1 2 Pulsátil Poemas canhestros & prosas ambidestras B-Sides LIVRO GRATUITO 2014 Textos, fotos, ilustrações e edição: Sammis Reachers 3 Não é poeta aquele que não haja sentido a tentação de destruir a linguagem e de criar outra, aquele que não haja experimentado a fascinação da não significação e da não menos aterradora significação indizível. Octavio Paz 4 Índice Apresentação ............................................................................... 06 Poemas ........................................................................................... 07 Vou-me embora pra Pasárgada ............................................................................ 07 O editor de Poesia ...................................................................................................... 09 Parabellum .................................................................................................................... 11 A morte de Samuel Ricardo ................................................................................... 13 Farmacopéia Ekklesia .............................................................................................. 14 A Páscoa do Equalizador ......................................................................................... 15 Da conversão de Samuel Ricardo, jagunço de Lampião, no sertão da Bahia, em 1931 ............................................................................................................ 16 A última Aurora ........................................................................................................... 17 Aos teólogos formados, em formação, aos cardumes por nascer .......... 18 O Reino ............................................................................................................................ 19 Aos 24 anos (pouco) antes de Cristo ................................................................. 20 Aria of Sorrow .............................................................................................................. 21 Crepúsculo dos Deuses: Ragnarök ...................................................................... 22 Da Centúria perdida do (falso) profeta Nostradamus ................................ 23 Evangélica, Poesia ...................................................................................................... 24 Foucault e eu ................................................................................................................ 25 Fundação Roberto Marinho ................................................................................... 26 Hai Kai ............................................................................................................................. 27 Lamento à maneira antiqua ................................................................................... 28 Mar Ocidental ............................................................................................................... 29 Menina-mulher ............................................................................................................ 30 O poema pitanga ......................................................................................................... 31 Cantiga dos Moleques Fruteiros .......................................................................... 32 Moleques moleskines feitos de Jamelão ........................................................... 34 O poeta é um desvelado ........................................................................................... 35 PADMA ...................................................................................................... 36 Peter Pa(i)n ............................................................................ .... ............... 37 Skywalker, Anakin: JEDI ............................................................ ........ ....... 38 Sobre meninos e lobos ............................................................................................. 39 Casadoiro ....................................................................................................................... 41 Equívocos ....................................................................................................................... 42 Num bordel em Alexandria .................................................................................... 43 Rimbaudiano ................................................................................................................ 44 Ofício ................................................................................................................................ 45 Mote ................................................................................................................................. 46 5 O Zepelim Salmão ....................................................................................................... 47 Pew, o Cego ................................................................................................................... 48 Portões de Esparta ..................................................................................................... 50 Vaidade das vaidades ............................................................................................... 54 Jorge Luís Borges ........................................................................................................ 55 A Ilha (Secreta) de Patmos ..................................................................................... 56 Foto: Jurujuba .............................................................................................................. 57 Poemas primários: São Gonçalo de Todos os Santos ... 58 DIZ ..................................................................................................................................... 59 Apologia D’Eu ............................................................................................................... 60 A Suíte do Tempo e da Morte ................................................................................ 61 Tolices ............................................................................................................................. 62 Do Asfalto ....................................................................................................................... 63 Objeto- poema: “ Machina Signifária ” .................................................................. 64 Reflexões, Frases e Flashes ................................................... 65 Pintura: CRUZ ............................................................................................................... 88 Esparsas Prosas .......................................................................... 89 Sobre essa menininha, a Esperança ................................................................... 89 INGRESSOS À VENDA – Apenas para os que não podem comprá-los .................................................................................................................... 97 Deus das circunferências ........................................................................................ 98 Jasão ................................................................................................................................. 99 Espasmos de Ecoteologia ..................................................................................... 100 Exposição-para-a-aniquilação do fariseu em mim .................................... 101 Foto: Abstrato ............................................................................................................ 102 A Poesia Carnal de Mathias Raws .................................... 103 Pulsátil .......................................................................................................................... 103 De como o poetastro cínico Samerson Mesmer Fassbender desconstrói, em catastróficos versos, as sofridas heroínas dos contos infantis ..... 104 Ocarina de Bodom ................................................................................................... 106 Na esquina da Duque de Caxias com a Rio Branco .................................... 109 Autorretrato: Bufão, Clown de Pasárgada e mestre falsário, chora em tintas a morte de Calíope ....................................................................................... 111 Sobre o autor ..................................................................................................... 112 6 Apresentação E ste livro é uma estranha antologia: reuni aqui poemas esparsos, dos mais novos aos mais antigos, de bons comuns poemas a B-sides, mas que não entraram, por quaisquer motivos, nos meus livros anteriores. E ainda um resgate: poemas de meu primeiro, terrível (de ruim) e renegado livrinho, São Gonçalo de Todos os Santos (1999). Salgando a miscelânea, a segunda parte do livro reúne uma pequena seleção de frases e pensamentos, geralmente publicados no Facebook. Alguns espontâneos, outros meditados, alguns devocionais, outros de viés mais carnal, satírico, espirituoso ou apenas gotículas de ácido destilado. E ainda algumas reflexões e prosas maiores. Falando em carnalidade, o livrinho termina com alguns textos de um certo Mathias Raws, falsário de passaportes e ladrão de bancos (regenerado) inglês, de cujo um poema retirei o título para este livro. E para completar a medida de balbúrdia em tudo isso, toques de minhas sinistras, canhestras incursões pelas artes plásticas também estão aqui, na figura de uma pintura, um objeto e fotografias. Provocações, balões de ensaio testando limites, ‘ tentando ’ os limites: sem estranhamento não há arte, não há literatura (mas apenas pedagogia, e a mais chã), sem o perigo das bordas do abismo herético, não se pode fazer boa teologia, não se pode expandi-la. Riscos que se corre e riscos que assumo, pois não vejo outra opção para justificar-me enquanto escritor. Não saberia fazer nada diferente. 7 Poemas Vou-me embora pra Pasárgada Vou-me embora pra Pasárgada lá sou amigo do Rei lutamos juntos na Guerra Civil Espanhola salvei-lhe a vida (que ele perdera num jogo de carteado, bem longe da liça) Em Pasárgada os dias são bem mais longos e eu não precisarei trabalhar, ou ao menos não morrerei desse mal soturno. Tenho lá seis namoradinhas Natália Bruna Tabita Renata Tayane e uma outra Bruna e terei tempo para todas, pois o tempo em Pasárgada é maior mais livre mais fosforescente e aos domingos irei pescar com meu amigo El Rei ou praticá-lo no jogo de cartas, para que ele em apostando a vida não a perca e ao não perdê-la seja também imortal como os demais deuses asiáticos. Vou-me embora para Pasárgada Ela fica no outro lado do orbe, no centro e topo da alteridade mesma: lá as cartas de cobrança jamais chegam em minha humilde porta e as mensagens são transmitidas por meio dos beijos, a estranhinsuspeitinstintiva (e doce) linguagem sem léxico que não carece de dicionário que a traduza ou gramática que a codifique. Em Pasárgada tenho salvo-conduto em cada canto e uma banda de rock onde canto e dou enfim utilidade a meus poemas e as peles de meus inimigos, oh, são tapetes onde piso na Grande Biblioteca Real, onde deito em livros a meia metade de meus dias de fausto. 8 Em Pasárgada meu amigo é o Rei conheci-o num jogo de cartas dos derrotados em Bilbao porém em Pasárgada, amigos, nunca mais perderemos. 9 O Editor de Poesia Sou um antologista lido com volumes dantescos, homéricos, catastróficos de poesia marranos cabalistas de um Século de Ouro, americanos movidos a LSD e mescalina franceses efeminados sul-americanos com ranço de Champs-Élysées ou com versariamentos crioulos de Marx Sim, sou um editor e antologista, lido com volumes dantescos homéricos catastróficos de VIDA, marroquina espartana turcomena cigana mujahedin explodindo cafés em Berlim tanques em Pequim ou silêncios na Revolução dos Cravos e deixando estrategicamente poemas nos bolsos dos cadáveres como os war poets ingleses que serão publicados numa revista qualquer alemã e que com exclusividade deitarei ao vernáculo, ao cotejar com as versões em castelhano de Tradutor A e Tradutor B sou um acumulado de livros, um Índice de enciclopédia ou de camaradas, uma biblioteca que esquece-se na semana seguinte amigo de dores de Camões e Tasso de culpa herdada de Bachmann e Celan, um acumulado de suicídios impresso em tamanho A5 papel pólen capa 4xcores laminada sem orelhas como um Van Gogh num espelho Lá venho eu pela estação Cinelândia, sapatos de dândi, chapeleta gauche roupas de um outsider - só um homenzinho com uma bolsa enorme de papéis e víveres, bananas e pão cristão protestante um provisório (hiper)hebreu Tzara triste (des)amparado em livros ruminando sobre como desferir uma cantada Moraesiana-Eluardiana 10 nas solipsas atendentes da Biblioteca Nacional Quanto a esses poetas, amigos invisíveis de uma criança solitária, como um Kohélet, um Salomão que quer manter a paz em seu harém, amo a grosso modo a todos eles, sem acepção os que estão ao meu lado, co- navegantes do mesmo zeitgeist ou os que estão nas estantes de baixo, ou nas- cendo nas de cima Como o estivador de uma Ode Triunfal ou um contrabandista francês mercando armas numa guerra africana, trans- porto-os, e se abraço-os assim tão forte, num enlaçar que é como um sorver a minha vida, é para continuá-los em celulose, em bits, em vocês. 11 Parabellum Sentar-me no banco 023 do Campo de Santana observar as cutias equilibrando-se sobre duas patas para roer amêndoas ou um mapa do céu que algum apressado estudante deixou cair Pensar em você, Noivinha de Cristo, escrever o mais lindo poema de amor de toda uma década, de toda esta camonicamaleônica língua Mas não; e se não posso tê-la, que a Literatura não me possua o poema, que ele morra arquétipo, abortado em mármore na tumba das perfeições platônicas. Os Imperativos Morais, esses radiosos demônios concebidos na Luz, a tudo manietam-me, e dizem resista soldado combata soldado morra combata resita combata morra morra Estou morto, cães de guarda, sou um de seus santos, sou uma sua besta de carga. Teus olhos estelares, ó Princesa do Planeta Koryander são a magnum opus de Cristo, sóis concentrados cujo fogo queima sem arder abrasando até as cinzas de cinzas de cinzas de meu coração, como quem chama Lázaro para fora... Gosto de quieto observá-los como um iogue observa uma mandala em busca de libertação, de samadhi ou como um exausto soldado de Cristo 12 observa todo o esplendor do Fim deste sistema iníquo de coisas que nos separam, ó grande apocalipse meu. 13 A Morte de Samuel Ricardo Para Kivitz, o temeroso da morte Estou sentado solitário em meu sofá, nesta sexta-feira da longa Paixão, e ao contemplar a janela, a luminosidade que ela deixa passar filtrada pela diáfana cortina de linho, penso que um dia a Morte entrará por esta mesma janela, arrombando-a; será talvez pela tarde, uma tardezinha de paz e livros e solidão como esta. Entrará epifânica, com um estrondo de trovão, a Morte – um dragão de escamas lindas, azuis como o céu e o mar. Entrará arrombando os ferros, explodindo a casa, ela a Morte, a coisa mais desejável depois do Rei. 14 Farmacopéia Ekklesia Ei-lo crucificado em (forma de) flor, espiral de galáxia primal Ele-o-amor Vamos, cristãos, industrializemos-lhe o santo Sangue consubstanciaremos cápsulas com ele - Marias juntem suas mãos em forma de concha, de graal capturem uma gota do Sangue Criaremos cápsulas, comprimidos de Amor Kerigmático, o amor da Proclamação; Amor Empático, o amor pelos que sofrem; Amor Charismático, o amor de perdoar. Vamos, cristãos, apressemo-nos - Tome senhor, tome senhora, ei!, menina, aqui as suas cápsulas de hoje Ei, rapazinho, engula esse pranto, e tome junto as cápsulas: Ele-aquela-flor já ressuscitou, e você para sempre foi desabilitado de morrer. Sim, você que sonhou sempre ser um guerreiro imortal: sorria, soldado. Ele-a-tua-blindagem chama-te, convida-nos para fora: Vamos para fora combater. 15 A Páscoa do Equalizador Cruz lent'arralastrando-lhe os passos n'ínvios pedaços do vil caminho direção a mais contrária à do ninho marcha o magro Deus para o antiabraço espadas, crucifixos passos abraços cancelados pelo caminho "jamais o conheci" diz o covardecrasso já tristetecida a coroa d ’ espinho o choro paralisado no angelespaço veja como vergam suas pernas finas quase as minhas Deus diminuído em pó no da morte de largo lastro laço anarcoroado maltra philos numa cruz embaralçado veja, eu o martelo o suspendo, escarro, atravesso. que eu não sei o que faço sussurra ágape ado Deus num suspirespasmo treme a terra. compreende o romano. sorri o anticristo. morre o Cordeiro para equalizar o Caos & aplacar a Lei. dentre três dias, anticristo, de baixo para cima no mural dito ETERNIDADE, estarás crucificado. 16 Da conversão de Samuel Ricardo, jagunço de Lampião, no sertão da Bahia, em 1931 Por Ti cancelo meus planos de vingança por Ti uma dúzia de vidas cujos horários e rotas eu já demarquei não serão interrompidas Por Ti Deus que embaralha minha língua com fogo e refreia a minha peixeira no peito do ar Quantas velhotas livraste de carpir pela morte certa dos trastes que pariram? Mas além requeres, manda-me amar o lixo, verter murro em abraço. Tento, mas como isso?? Senhor, essa Arma Viva, essa Carabina de Três Bocas, a arma Teu Espírito: Atravessa-me com isso, fura-me o bucho com amor. Aqui. Mira meu coração de pedra, Coronel. Manda bala, Deus Grande. 17 A última Aurora Ela aniquilará todas as precedentes, ao aniquilar o Tempo, ao estabelecer Deus-como-aurora Quando orar esta noite, rogue, rogue para que a aurora de amanhã seja calibrada no nível máximo: ARMAGEDON que o sol exploda com o dia para que Ele venha ocupar o lugar do sol. 18 Aos teólogos formados, em formação, aos cardumes por nascer “ Porém tu, Senhor, és um Deus cheio de compaixão, e piedoso, sofredor, e grande em benignidade e em verdade.” Salmo 86.15 Cale-se diante dEle toda a terra: Pois não existe angústia como a da Onisciência Não há pesadelo maior do que estar em todos os lugares quando em todos os lugares instalou-se aconchegada a dor Não há ansiedade como tudo poder, mas legislar e limitar-se a Si mesmo pelas Leis propostas Cale-se cale-se cale-se 19 O Reino Soldados cuja soma não completa um soldado dos tais é o Reino dos Céus por tais um Deus fez as vezes no da Morte abraço miseráveis miseráveis tão sobremaneira miseráveis que nada a fazer, ato algum, senão amá-los. 20 Aos 24 anos (pouco) antes de Cristo Um fliperama, três fichas de KOF, dois lances de vinho o mais barato observar Ísis, o Coração do Mundo, saindo de casa para o colégio branca como um trovão esvoaçante, que passa lento queimando o céu, queimando as coisas passíveis de fogo ir à casa de um amigo, ir à casa de dois, por uma hora e quarenta e quatro minutos olvidar todas essas Leis canhestras que me (im)pressionam o voo ser apresentado a Mishima, Genet, Bukowski, perder Ísis pelo Céu, sair vivo desse dia.