Poesia De saTuRNo Carolina Scaldelai ilustrações de édipo régis Copyright © 2020 ANA CAROLINA SCALDELAI DO NASCIMENTO Título Original: Poesia de Saturno instagram.com/poesiadesaturno e-mail: carolsaturnolivro@gmail.com Capa: Édipo Régis Projeto gráfico e diagramação: Bruno de Oliveira Literatura Brasileira 869.1 Todos os direitos resevados à ANA CAROLINA SCALDELAI DO NASCIMENTO , auditados e certificados por Avctoris , válido em 173 países. Impresso no Brasil. CDD 869.1 CDU - 82-1 Poesia de Saturno / SCALDELAI DO NASCIMENTO. ANA CAROLINA 168 páginas ISBN: 978-65-00-11185-9 1. Literatura brasileira. I. Poesia. A773d S281 DEDICATÓRIA Às minhas Tulipas que estiveram comigo nos dias mais frios e embelezaram os dias mais quentes. Às minhas Orquídeas que me ensinaram que o tempo de hibernação é necessário pra florescer as mais lindas cores. E às minhas Margaridas que me mostraram que a simplicidade é o jeito mais fácil de se encontrar a verdadeira felicidade, que os detalhes abrigam as maiores belezas e que não existe no mundo um lugar onde eu não possa estar! Obrigada.Vocês foram os responsáveis por me fazerem Girassol. Prefaciar O mais divertido de ser convidado para escrever um prefácio é saber que se está lendo um texto antes da maioria das pessoas. Isso coloca o “prefaciador” numa condição especial, de antecipação, como se estivesse adiantado no tempo – lendo algo que (ainda) não existe para os outros. Sinto-me um viajante do tempo. Por outro lado, um “prefaciador”, também, sabe que terá que escrever depois algo sobre o que lê antes, tentando desvendar um pouco da alma de quem escreve. Busca, nas entrelinhas, interconexões, pistas para sugerir caminhos outros dentro da própria obra. Sinto-me um observador de silêncios. Mãos à obra: sentei-me diante de uma bela paisagem e iniciei a leitura banhado pela luz de um Sol em despedida. E, enquanto avançava na leitura, fazia pequenas notas – indicações que me ajudariam a compor meu texto “prefacial”. Foi divertido ver algumas de minhas anotações (palavras soltas, registros de insights, percepções, sensações) surgirem nos textos seguintes. Parecia cena de uma peça teatral. Senti-me instigado. E assim avancei em meio às carregadas ondas de sentimentos e às leves lufadas de sensações. Volto no tempo e sinto que o texto conversa com o jovem que fui (e que ainda sou). Esse é um dos valores do texto da Carol: conversar com o jovem que fomos, somos e desejamos ser. Nome e sobrenome. Não sei porque, mas tenho um cantinho especial da memória para guardar nomes e sobrenomes de muitos dos alunos e alunas para os quais lecionei nos mais de vinte anos de docência em arte. Não me pergunte o porquê: apenas é assim! Alguns alunos, contudo, deixam marcas que vão além da lembrança de seus nomes. Carol Scaldelai é uma delas. Foi minha aluna de teatro de 2014 a 2017. Chamava-me a atenção que seus olhos, às vezes, duelavam com seus lábios. Enquanto a parte mais abaixo do rosto queria mostrar que tudo estava bem, a porção mais acima, às vezes, dizia algo diferente. Era um enigma. Em alguns momentos, a convivência mais próxima possibilitou entender um pouco mais sobre a dissonância expressiva da pequena Scaldelai. Em seus momentos mais tristes, ambos, olhos e lábios, se acertaram na frequência da tristeza, da dor e do desalento. Em outros, mais iluminados, pude acompanhar instantes em que o sul e o norte facial se harmonizaram. O momento mais intenso dessa harmonia foi quando, em seus derradeiros passos na formação teatral, promoveu o encontro de si mesma com o teatro, a rua e a poesia. Sempre me encantam alunos que não cabem dentro de si. Que se derramam pelo mundo em busca de si mesmos, de sua essência e dos caminhos para criar sua própria obra. E assim foi: acompanhei de perto os últimos passos da formação da Carol; passos esses que se mostraram os primeiros de uma caminhada que a trouxeram (ela e suas doces e loucas palavras) até este livro. Que marcaram seu rito de passagem e seu batismo artístico: Rua e Poesia passaram a ser sobrenomes de Carol Scaldelai. “Não sobre o amor” A poesia da Carol me fez lembrar um espetáculo de 2008 da Sutil Companhia de Teatro. Assim como na montagem do grupo, o “não” é justamente uma forma de destacar sobre o que se vai falar. Este é um livro “não sobre o amor”. A autora clama, o tempo todo, não por um amor. Mas pelo próprio. Ele mesmo. Para ela, o amor não é nem está numa pessoa, alguém. Ele se manifesta por esse alguém. Ele emerge de um olhar, do encontro de olhares. E cria um campo de sensações e sentimentos que envolve os amantes, os preenche. Parte de um ao encontro do outro e do outro ao encontro do um. Ela não fala do amor que exige submissão. Carol fala do amor em que um se entrega ao outro, mas ninguém deixa de ser si mesmo. Ambos se entregam a ele, mas o fazem sendo quem são. Sendo nós mesmos. Na brincadeira de suas palavras, vemos e somos, assistimos, sentimos e nos colocamos nas inúmeras pequenas histórias que são dela, mas que também são nossas. Quanto mais fundo ela mergulha em si mesma, mais nos alcança. O texto parece, pela forma como é escrito, falar muito sobre a autora. Assim o faz, pois trata-se de seu jeito de apresentar as palavras. Como uma conversa gostosa. A menina que não cabe nela mesma precisa de uma atmosfera em que possa transbordar olhares e poemas. Mas não se iluda. Ela vai revelar menos sobre ela e mais sobre você e eu, pois é sobre todos nós que trata este livro: pessoas que, neste exato momento, buscam e desejam, apenas, ser quem realmente são. Pessoas que desejam amar aos outros sem deixar de amar a si mesmas. Tudo por inteiro. Tal qual as palavras que transbordarão adiante. Sergio de Azevedo Poesia De saTuRNo 7 BIG BANG Tu: ... E então, vai ser possível ver Vênus e Júpiter alinhados no céu durante algumas noites do mês. Eu: Vai ser bonito... E Saturno? Tu: Vai dar pra ver também, em algum outro pedaço do céu. Eu: Eu li que ele vai passar raspando na Terra. Tu: De raspão? Eu: ... É Tu: Você sabe que isso é impossível né? Se Saturno passa de raspão pela Terra, acabou a Terra. (Mas um novo universo renasce quando o impossível acontece,mesmo que de raspão...) Poesia De saTuRNo 8 Eu sou de extremos, Eu sou de intensos, Eu sou de inteiros. Detesto o quase, o morno e as metades. Poesia De saTuRNo 9 MICRO CONTO - E u s i n t o m u i t o - E u t a m b é m O s d o i s s o r r i r a m “ A i n d a b e m ” Poesia De saTuRNo 10 SIMPLIFICA! (mania besta de complicar tudo) Poesia De saTuRNo 11 É insônia o u Saudade? Poesia De saTuRNo 12 REENCONTRO Minha alma se desenlaçou de sua vestimenta e naquele instante o espaço tornou-se etéreo. Não havia mais corpo. Não havia mais Tempo. Mirei. Encontrei. Reconheci aquela essência antiga que a tanto tempo se ligava à minha. Como num delírio de saudade, numa sensação de miragem, o brilho ressurgiu. Num idêntico deslumbramento, se refletiram, semelhantes. Toque. Ambas essências se fundiram. Se transformaram na pureza do amor transcendente que tanto partilhavam. Cores. Luzes. Sons. Memórias de tantas vidas recordadas como se fossem uma só... Por fim, o reencontro do que nunca se separou. Por fim, um novo começo. Poesia De saTuRNo 13 CASO Seu caos Foi o caos Que meu caos Melhor casou. No acaso, Me acusou De causar O tal Amor. E o caos Se acalmou. Poesia De saTuRNo 14 Cócegas “... Mas vou guardar o som da tua risada pro resto da minha vida.” Poesia De saTuRNo 15 572015 O escuro aprendeu a ter cores. O tic-tac dos relógios serviam de trilha sonora pras risadas e sussurros dali. O próprio Tempo cedeu. E de presente deu um “pra sempre” que durou a noite toda e mais um pouco da manhã. Era sonho sem o sono. Era da imaginação pro mundo real. E perante a tudo que precisava ser mantido entre quatro paredes, lá estava a maior e irrefutável prova do crime: o cobertor com o cheiro dos dois. E em meio a esses, ali escondidos, via-se de relance dois sorrisos esculpidos de sigilos. Lábios em curva bem desenhada de quem guarda um beijo precioso. Só eles num mundo só deles. Com olhares compassados com os corações. Com gargalhadas que faziam parecer que tudo era possível. Que tudo fazia sentido. Com as palavras ditas de pertinho, declaradas no silêncio. Sem medo. Sem preocupações. Só os dois. Finalmente sendo um. Poesia De saTuRNo 16 É impossível nada acontecer numa troca de olhares Poesia De saTuRNo 17 Fortaleça as escolas e não terá que aumentar os presídios. Poesia De saTuRNo 18 INFINITOS QUE MORAM DENTRO Tudo bem sentir medo de vez em quando. Nosso consciente não é capaz de entender a complexidade que somos. Acabamos por sentir demais e entender de menos. Dentro de nós grita a essência que quer ser e estar, viver e aproveitar. E fora de nós grita um mundo que insiste que não podemos ser nada disso. Daí vem essa angústia de temer ser quem se é. Ser pioneiro da própria história exige coragem. Optar pelas escolhas prontas dá a falsa sensação de segurança. E é por isso que nos rendemos aos gabaritos prontos, cheios de promessas de sucesso e felicidade, regras que não contemplam nossa peculiaridade. Mas veja bem: Carregamos dentro de nós uma Eternidade que não mora em nosso consciente, mas que ainda assim, não deixa de pulsar em nossa intuição. Um coração que sabe exatamente ao que quer se destinar. Você é uma pessoa única. As bilhões de peças que compõem o seu Ser não se repetem em mais ninguém. E encarar essa magnitude própria é se deparar com um mundo nu e inexplorado, no qual só você é capaz de ver, ouvir e sentir. Por consequência, não há razão pra seguir exigências criadas por pessoas com universos diferentes do seu. Poesia De saTuRNo 19 Silenciar-se para conhecer-se é uma tarefa infinita e complexa, mas recompensadora. Não há porque delegar essa exploração a terceiros. Ou esperar que as autodescobertas caiam em suas mãos. Ninguém pode traçar essa jornada melhor do que você. Tudo bem ter medo. Tudo bem cansar. Mas lembre-se que você merece ser feliz e que se sua história te trouxe até aqui, existe uma razão. O Universo conspira a favor dos que se orgulham de quem são. Respira fundo. Você é um mundo inteiro e o mundo inteiro é seu. Poesia De saTuRNo 20 As aventuras que você vive são as lembranças que você cria.