados pela FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia. 2 Sobre esta problemática, vide também Jones 1951; Burchard 1957; Lintott 1981; Richard- son 1991; Martin 1995; Hurlet 2011; Hoët-Van Cauwenberghe 2011; Cresci & Gazzano 2018. 3 Joannès 2011. 4 Badel 2011, 9. 14 Apresentação De Imperio – De Imperiis perceção de que aquela é uma noção complexa manifesta-se, no texto de Badel, logo no início, quando o autor faz questão de explicitar que “l’usage veut que l’on distingue les deux sens du mot empire par le choix de la minuscule ou de la majuscule en début de mot. L’Empire designe le regime politique monarchique et l’empire la domination territoriale. Nous utiliserons donc la minuscule sauf dans le cas d’un empire particulier puisqu’alors il s’agit d’un nom propre. Nous parlerons donc ‘des empires’ mais de ‘l’Empire romain’ 5 Parece-nos que o alerta de C. Badel enuncia já as problemáticas subjacentes ao tratamento desta questão. É com ela no horizonte que vários especialistas se dedicaram já ao tema, analisando-a, e.g., no contexto da história mesopotâmica e persa 6 , grega e helenística em geral 7 e romana (vide referências na nota 2 desta introdução 8 ). A esses estudos também não é estranho o conceito de “imperialismo”, enquanto ideia radicada na historiografia do século XIX, sobretudo, e influenciada pelas realidades políticas de então, nomeadamente o “Império Britânico”. Com efeito, cedo nos apercebemos de que muito do que a historiografia da Antiguidade ainda hoje utiliza enquanto ferramenta conceptual para o tratamento das questões da política e do domínio e administração de territórios a essa realidade muito deve. Também neste campo deve o historiador estar alerta 9 Este contributo português para a discussão da temática consiste num conjunto de 17 estudos que abrangem também as várias áreas de estudo da Antiguidade. A título de introdução, José Augusto Ramos apresenta um texto intitulado “Mitologias, teologias e taxonomias da História, seguindo a ideia bíblica de império”, com que pretende, a partir das fontes bíblicas, estruturar categorias e organizar semânticas como possíveis caminhos para o entendimento da ideia em debate. Para o caso egípcio, José das Candeias Sales escreve sobre “Os Impérios da História do Antigo Egito: em torno do conceito de ‘Império’”, texto que se foca na problemática da periodização da História egípcia e na terminologia utilizada para a definir. Com efeito, as fórmulas “Império Antigo”, “Império Médio” e “Império Novo” são por norma as usadas pelos egiptólogos portugueses, sendo que o autor se interroga, e nos faz interrogar, sobre a pertinência da aplicação do conceito de “império” a estas épocas da história egípcia. Rogério Sousa reflete acerca de “Começar de novo: a ‘repetição do nascimento’ e a transformação política do Egito na viragem para o I Milénio”, sendo o seu ponto de partida a desintegração política que ocorreu no Egito no final do Império Novo. Segundo o 5 Badel 2011, 9. 6 Joannès 2011. 7 Gregor 1953, Ste. Croix 1954, Mossé 2011, Pébarthe 2011, Martinez Sève 2011. 8 Veja-se ainda Garnsey et Whittaker [1978] 2007. 9 Veja-se Barroll 1980 e Le Roux 2011. 15 Delom F. Leão, José A. Ramos, Nuno Simões Rodrigues autor, esse período partilha muitos aspetos com a crise que afetou as civilizações da bacia do Mediterrâneo na transição da Idade do Bronze para a Idade do Ferro. Muito mais bem documentada no espaço egípcio do que noutros contextos, porém, esta transição não irrompeu de forma violenta nem foi acompanhada de uma crise cultural profunda, como aparentemente se poderia supor. Ainda assim, o chamado Terceiro Período Intermediário apresenta uma organização política completamente distinta que parece ter sido posta em prática ao longo do que se convencionou chamar de “Repetição do Nascimento”. Para o universo dos impérios antigos da Mesopotâmia, contamos com a proposta de Maria de Fátima Rosa, “Hammu-rabi e o início da sua ascensão até à hegemonia: a ordem política e a legitimação divina”. A autora foca-se na emergência da hegemonia paleobabilónica através da análise da ideologia subjacente às políticas sociais e militares levadas a cabo por Hammu-rabi em dois momentos cruciais da história da Babilónia: a guerra contra o Elam e o ataque ao reino de Larsa. O contributo de Marcel Paiva do Monte tem por título “‘Rei das Quatro Regiões’: Sargão de Akkad e o modelo imperial na Mesopotâmia”. Com este estudo, M. Monte reflete sobre o facto de, habitualmente, ser atribuído à dinastia de Akkad (ca. 2334-2154 a.C.) o estatuto de “Primeiro Império”. De facto, apesar de o domínio alargado que exerceu sobre o Próximo Oriente revelar uma continuidade com realidades anteriores, a vigência de Akkad originou uma nova tradição que estruturou e marcou definitivamente a cultura política mesopotâmica. Akkad tornou-se o paradigma de um horizonte de poder universal e o seu primeiro rei, Sargão, um modelo de realeza, que viria a ser objeto de emulação por parte de muitas das entidades políticas que surgiram posteriormente na Mesopotâmia. Para o espaço da Anatólia e do território fenício/siro-palestinense, contamos com os contributos de João Paulo Galhano e de Elisa de Sousa. Galhano escreve sobre “A hurritização das conceções mitológicas de poder no império hitita”. Este estudo recorre a um método que colhe nas narrativas mítico-religiosas elementos para o estudo das realidades políticas. Assim, analisam-se sobretudo os processos de hurritização dos conteúdos mitológicos hititas, verificando-se, após análise da hurritização étnica do território da Anatólia, que, nos mitos de divindades ausentes, subsistem conceções de interdependência e correlação dos entes divinos, a par de uma tendência não hierárquica de organização do panteão anatólico antigo. As narrativas hurritas trouxeram assim ao panteão anatólico estruturas que evidenciam ideias de realeza divina, de valorização do horizonte familiar e de diferenciação das instâncias de poder. Os mitos hurritas trouxeram ainda dimensões temporais alargadas e uma encenação literária da soberania. Sousa apresenta uma reflexão sobre “Imperialismo no mundo colonial fenício”, estudo que se centra na problemática da colonização fenícia no Mediterrâneo Central, Ocidental e nas costas atlânticas. Com efeito, este processo teve um impacte profundo, não só em termos socioeconómicos, mas também culturais, 16 Apresentação De Imperio – De Imperiis nos territórios ultramarinos da Fenícia. A evidência disso está no facto de a herança oriental se vir a sobrepor, em múltiplas ocasiões, ao substrato autóctone precedente, como mostra a evidência da cultura material, por exemplo. Neste sentido, estamos perante relações de domínio que poderão ser interpretadas, segundo a autora e na linha de estudos desenvolvidos por Garelli ou Liverani, no âmbito de uma ideia de “imperialismo cultural”. As civilizações e sociedades neomesopotâmicas estão representadas neste livro por quatro estudos. Marcel Monte oferece-nos um texto sobre a “Decapita- ção e exibição do inimigo como discurso e exercício de poder no império neoas- sírio”. Com efeito, em contextos de violência, militar ou venatória, a decapitação parece ter sido, na Mesopotâmia, um ato de inusitada atrocidade; mas com um propósito: simbologia e semiótica. Assim, atos como a apropriação da cabeça de um inimigo ou caput hostis seriam essencialmente mecanismos de propaganda, a componente visível de uma sinédoque poderosa que manifestava a derrota do adversário e a ruína de tudo o que isso representava para o vencedor. Em síntese, expressões de poder de uma estrutura que se queria hegemónica. A investigação de João Pedro Vieira leva por título “Beber do Nilo ou do Eufrates? O papel (do Livro) de Jeremias na legitimação do imperium neobabilónico em Judá” e estabelece a relação entre o período neobabilónico e o espaço dos Hebreus. Com base em Jr. 27-29, este estudo argumenta que Jeremias defendia uma submissão divinamente fundamentada de Judá ao chamado Império Neobabilónico. Suge- re-se ainda que a intervenção sociopolítica daquele profeta poderá ter sido reco- nhecida pelas elites políticas neobabilónicas como instrumento de legitimação e imposição do seu poder e domínio sobre Judá. O terceiro estudo deste grupo é da autoria de António Ramos dos Santos e tem por tema “Nabónido e o final do Império Neobabilónico”. Neste texto lemos sobre a figura de Nabónido, o último rei daquele período, bem como sobre a questão do poder régio nesse mesmo contexto. Por fim, ainda no âmbito da Babilónia, fazendo já a transição para o universo persa, Maria de Fátima Rosa dá-nos a ler “A queda da Babilónia em 539 a.C. Nabónido e Ciro: duas atitudes divergentes face ao culto do deus Marduk”, texto com que a autora analisa algumas fontes cuneiformes que servem para explorar os diferentes comportamentos de Nabónido e de Ciro relativamente ao culto de Marduk. Sobre a Pérsia propriamente dita, contamos com os trabalhos de Carmen Soares e de Maria de Fátima Silva. Especialista em Heródoto, C. Soares publica “Monarcas persas nas Histórias de Heródoto: lei e liberdade, fundamentos da ideologia monárquica”. Neste estudo, a autora apoia-se na teorização política que Heródoto apresenta em 3.80-82 e passa em revista passos fundamentais das Histórias para a caracterização dos governos monocráticos dos soberanos persas. O que se busca clarificar é a forma como a relação desses governantes com a lei e a liberdade/servidão em que se encontram os que governam nos leva a concluir sobre a inexistência de uma figura modelar de monarca. Heródoto 17 Delom F. Leão, José A. Ramos, Nuno Simões Rodrigues oferece, sim, dos monarcas tanto “retratos mistos” (daqueles que se governam ora com justiça, ora de modo despótico, como Ciro e Dario e, antes deles, Déjoces da Média), como um “retrato puro” (do tirano insolente, Cambises). Igualmente perita nos textos do pater historiae , M. F. Silva disserta acerca de “Ser rainha na Pérsia Antiga”. Para isso, porém, a autora recorre não apenas às informações fornecidas por Heródoto, mas também a outros textos gregos coevos ou posteriores, como os de Ésquilo e Plutarco. Com efeito, estes são os autores que, em diferentes épocas, melhor retratam a vida na corte persa e a in- fluência feminina que circundava os seus monarcas. Mas é de salientar também que, apesar do muito que se sugere historicamente verdadeiro, não será pouco o que ali lemos que terá sido composto sob as cores da fantasia e da ideologia do contexto político-cultural dos autores desses textos. O período helenístico está representado pelo estudo de Nuno Simões Rodrigues, “ Peri Basilissas . Em torno da importância política de cinco rainhas helenísticas”. Com este trabalho, o autor pretende refletir sobre o papel e a im- portância da mulher na sociedade helenística, especialmente no que diz respeito à esfera do poder, a partir do estudo de cinco casos: Olímpia do Epiro, Laódice I da Síria, Berenice I do Egito, Arsínoe II do Egito e Cleópatra VII do Egito. É ao período romano que se dedicam os últimos quatro estudos deste conjunto de ensaios. O primeiro deles é da autoria de Filipe Carmo e consiste num ensaio em que o autor tenta estabelecer uma genealogia conceptual para a ideia de imperium no mundo romano. Assim, em “O Imperium , da origem ao principado”, F. Carmo começa por assinalar o facto de, originalmente e para al- guns autores, o conceito se relacionar com o “poder soberano de comando”, um poder absoluto de vida e de morte – e por isso também de implicações religiosas que se manifestavam na esfera dos auspicia –, ao qual os “súbditos” deviam obedecer sem restrições. O estudo da evolução do conceito – que para outros historiadores poderá ter tido origem no estabelecimento de uma hegemonia do Estado Romano sobre outros estados, ou no comando militar de uma aliança ou ainda numa afirmação de carácter pessoal, uma potência carismática condu- cente ao êxito, assumida pelo chefe – leva-nos a verificar a sua compatibilidade com a ideia de cidadania e, naturalmente, a não entender a referida obediência de um modo absoluto. A aquisição do imperium pelos magistrados superiores da cidade estaria, por outro lado, estreitamente associada a uma sucessão de atos de natureza civil e religiosa, cujo não cumprimento adequado poria em causa a legitimidade do exercício de tal poder. Para Carmo, terá sido precisamente uma crise dessa legitimidade, iniciada pela atomização do poder e derivada das con- quistas romanas e das guerras civis, que conduziu, numa fase posterior – através das ditaduras de Sula e de César, dos triunviratos e da criação do principado –, a uma reação que levou à concentração progressiva do imperium e à institucio- nalização do imperium Romanum sob formas que já são próximas dos conceitos modernos de “império” e “imperialismo”. Amílcar Guerra analisa a problemática