U M M A N U A L P A R A M Ã E S ❦ O Ofício de Amar Meditações sobre a vocação de ser mãe Nayara N. B. Borborema Meditações sobre a maternidade cristã Totus tuus. A Nossa Senhora, a quem tudo pertence. Ao meu esposo, companheiro de caminho. Aos meus filhos, razão e alegria destas páginas. À minha mãe, que me ensinou, antes de tudo, a ser mãe. E ao Padre Paulo Ricardo, pela luz da sua doutrina. ✳ A N T E S D E C O M E Ç A R Uma palavra a você Este pequeno livro nasceu de uma convicção antiga e sempre nova: a de que é do co‐ ração de uma mãe que partem os impulsos que mais fundo formam um filho, uma família e, através deles, o mundo . Não pelos gestos grandiosos, mas pela presença fiel de cada dia. As páginas que seguem percorrem, uma a uma, as virtudes e os cuidados dessa vocação: da dignidade da mulher à cura da alma, da vida interior à sabedoria prática do lar, das fontes de força aos exemplos de mães reais que formaram grandes santos. O tom quer ser, ao mesmo tempo, uma meditação e um companheiro prático para os dias comuns. Ao longo do texto, as palavras da Escritura e dos santos aparecem entre aspas, com a referência ao lado, preservadas como nos foram legadas. Tudo o mais é meditação, pensada para ser lida devagar, num momento de silêncio. A quinta parte , sobre a vida prática no lar, é a mais extensa, por ser também a mais próxima do dia a dia de quem cuida de uma casa e de um filho. 3 C O N T E Ú D O O caminho deste livro São trinta e uma meditações, reunidas em seis partes. Cada virtude é iluminada por Santo Tomás de Aquino e trazida ao dia a dia com o exemplo dos santos. Primeira parte · A dignidade e a vocação da mãe 1. A mulher e a mãe cristã · 2. A única necessidade · 3. Chamados e escolhidos · Segunda parte · O combate e a cura da alma 4. O pecado e a cura da alma · 5. O preço da entrega · 6. A boa vontade · Terceira parte · A vida interior e o coração 7. Fé e confiança · 8. Mansidão e humildade · 9. Tudo é amor · 10. O duplo laço · 11. Reorganizar o coração · Quarta parte · A vida espiritual da mãe 4 12. Vida interior e o pão da palavra · 13. Crescer sempre · 14. A verdadeira devoção · 15. A paz do céu · 16. A caridade e a oração · Quinta parte · A sabedoria prática no lar 17. Os pobres e a Providência · 18. O senso cristão · 19. A norma de vida · 20. O valor eterno das pequenas coisas · 21. Os transes do coração materno · 22. O tato e a vigilância · 23. A inteligência do lar e a educação · Sexta parte · As fontes de força e os exemplos vivos 24. As quatro fontes de força · 25. Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho · 26. Santa Nona, mãe de São Gregório de Nazianzo · 27. Beata Aleth, mãe de São Bernardo · 28. Branca de Castela, mãe de São Luís · 29. Margarida de Médicis, mãe de São Carlos Borromeu · 5 30. A mãe de São Francisco de Sales · 31. Maria, a Mãe de todas as mães · 6 P R I M E I R A P A R T E ✳ ✳ ✳ A dignidade e a vocação da mãe Quem é a mulher aos olhos do Evangelho, e por que nenhuma influência sobre um filho é tão profunda quanto a de sua mãe. C a p í t u l o s 1 a 3 C A P Í T U L O 1 A mulher e a mãe cristã Há uma dignidade que o mundo demorou a reconhecer na mulher, e que o Evangelho lhe devolveu por inteiro. Antes de Cristo, e ainda hoje, onde a sua luz não chegou, ela foi tratada como serva, reduzida a tão pouco que se chegou a duvidar de que tivesse alma. Foi o Evangelho que mudou essa história de raiz. Nessa reviravolta há uma imagem que atravessa toda a tradição: onde antes reinava a queda, ergueu-se Maria. "Uma mulher tinha oferecido ao homem o fruto da morte", diz Santo Ireneu ; "outra mulher lhe ofereceu o fruto da vida." São dois gestos, e são dois caminhos. Porque é isto o que se abre diante de cada mulher: dois caminhos, sem meio-ter‐ mo . O caminho de Eva, em que a influência que exercemos vai corroendo, aos poucos, quem está por perto; e o caminho de Maria, em que a mesma presença, feita de virtude silenciosa, levanta e ilumina os que nos cercam. Não escolhemos se influ‐ enciamos, a nossa vida sempre marca a de outros. Escolhemos apenas a direção. E essa influência, ainda que discreta, é das mais decisivas que existem. Ela não se exerce nas praças nem nos palcos; é obscura, quase invisível, e por isso mesmo mais penetrante e mais duradoura. A história está cheia de mulheres assim: Santa Hele‐ na , que contagiou com a fé o próprio imperador; Santa Clotilde , cujo Deus o rei acabou por invocar; Santa Mônica , que gerou um santo pelas suas orações e lágri‐ mas; Santa Genoveva , cuja santidade deteve um exército às portas de sua cidade. Dessa influência nasce a vocação própria da mãe. De todos os laços que moldam uma vida humana, nenhum é tão fundo quanto o dela. Cabem-lhe os primeiros anos e a 8 missão delicada de derramar na alma ainda tenra do filho as primeiras verdades. É ela quem desperta o primeiro sorriso, o primeiro pensamento, o primeiro amor, imprimindo, muitas vezes sem perceber, impulsos que hão de acompanhar aquele filho por toda a vida. Há uma cena que diz tudo: uma mãe gostava de enfeitar o berço do filho com flores e folhagens. Esse menino, que crescera brincando entre pétalas, tornou-se mais tarde um dos grandes botânicos da história. As primeiras impressões guardam esse peso. Mas há uma condição para que esse dom frutifique. A mãe só o exerce plenamente enquanto se mantém ligada a Deus : quanto mais unida à fonte, mais fecunda a sua ação. Vale para ela, como para ninguém, a palavra de Jesus: "Permanecei no meu amor" (Jo 15, 9) . É dessa raiz que brota tudo o mais, inclusive a beleza do matrimônio, esse laço que une os esposos entre si e os une, juntos, a Cristo. C A P Í T U L O 2 A única necessidade Existe uma ordem que organiza toda a vida, e convém não perdê-la de vista: o homem está neste mundo para conhecer, amar e servir a Deus. Essa é a grande ocupação; sem ela, todas as outras acabam esvaziadas de sentido. A tarefa primeira da alma é, portanto, preparar a própria salvação: deixar que a graça frutifique, desprender-se do que faz mal, unir-se ao Bem. A dificuldade não está em não saber disto. Está em viver como se não soubéssemos. Olhamos para o alto, aspiramos ao que é eterno, e, no entanto, o coração e os cuidados continuam presos à terra. É a mesma advertência que Jesus fez a uma 9 mulher atarefada: "Marta, Marta, tu te preocupas e te agitas por muitas coisas; e, no entanto, uma só é necessária" (Lc 10, 41-42) Vale a pena guardar esta lição sem asperezas, mas com clareza: mesmo no meio dos deveres e das boas obras, é possível haver mais agitação do que fruto, mais cansaço do que caminho. A inconstância nessa tarefa maior é a raiz de muitos dos nossos desânimos. Quando nos deixamos fascinar pelo brilho passageiro das coisas, ficamos, sem perceber, incapazes de guiar aqueles que nos foram confiados. C A P Í T U L O 3 Chamados e escolhidos Somos, como diz o Apóstolo, "estrangeiros e peregrinos" sobre a terra (cf. Hb 11, 13) Não temos aqui morada fixa: o mundo passa depressa, e nós passamos ainda mais depressa que ele. E, no entanto, insistimos em fincar raízes onde tudo é de passagem, como se pudéssemos permanecer. Há uma frase do Evangelho que costuma inquietar, "Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos" (Mt 22, 14) , e convém entendê-la bem, porque não é uma sentença cruel. Cristo morreu por todos os homens e a todos deseja salvar; a sua graça se ofereceu a todos. Se poucos são escolhidos, é porque escolhidos são os que respondem . A frase não condena de antemão ninguém: apenas constata o que acontece quando o chamado cai no vazio. Daí a missão que se desenha para cada mãe, e que nada tem de pequena: cooperar na salvação do esposo e dos filhos . Buscar, antes de tudo o mais, o que é verdadei‐ ramente necessário para eles, e confiar que, sobre esse cuidado, não faltará a bênção. 10 S E G U N D A P A R T E ✳ ✳ ✳ O combate e a cura da alma O pecado como recusa do amor, a cruz como preço da entrega, e a certeza de que nenhuma alma está perdida sem remédio. C a p í t u l o s 4 a 6 C A P Í T U L O 4 O pecado e a cura da alma Fomos feitos à imagem de Deus, e por isso somos, no fundo, seres que amam: amamos porque temos alma, e a alma ama porque "Deus é amor" (1Jo 4, 8) . Só que o amor verdadeiro precisa ser livre; se fosse imposto, como o fogo que se agarra a tudo que toca, perderia todo o seu valor. Aí está o mistério da nossa liberdade. Como aconteceu no princípio, cada vida passa pela mesma escolha: "Diante de ti pus a vida e a morte; escolhe, pois, a vida" (cf. Dt 30, 19) . E é dessa escolha que nasce a definição mais límpida do que erramos: oferecer o coração a Deus é a justiça; recusar-lhe essa entrega é o pecado . O pecado, no fim, é o desprezo do amor, aquilo que rebaixa o coração, apartando-o do Bem para o qual foi criado. Mas contra todo desânimo, guarde esta certeza como quem guarda um tesouro: há duas coisas de que nunca se deve desesperar: o coração de Deus e o coração do homem. Ninguém está perdido sem remédio. Somos doentes que podem sarar, e foi para nos curar que Cristo veio, como Ele mesmo disse: "Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os doentes" (Mt 9, 12) O seu amor é tão pronto e a sua misericórdia tão vasta que Ele nunca é surdo a quem o chama; ouve sempre, porque é bom. E quando cura, cura por inteiro e num instante: ontem sufocavas nas trevas, hoje exultas em plena luz; ontem às portas do abismo, hoje no seio da paz. Assim como o corpo adoece de mil modos, também a alma tem as suas enfermidades, paralisias, febres, cegueiras interiores. Não é por acaso que o Evangelho registra tantos doentes que Cristo curou: cada cura do corpo era o sinal de uma cura mais funda, que Ele quer operar por dentro, em nós. 12 Santo Tomás de Aquino nos ajuda a entender por que erramos sendo livres. Para ele, o pecado é, antes de tudo, um ato desordenado: "um ato humano privado da ordem devida" (Suma Teológica, I-II, q. 71) . A vontade não busca o mal enquanto mal, mas um bem aparente, um prazer, uma conveniência, fora da ordem que a razão deveria guardar. Por isso o pecado nunca é apenas "quebrar uma regra": é escolher um bem menor no lugar do Bem maior, deixando-se o coração desviar do fim para o qual foi feito. E é justamente porque a vontade permanece livre que a cura é sempre possível: a mesma liberdade que se desviou pode, movida pela graça, voltar a ordenar-se para Deus. Na prática, isto muda o modo como uma mãe olha para as próprias quedas. Você perdeu a paciência ao fim de um dia exausto, respondeu ao esposo com aspereza, deixou a oração de lado pela pressa. A tentação é afundar na culpa, e a culpa que paralisa é, ela mesma, uma armadilha. Santa Faustina Kowalska aprendeu do Se‐ nhor o contrário: quanto maior a miséria, mais direito ela tem à misericórdia; o que Ele pede não é que sejamos perfeitas, mas que confiemos. Então o gesto concreto é simples e diário: ao reconhecer a falta, não se demorar no remorso, mas fazer um breve ato de confiança ("Jesus, eu confio em Vós") e recomeçar na hora seguinte. E, sempre que possível, a confissão frequente, que não é tribunal, mas a fonte onde a liberdade ferida volta a ordenar-se, exatamente como ensina Santo Tomás. C A P Í T U L O 5 O preço da entrega Trazemos dentro de nós duas forças em disputa; São Paulo chama-as de duas leis (cf. Rm 7, 23) . Uma nos puxa para o alto, para tudo que é bom e luminoso; outra nos 13 arrasta para baixo, para as pequenas vaidades. Essa tensão não é defeito de algumas almas: é a condição de todas, e faz do nosso coração um verdadeiro campo de batalha. E toda batalha termina em vitória ou em derrota. A vitória tem um preço, e não adianta disfarçá-lo: é a entrega de si mesmo . O ins‐ trumento dessa entrega é a cruz: "Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me" (Mt 16, 24) . Não fujamos das dores que ela traz: são elas que nos desprendem de tudo o que não conduz a Deus. E há uma lição escondida nessa dor: quanto mais presos estamos às coisas passageiras, mais custa soltá-las; por isso é bom que esse desapego se faça aos poucos, no correr da vida, e não todo de uma vez. A virtude que sustenta essa entrega é a fortaleza , e Santo Tomás faz sobre ela uma observação que consola muitas mães: o ato principal da fortaleza não é atacar, mas resistir , "suportar". "É mais difícil manter-se firme no perigo do que investir contra ele", escreve, "e por isso o próprio da fortaleza está mais em suportar do que em agir" (Suma Teológica, II-II, q. 123) . Há, portanto, uma coragem silenciosa, feita de permanecer de pé no cansaço de cada dia, que é tão heroica quanto os grandes feitos, e talvez mais rara. É essa a coragem que a cruz pede de nós. Essa coragem tem rosto de mãe. Santa Gianna Beretta Molla , médica, esposa e mãe, viveu-a nas escolhas comuns e na escolha extrema de dar a vida pela filha que esperava, dizendo que a mãe "ama sem medir, sem calcular". Mas não é preciso um heroísmo de manchete para praticá-la: a fortaleza aparece na madrugada em que você se levanta pela terceira vez para amamentar, na tarde em que segura o choro para não descontar no filho, na perseverança de um projeto de fé que ninguém aplaude. O gesto prático é nomear a cruz do dia e oferecê-la: "Senhor, esta noite mal dormida, 14 este cansaço, eu Vos entrego". Suportar deixa de ser peso morto e vira oferta viva, e é aí que a fortaleza se torna, como queria Santa Gianna, um amor que não calcula. C A P Í T U L O 6 A boa vontade A paciência é o gênio silencioso da mãe. Ela une a coragem à dor e a grandeza ao sacrifício, e ocasião para isso nunca lhe falta: ela sofre porque ama, e sofre sem medida porque muitas vezes ama sem medida . A esse coração ferido, uma pro‐ messa: as feridas abertas por amor atraem o olhar da misericórdia e se tornam fonte de graça para os filhos. A paciência de que aqui se fala não é resignação triste. Santo Tomás a define como a virtude que impede que a tristeza diante do mal presente nos afaste do bem: "a paciência faz com que a pessoa não se deixe vencer pela tristeza a ponto de abandonar o bem" (Suma Teológica, II-II, q. 136) . Ela não suprime a dor, guarda a alma inteira dentro da dor. E ele acrescenta algo belo: a raiz da paciência é a caridade, porque "é o amor das coisas divinas que nos faz suportar com serenidade os males deste mundo". A mãe paciente, portanto, não é a que sente menos; é a que ama mais. Aqui entra o "caminho pequeno" de Santa Teresinha do Menino Jesus , feito sob medida para a vida de uma mãe. Ela ensinava que não são os grandes gestos que nos santificam, mas as pequenas coisas feitas com grande amor: suportar sem reclamar quem a irritava, sorrir a quem lhe era desagradável, não responder à provocação. Traduzido para o seu dia: a birra do filho no mercado, a mesma pergunta repetida pela décima vez, a louça que volta a se acumular. A prática teresiana é escolher, naquele instante exato, um pequeno ato de amor escondido, respirar antes de 15 responder, oferecer aquele incômodo em silêncio, sorrir quando a vontade seria bufar. Ninguém verá; Deus verá. E é dessas vitórias minúsculas e diárias que se tece a paciência verdadeira. E há uma verdade sóbria sobre a vontade que convém não esquecer: onde não há vontade, não há virtude nem mérito. Cuidado, porém, com o simples desejo vago; poucas almas querem o mal pelo mal, mas muitas, sem querer o mal, deixam de querer o bem. A boa vontade só é verdadeiramente boa quando adere de coração à vontade de Deus . Afinal, como lembra o próprio Cristo, "nem todo o que me diz 'Senhor, Senhor' entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai" (Mt 7, 21) 16 T E R C E I R A P A R T E ✳ ✳ ✳ A vida interior e o coração A fé que confia, a humildade que sustenta, a lei do amor e o trabalho paciente de reorganizar o coração. C a p í t u l o s 7 a 1 1 C A P Í T U L O 7 Fé e confiança Há uma fé que apenas acredita, e há uma fé que confia, e é esta a fé viva. Quando dizemos que temos fé num amigo, não estamos só reconhecendo que ele existe: estamos dizendo que contamos com ele, que descansamos na sua palavra sem medo. É com essa mesma confiança inteira que a nossa fé em Cristo deveria se manifestar. A fé sem confiança é fé de biblioteca: sabe muito e move pouco. Crer não é apenas saber que o Filho de Deus veio nos salvar; é contar, com o coração firme, que Ele cumprirá cada palavra que prometeu. E aqui uma correção delicada: às vezes, por uma humildade mal compreendida, duvidamos do coração de Deus. Essa dúvida também fere; não é menos grave que duvidar da doutrina, porque golpeia a esperança. Por isso o conselho antigo: "Não vos preocupeis com o dia de amanhã... a cada dia basta o seu cuidado" (Mt 6, 34) Santo Tomás distingue com precisão essas duas coisas que costumamos confundir. A fé, ensina ele, é um ato do entendimento movido pela vontade: "crer é pensar as‐ sentindo" (Suma Teológica, II-II, q. 2) , a inteligência que adere à verdade revelada porque confia em Quem a revela. Mas a confiança pertence a outra virtude, a espe‐ rança , cujo próprio é "esperar de Deus a vida eterna e o auxílio para alcançá-la" (Suma Teológica, II-II, q. 17) . Fé e esperança caminham juntas: uma me diz que Deus é fiel; a outra me faz descansar nessa fidelidade. Duvidar do coração de Deus, portanto, não é falha de fé apenas, é ferida na esperança, e por isso dói tanto. Na vida concreta, essa confiança se exercita nas incertezas que tiram o sono de toda mãe: a saúde de um filho, o dinheiro que não fecha o mês, o futuro que não se enxer‐ 18 ga. São Josemaria Escrivá costumava aconselhar o abandono confiante nas mãos de Deus como quem se sabe filho, e resumia numa frase que cabe no bolso: fazer o que se deve e estar no que se faz. A aplicação é dupla e muito prática. Primeiro, cumprir com esmero o dever de agora, o banho do bebê, o almoço, o telefonema adiado, sem carregar já o peso de amanhã. Depois, entregar o resto: à noite, antes de dormir, colocar diante de Deus a preocupação que insiste e deixá-la ali, repetindo com o salmo "em paz me deito e logo adormeço, porque só Tu, Senhor, me fazes repousar seguro". Confiar não é fingir que o problema sumiu; é dormir sabendo que Alguém vela por ele enquanto você descansa. C A P Í T U L O 8 Mansidão e humildade Se houvesse uma virtude para sustentar todas as outras, e para tomar o lugar delas quando faltassem, seria a humildade. Ensina São João Clímaco que se pode chegar ao céu sem nunca ter feito milagres, mas ninguém lá entra sem ter sido manso e humilde de coração, a exemplo de Jesus, que disse: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração" (Mt 11, 29) A imagem é bela e vale por um tratado: o cimo das montanhas fica estéril, por‐ que a água do céu não se demora nele e desce a fecundar os vales . Assim tam‐ bém a graça: resvala nas almas orgulhosas e se recolhe nas humildes, para as iluminar e enriquecer. Está escrito que "Deus resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humil‐ des" (Tg 4, 6) Vale ouvir aqui Santo Tomás , que definiu essas duas virtudes com uma justeza rara. A humildade , diz ele, "consiste em manter-se cada um dentro dos seus próprios 19 limites, não se estendendo ao que está acima de si", é a virtude que "refreia o apetite desordenado da própria excelência" (Suma Teológica, II-II, q. 161) . Não é, portanto, pensar mal de si, é pensar com verdade: reconhecer o que recebemos como dom e não como mérito próprio. Por isso a humildade não abaixa a pessoa; ela a coloca na verdade, que é o único chão firme onde uma alma pode crescer. Quanto à mansidão , Santo Tomás mostra por que ela é força, e não fraqueza. Ela é a virtude que "modera a ira segundo a reta razão" (Suma Teológica, II-II, q. 157) , não a que apaga a capacidade de indignar-se, mas a que a governa. O manso não é o que não sente; é o que não se deixa arrastar pelo que sente. E há um fruto que Tomás destaca: a mansidão, ao serenar a agitação da alma, "dispõe o homem a possuir-se a si mesmo" e o torna mais capaz de conhecer a verdade, porque a ira turva o juízo como a poeira turva a água. Mansidão e humildade são, de fato, irmãs que andam de mãos dadas. E que ninguém confunda mansidão com fraqueza: a mansidão verdadeira só habita uma alma forte. "Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra" (Mt 5, 4) , o que quer dizer que, sendo brandas e humildes, conquistareis tudo o que vos cerca. As almas humildes caminham para o seu fim com firmeza e doçura ao mesmo tempo, suavemente e com força. Ninguém falou tão bem da mansidão prática quanto São Francisco de Sales , e ele começa por um ponto que surpreende: a mansidão que mais custa, e a que mais importa, é a mansidão consigo mesma . Quando você errar com o filho, perder a calma, falhar no propósito, não se trate com dureza; corrija-se com a doçura de uma mãe que ergue o filho que caiu, "sem cólera e sem impaciência", dizia ele. Essa brandura interior transborda naturalmente para fora. Na prática do dia: quando sentir a irritação subir, o santo aconselhava não decidir nem falar naquele calor, esperar, "pegar as coisas com suavidade". Conte até dez, ofereça um instante de 20