Autor: ABRAHAM NUNES CEZAR SCHNEERSOHN Área de Pesquisa: Sa úde Mental Ep í tome: Transtorno D epressivo Os transtornos depressivos possuem substratos multifatoriais, que englobam desde estressores sociais a fatores genéticos. Isso torna - se evidente não só pela similaridade de vivências negativas em indivíduos acometidos, mas também pela recorrência familiar n otada em substancial parcela dos pacientes deprimidos. Vale lembrar, porém, que as tristezas relacionadas ao cotidiano, o luto, as decepções e sentimentos negativos efêmeros, inerentes a vida humana, não são critérios únicos para o diagnóstico. Esses “ob stáculos” fazem parte da vida de qualquer pessoa. Porém, quando ultrapassam os limites da normalidade, faz - se necessário uma avaliação mais criteriosa para que se possa elaborar um diagnóstico do transtorno do humor, ou seja, como era classificado antigamen te como um transtorno unipolar do humor. No caso da depressão, que possui vários níveis e formas de apresentação, a hipotimia é o estado de humor mais prevalente. Sentimentos de desvalia, inutilidade, culpa, auto - depreciação, anedonia, adinamia, astenia, insônia ou hipersonia, anorexia e labilidade afetiva são características mais comuns dessa alteração. É importante ressaltar também que as manifestações precisam ser individualizadas e que a gravidade do quadro pode ser estimada mediante sinais específico s associados ou intensidade dos sintomas referidos. Não obstante torna - se um desafio tentar estipular o grau de sofrimento desses pacientes, não só pela impossibilidade de atribuir nivelamentos a dores, mas também pela comum dificuldade que o paciente depr imido costuma ter para expressar o que sente. É como uma angústia fantasma, que traz um forte sofrimento, mas nem sempre pode ser verbalizada, vista ou explicada. Mas se todas essas manifestações não são facilmente explicadas por algum motivo palpável, o que faz da depressão um dos principais transtornos psiquiátricos que acomete a população mundial? O fato é que independente dos fatores basais que resultam nessa afecção, há similaridade no que diz tocante aos neurotransmissores envolvidos. Outro fato é q ue os tratamentos, embora ocorram a refratariedade, também convergem para a participação dos mesmos neurotransmissores bem como para os resultados. Com isso, torna - se um pouco mais claro que a associação de estressores com a predisposição, seja ela genétic a ou não, podem resultar em transtornos do humor, sendo a depressão o mais comum. Em se tratando de neurotransmissores, sabe - se que a serotonina e noradrenalina são os principais envolvidos na doença. Outros, como dopamina e acetilcolina também possuem, mesmo que indiretamente, suas participações. Já em respeito às áreas cerebrais mais relacionadas, o córtex orbito - frontal medial e lateral parecem ter uma relação intrínseca com a atuação deficitária desses neurotransmissores e a expressão sintomática do tr anstorno. Expressão essa intimamente ligada a níveis baixos de serotonina disponíveis na fenda sináptica, seja por produção escassa, receptação precoce ou degradação deletéria. O resultado é a baixa disponibilidade dessas substâncias traduzindo efeitos neg ativos no humor e suas consequentes ramificações sintomáticas centrais e periféricas. Outrossim diz respeito a interdependência sinérgica e antagônica existente entre as vias serotoninérgica, noradrenérgica e dopaminergica. Logo, níveis baixos de seroton ina culminam em alterações nas demais cascatas da neurotransmissão e resultam numa desregulação em série com múltiplos efeitos excitatórios ou inibitórios em áreas específicas cerebrais. Essa ação dinâmica neuronal tem como efeito deterioração na qualidade de vida do paciente por razão das várias regiões encefálicas acometidas. Isso também explica o fato de que muitos pacientes deprimidos apresentam dores e astenia, por déficit de noradrenalina disponível na fenda sináptica, problemas relacionados a memória por níveis de acetilcolina e histamina desregulados secundariamente a serotonina e em casos mais graves, alterações nas vias dopaminergicas, conferindo alterações motoras, sensoperceptivas e alterações deletérias no juízo, apresentando delírios de ruína e auto - depreciativos, comuns na depressão psicótica. Outra evidência encontrada é a alteração na maneira de se posicionar mediante as situações. Diferente da “bela indiferença” notada nos transtornos dissociativos, no transtorno depressivo nota - se o que c hamamos de “triste indiferença”, que nada mais é que a incapacidade de se alegrar, sentir prazer ou sequer perceber as circunstâncias positivas que acontecem. Pacientes relatam, além da anedonia, quadros álgicos, insônia terminal, inapetência, hipersonia d iurna, adinamia, sintomas ansiosos e manifestações somáticas. Em suma, o transtorno depressivo e suas variadas subclassificações representam grande parte das buscas por consultas psiquiátricas e adesões ao uso de medicamentos e apoio psicológico. Além do acompanhamento médico, requer atenção multiprofissional e amparo da família e sociedade, visto que traz prejuízos irreparáveis na qualidade de vida e na vida profissional dos enfermos. Além disso, a taxa de suicidalidade é significativamente alta e nem se mpre traz sinais prodrômicos.