Felipe Caldas Pedra, papel, tesoura; ou terra, água e fogo — brincadeira ou reflexão? Entre nuvens e pedras, desenhos, cerâmicas e pinturas, um ser brincante salta de seu trampolim, cujo destino são as nuvens ou o fundo da piscina. Rodrigo Núñez (Rodi Insano) afirma, rindo: “O humor não omite nada; muito pelo contrário, ele expõe o trágico, revela o melancólico. É desse humor que eu falo.” No trampolim, na corda bamba, no tabuleiro ou no ateliê, Rodi nos propõe brincar e subverter a lógica produtivista da sociedade do capital. Numa cultura em que toda ação parece orientada a um fim externo — vencer, lucro, prestígio, visibilidade, felicidade futura —, o sentido de sua ação artística está no próprio ato, no qual “é impossível separar a mão do pensamento. O pensamento está no gesto”. O jogo, como lembra Huizinga, é uma das formas mais puras de experiência humana justamente porque se basta a si mesmo. Esse impulso lúdico, em que brincar é estar no presente, habitar o instante com inteireza, convoca a coletividade e situa o cerne de seu processo criativo. Das falhas emergem sonhos e, dos sonhos, resistências à redução do mundo, das pessoas e das experiências a meros meios e fins. No jogo proposto pelo artista, fracasso, clown, gesto, brincar, humor, ofício e movimento são elementos fundamentais. Como afirma: “Cada momento de ateliê é um convite para brincar. Sou um artista brincante que entende o risco e a seriedade da brincadeira.” A presente exposição articula desenhos, pinturas, colagens, peças cerâmicas e intervenções do artista no espaço expositivo, associadas a reflexões textuais tanto do artista quanto do curador sobre seu processo de trabalho, em uma expografia constituída de modo coletivo. Cada disposição espacial, cada percurso no espaço é capaz de produzir novas narrativas, novos sentidos, outras possibilidades de jogo e de vir a ser. A exposição ergue-se enquanto obra-jogo coletivo — um jogo cuja vitória, ou vencedor, é o prazer de estar aqui. A exposição emerge da última série de peças cerâmicas produzidas e se expande para um universo mais amplo da produção poética de Rodi, em um esforço de evidenciar conexões entre linguagens, conteúdos, formas e o lado pensante do gesto. Pois criar é trabalhar. Esse trabalho exige entrega material, intelectual e espiritual, uma fé em si e no mundo. Eis a seriedade do brincar. Nesse horizonte, figuras, entidades ou personagens sustentam-se em finas pernas que se erguem de cabeças, como continuidades de outro ser em ascensão ou queda. Casas, nuvens e cores gravitam o horizonte, o ateliê e o espaço expositivo tornam-se ambientes de práxis espiritual — talvez existencial — nos quais o gesto é pensamento e o fazer é filosofia. Nesses espaços, o artista se coloca diante da matéria, entendendo que também é matéria; articula-se com os demais jogadores em um estado de confiança ontológica — transforma e se transforma, compõe, recompõe e se compõe — em um processo orgânico no qual a ordem construtiva tradicional é invertida, subvertida, colocada ao avesso, enquanto convida a todos a um movimento semelhante. O trabalho artístico torna-se um ato de fé coletivo. A fé que o move é a fé no fazer brincante, que conclama gestos de amor, gargalhadas e, às vezes, lágrimas, em exercícios de liberdade. Uma cartografia viva das possibilidades do ser Verão de 2026 Quando fecho os olhos, tudo se faz chão. Conversa: Rodrigo Núñez, Felipe Caldas. Transcrição e Design: Pedro Lucas. Galeria Ocre, Porto Alegre, (RS), 2026. Felipe: Uma vez, não sei se tu vai lembrar, perto da faculdade de Direito da UFRGS a gente se encontrou, estava eu, o Jander e tu, e tu passou, e tu falou uma coisa pra mim, que aquilo de alguma maneira me marcou sobre o teu trabalho, que tu partia da ideia de fracasso, não sei se tu vai recordar, e eu fiquei pensando esses anos todos no que constituiria esse fracasso, e agora eu tenho oportunidade de te perguntar, Rodrigo, oque constitui esse fracasso? O que tu queria me dizer naquele final de tarde que a gente se encontrou? Seria esse fracasso, Rodrigo, uma relação entre ideia e manualidade? Uma diferença entre uma intenção primeira e aquilo que se apresenta ao modelar, ao encontro com a matéria? Além da questão do fracasso tem outra coisa, tem algo nessas peças que me lembram entidades. Por que me lembram entidades? Isso é uma questão que eu tô pensando, por que me lembram representações de entidades espirituais. Eu não vejo ali ainda personagens, sabe? Eu vejo entidades, e isso é uma pergunta pra mim mesmo, mas que eu estou aqui compartilhando uma primeira impressão contigo, tem algo no teu fazer, na construção desses trabalhos que caminha, que conduza a uma possível leitura nessa direção que eu acabo por fazer, ou não? Ou seja, entidades no sentido de uma espécie de, não de representação, mas uma ligação com uma dimensão espiritual, com uma dimensão sagrada, como uma busca, seja uma busca na cultura ocidental, seja em outras culturas. Ou eu poderia quem sabe ler esse fracasso como uma consciência dessa impossibilidade de certa dimensão espiritual? I I Quando fecho os olhos, tudo se faz chão. Conversa: Rodrigo Núñez, Felipe Caldas. Transcrição e Design: Pedro Lucas. Galeria Ocre, Porto Alegre, (RS), 2026. Rodrigo: Oi Felipe, muito bom muito bom, adorei essas interpretações, na verdade eu acho mais legal as interpretações dos outros do que necessariamente as minhas, realmente tu tem razão, essas figuras não são personagens, assim, elas nunca foram, nem no momento da criação nem agora, tem uma amiga minha que me perguntou isso, se eu sabia as histórias de cada um, e eu não tenho as histórias de cada um, é uma relação da matéria com a mão assim, uma vontade de fazer figuras sem necessariamente pensar que tipo de figura, é o momento do modelado mesmo, então ele trás esse frescor desse gesto, do pegar desse corpo, então elas realmente não são nem personagens e eu não tenho ideia de construir um personagem posterior a elas, isso não é a vontade, é mais a iniciativa do modelado, assim, sem um pensar antes sobre isso, é a vontade de construir essas figuras sem pensar sobre essas figuras. Primeiro é isso. Segundo, a ideia do fracasso, eu acho que na verdade é um desejo de todo artista, o meu trabalho em si parte desse princípio, meu processo de criação é um processo de criação do clown, que o clown trabalha com essa ideia do fracasso, da impossibilidade de fazer as coisas mas de uma vontade absoluta de fazer elas, de não ter medo, apesar de eu ter a certeza e a convicção desse fracasso, eu não tenho medo desse fracasso, é a partir do não dar certo que eu começo a criar as coisas, e meu processo especialmente no tridimensional é meio às avessas, é meio aos tropicões, ele anda meio tropicando, por exemplo, essas esculturas eu não comecei o processo escultórico (pela base), o processo escultórico tu normalmente começa pela base e vai trabalhando a parte de cima depois, e essa especificamente é ao inverso, eu começo pelas figuras e depois fui pensando o que q elas precisavam embaixo delas, eu trago nesse trabalho muito a ideia desse quebra cabeças sem sentido e infinito, onde ele não vê a hora de parar, eles ainda não estão parados, ainda falta uma parte de baixo das cabeças. Então o objeto e a figura vão pedindo coisas para ela, eu acho que a concepção do fracasso parte dessa ideia do artista incompleto, da incompletude, como eu me sinto sempre incompleto, sempre me falta alguma coisa, essa incompletude gera uma noção de fracasso, eu acho que na verdade todo artista deveria ter um pouco disso, no sentido de que o fracasso faz a gente pensar sobre as coisas, sobre o que a gente está fazendo, o sucesso cega, ele não ouve, no fracasso tu escuta as coisas porque tu não quer fracassar, não é que tu busque o fracasso, o fracasso está como o agente propulsor do que tu quer fazer, porque tu não consegue fazer tu tenta, e o fato de nem sempre dar certo não é um impeditivo e sim uma possibilidade de uma abertura pra uma nova tentativa e assim surge uma nova figura, uma nova forma, então essa ideia de que a gente não está sujeito a um processo com fim né, é um processo sem fim. II É o mito de Sísifo, ou seja, eu levo aquela pedra até lá em cima e ela corre de novo pra baixo, e eu vou lá e pego ela e levo pra cima e ela corre para baixo, essa ideia dessa incompletude do processo, nunca está pronto, e daí vem essa ideia desse fracasso, que é um pouco ideia desse clown que brinca com as coisas, meu processo de criação está muito ligado nessa brincadeira com a matéria, de me divertir com ela, de sorrir com ela, e deixar que ela também me toque, ela me tocando não sou só eu o detentor do domínio sobre ela, e sim uma conversação entre a matéria e a mão do artista, dessa conversação saem coisas, que não é necessariamente aquilo que tu pensa, e é um pouco daquilo que tu falou, entre a projeção do que fazer e do que é feito existe uma diferença, mas essa diferença sempre é incompleta porque todo artista... no momento que tu expõe, já não é mais teu o objeto, esse objeto vai pro espaço e ganha uma autonomia no espaço, e a possibilidade de que a leitura do teu trabalho corra em outros caminhos também gera uma concepção de fracasso, eu não gosto dessa ideia do artista pronto, o artista inacabado é o artista que sempre ta pensando sobre o que ta fazendo, por isso essa ideia do fracasso, o fracasso e a possibilidade dele, da iminência dele, faz a gente pensar e refletir sobre aquilo que a gente está fazendo, daí também existe um série de coisas, que é um pouco de melancolia, dentro do processo de criação, que é o meu processo, que é essa coisa do clown né, da melancolia, do humor e do fracasso, clown, quando ele é ativado a produzir alguma coisa, ele nunca abre mão de produzir aquilo, mas ele nunca tem o total domínio daquilo que ele ta fazendo e ele ri da sua incompletude, as pessoas riem da impossibilidade de ele fazer as coisas ou ele fazer as coisas meio mal feito, o clown ri de si mesmo, por isso essa ideia desse fracasso. A ideia de entidades é uma coisa que eu fico meio em dúvida em relação a isso, eu não vejo elas necessariamente como entidades, mas eu ainda estou me preparando e estudando essa ideia da arte como um processo de fé, um processo de acreditar naquilo, acreditar que aquilo vai acontecer, acreditar naquilo que não existe, produzir aquilo que não existe, arte como um processo de fé, de crença, então como eu não tenho nenhuma veia religiosa, eu custo um pouco a injetar essa questão religiosa no meu trabalho, seja ela qual for, mas eu tô pensando nela como um processo de fé mesmo, de acreditar naquilo que não existe, produzir aquilo que não existe, a arte como uma construção simbólica do inexistente. Mas eu acho legal ouvir essas outras leituras do trabalho, eu acho bacana isso, mas acima de tudo o trabalho é pra mim uma grande brincadeira, um grande processo brincante, em que eu só vejo sentido nele no momento em que eu sou feliz produzindo ele, e essa felicidade é uma coisa que eu quero que o trabalho passe, essa alegria meio melancólica, então essa alegria é o sentido final do meu trabalho, desse processo de ser feliz enquanto constrói, o artista que brinca, e nessa brincadeira, ele cria essas figuras, e essas figuras podem ser uma espécie de jogo, de peças, que jogam dentro da sua cabeça e que ainda não encontram sua história, sua história pode ir pra um relato de fé ou pra um relato de personagem, no meu processo de criação eles não têm histórias e eu não vejo uma necessidade de criar histórias pra eles mesmo, eu já fiz isso em algumas figuras que eu já fiz, mas nessas não, elas nasceram da simples vontade de juntar a figura na cerâmica e a madeira, e pensar nessas figuras que habitam a minha cabeça, então tem que pensar sobre isso, tá bom? A gente segue conversando e sim para tudo que tu disse, vamos conversando e vamos falando sobre a exposição, sobre a produção, te mando fotos e a gente vai conversando, e se quiser escrever artigo pode escrever artigo, eu te ajudo e a gente conversa, a gente dialoga ta bom? Adorei as tuas ideias, todas, mesmo mesmo, assim, fiquei e fico muito honrado de te ter nesse projeto, aproveitando o passo a passo, o dia a dia do que a gente está construindo. Quando fecho os olhos, tudo se faz chão. Conversa: Rodrigo Núñez, Felipe Caldas. Transcrição e Design: Pedro Lucas. Galeria Ocre, Porto Alegre, (RS), 2026. II Felipe: Quando a arte sobretudo a partir da modernidade e sua chamada gratuidade não se constituiria enquanto uma relação de fé, de crença? Acho que a grande questão é como cada um de nós lida, interpreta, gera sentido pra isto. A arte como um caminho para a espiritualidade que não é religiosa no sentido de dogmas, preceitos, convenções e etc.. em uma busca de completude que só ocorre na medida da própria busca. Tem algo de o Banquete de Platão e sua explicação a respeito do amor enquanto um ser desejante mas sem a finalidade que seria verdade no final da trilha. Pois essa verdade esteja no próprio processo e no sentimento de felicidade que ele te desperta. O Fim é o meio. Rodrigo: O fracasso como um fazer pensar sobre. A reflexão vem a partir da ideia do que pode provocar o equívoco. Mas a alegria do processo faz a certeza da fé na criação suplantar, a melancolia da incomunicabilidade. No fundo, gosto da ideia de tentar me comunicar, me conectar com quem vê. Mas a arte, me joga para fora deste universo, ela me diz que tenho que expandir meus dizeres. E aí se instaura um conflito entre meu eu artista, e meu eu ilustrador. No fundo eles andam juntos, inseparáveis, admitindo o conflito, mas usando ele. Novamente vem a brincadeira, essa ideia de deslocamento entre matérias, procedimentos e linguagens. É impossível separar a mão do pensamento. O pensamento está no gesto. Ao mesmo tempo em que ao observar e pensar sobre, admito que a cada passo existe um ruído, uma dissonância, que dá instabilidade ao artista. Que pergunta, questiona e provoca. Gosto da ideia que uma aluna minha trouxe como processo de criação. Há também presente a ideia de jogo. Dá brincadeira mesmo. Não como um descompromisso, mas sim como uma entrega total ao ato de fazer, um comprometimento com a experiência do fazer pleno, e a percepção dos questionamentos que este fazer constrói e nisso não há sempre uma concordância. Existem contradições, dúvidas, superficialidade. Cada momento de ateliê é um convite para brincar. Sou um artista brincante que entende o risco e a seriedade da brincadeira. Gosto de insistir na brincadeira, porque o meio da arte é muito sério. O pessoal confunde humor e brincadeira com falta de comprometimento e pouca profundidade. Brincar, experiência, humor, clown, e movimento. São coisas que repito muito. III III Quando fecho os olhos, tudo se faz chão. Conversa: Rodrigo Núñez, Felipe Caldas. Transcrição e Design: Pedro Lucas. Galeria Ocre, Porto Alegre, (RS), 2026. Felipe: Não seria destas contradições justamente os gatilhos para novas e constantes mutações? O ruído é convite a próxima ação? Num bailar sem coreografia mas de uma espontaneidade que nasce de encontros, eu, matéria, mão, vontade, encantamento e novas descobertas. Qual o lugar neste processo da surpresa? Pois me parece que tu te jogas num abismo esperando se encontrar ou se surpreender em que forças atuam além de qualquer dualidade. E digo forças pois me parece que a tua vontade de fazer é o despertar pra muita coisa que tu não controla plenamente. Simultaneamente tu jogas um jogo cujas regras são fluidas e não determinadas antes mesmo deste iniciar. Um fazer que se faz fazendo. Um formar que se forma formando. Um brincar que se brinca, brincando. E eu acho isso de uma grande espiritualidade. E aí voltamos a crença ou a fé de algum modo que operara com estas forças. Não gera visibilidade para a invisibilidade mas tensiona a própria dualidade do visível e não visível. IV IV Quando fecho os olhos, tudo se faz chão. Conversa: Rodrigo Núñez, Felipe Caldas. Transcrição e Design: Pedro Lucas. Galeria Ocre, Porto Alegre, (RS), 2026. V Felipe: Fé enquanto confiança num processo que caminhamos de olhos vendados cujo desvelamento ocorre no processo. Assim a fé seria uma confiança de base racional consciente de sua própria contradição, ou uma razão que sabe que não sabe. Dentro de um processo formativo. Poético. E até aqui falamos de processo. Mas me falta olhar a obra.. mas a obra não em sua restrita materialidade e visualidade. Mas uma manifestação. Um ser fruto de uma vontade que se expande além de seu próprio criador. Uma criatura que olha para seu criador. Que o encara e o demanda inclusive outras ações. Rodrigo: A criatura que continua brincando no espaço, que continua propondo um olhar cuidadoso e delicado. Que se pretende ser compreendida, entendida pelo outro. Não é algo superior ao espectador, e sim parte de um universo visual comum tangível. V Quando fecho os olhos, tudo se faz chão. Conversa: Rodrigo Núñez, Felipe Caldas. Transcrição e Design: Pedro Lucas. Galeria Ocre, Porto Alegre, (RS), 2026. Felipe: Fala meu artista, como é que tu estás? Tu me responde quando puder. Estamos numa sexta feira entrando no final de semana, enfim. Rodrigo, tu podia falar um pouquinho mais, como é essa relação que se dá entre o teu desenho e a tua modelagem, o teu trabalho em cerâmica, a pintura, como é que essas coisas convergem? Entendi que tu tem um desejo pela figuração, um modelado que a figura nasce ao modelar, ao brincar, o ateliê como esse espaço quase que como se fosse uma quadra que a gente vai pra brincar, pra jogar, então a ideia de jogo e de brincadeira, também está (presente), num trabalho aqui como a percepção do projeto num sentido de antecedência do que vai executar mas a execução se dá ao executar, como é que tu vê a essa relação entre teu trabalho, vamos chamar assim bidimensional e a cerâmica? Existe uma flutuação desses seres entre um e outro? E nos últimos trabalhos teus que eu vi que envolvem pintura, desenho, vamos chamar assim, tem uma coisa que me leva a uma interpretação a respeito de uma espécie de memória. Tem alguma coisa dessa dimensão memória, nesse último trabalho que tu vem desenvolvendo? VI VI Quando fecho os olhos, tudo se faz chão. Conversa: Rodrigo Núñez, Felipe Caldas. Transcrição e Design: Pedro Lucas. Galeria Ocre, Porto Alegre, (RS), 2026. VII Rodrigo: Quanto ao trânsito entre esses fazeres, entre esses processos de desenho, pintura, cerâmica, as figuras que transitam entre esses processos, uma vez, falando com o Guto Lacaz, que eu entrevistei ele no meu doutorado, eu perguntei para ele qual era a diferença entre fazer um trabalho como artista gráfico, ocupando um espaço, uma folha 4, por exemplo, e aqueles maquinários e aquelas intervenções urbanas ou intervenções em centros culturais a partir daquelas máquinas que ele cria? Qual era a diferença entre uma coisa e outra? Ele disse que nenhuma, o problema de ocupar um tamanho de uma folha A4 é exatamente o problema de ocupar o tamanho de uma sala como essa aqui, de 40 por 40, de 5 por 5 metros, né? Então esse é o problema da ocupação de espaço e o problema da ocupação do espaço da Folha 4 é o mesmo, claro que existem diferenças, mas o pensamento de tentar resolver esse espaço é o mesmo, eu achei muito bacana isso e é um pouco o que eu levo para o meu trabalho, eu sei que são questões diferentes do tridimensional para o bidimensional, são questões espaciais diferentes, a relação do espaço, a expografia, tudo gera relações diferentes, mas sempre o problema é o mesmo, como aquele ser ocupa aquele espaço? E a partir dessa pergunta eles vão tomando outras formas, existe uma complexidade maior no espaço tridimensional e que gera outros lugares, outras formas de ocupar o espaço, existem os lados, a lateral, em cima e em baixo, e isso problematiza mais a criação do objeto e cria mais alternativas. Já o espaço bidimensional é mais contido, ele é mais preso, o meu próprio desenho é mais preso, é mais na linha do contorno, não tem tanta expressão, não tem tanto gesto, ele é mais mecânico, na cerâmica o gesto não é tão mecânico, existe o acaso trabalhando sempre, então na cerâmica ela flui com o processo mais orgânico e no desenho ele é mais endurecido, menos gestual, mas eu gosto dessas duas relações, eu preciso, como artista, dessas duas relações, então assim, muitas vezes o desenho é esse pensamento jogado ali, e esse pensamento que eu jogo ali não é necessariamente, e não foi até hoje, um esboço do que eu vou fazer no tridimensional, ou seja, eu não faço no bidimensional aquilo que eu quero fazer no tridimensional, eu só vou, é como se eu cantarolasse uma música, e fosse nesse cantarolar dessa música, o desenho vai saindo, vou cantando e cantarolando e vou botando, na cerâmica, esse cantarolar, esse sonido que sai no desenho, na cerâmica, ela já tem que sair em forma de canção, ele já tem que ter um ritmo, esse ritmo vem um pouco também no exercício do desenho, né? Na cerâmica, pra tu construir ela, a obra tem que estar mais estruturada, no sentido que eu tenho que lidar com outras características do tridimensional que só um cantarolar não dá conta, então ele tem que ter uma letra, ele tem que ter...e ai vai...não é que apareça essa letra como uma narrativa do objeto, é uma narrativa de processo, a narrativa não está no motivo pelo qual esse objeto é criado, e nem numa narrativa dele como personagem, nesses específicos a narrativa é uma narrativa de processo, assim, simplesmente, por isso são formas de exercer a manualidade diferente, e muito distintas, que eu preciso manter vivo, eu preciso desse ir e vir entre esses gestos, eu preciso dessa diferença para que eles alimentem um ao outro, na verdade, não existe o desenho e a cerâmica, existe a transição e o percurso entre esses gestos, esse andar entre um e outro é que vão alimentando a minha necessidade de fazer um ou de fazer outro, então eles existem como objetos criados, objetos e representações criadas, mas óbvio, existe o desenho, existe a cerâmica. VII Quando fecho os olhos, tudo se faz chão. Conversa: Rodrigo Núñez, Felipe Caldas. Transcrição e Design: Pedro Lucas. Galeria Ocre, Porto Alegre, (RS), 2026. Rodrigo: Quanto ao uso da imagem fotográfica, dessa ideia da memória, vou te ser muito sincero, eu gosto de foto antiga, e não é que eu gosto de foto antiga da minha família, eu gosto de qualquer foto antiga, então tem aquela ideia do punctum, a foto antiga, o ponto da foto que me interessa, aquele lugar que existe dentro da fotografia, que tá ali, que nos chama a atenção, então, a foto antiga ela tem esse fator atrativo pra mim, pode ser qualquer foto antiga, no caso específico dessas últimas fotografias, eu buscava realmente fotos antigas de circo, então era bem específico, eu queria fotos antigas de circo, de qualquer circo, porque essas fotos antigas iam construir uma espécie de memória inventada desses meus personagens, elas não dizem respeito necessariamente uma memória minha, claro que, óbvio, eu coloco coisas minhas ali, mas ela não é uma narrativa de memórias pessoais, ela é uma narrativa inventada, é uma autoficção, sobre aqueles personagens, é um ir e vir sobre quem eu sou dentro daquelas pessoas que na grande maioria, se não, na maioria das vezes, são pessoas que não tem nada a ver comigo, não tem nada a ver com a família, simplesmente que eu gosto da fotografia, então cai um pouquinho por terra, sai lá do romântico da memória e da construção da memória, coisa assim, é tudo uma grande ficção né? Assim, a ideia de pensar como a memória também sendo uma grande ficção, essa é uma memória inventada, uma ficção, uma autoficção, desse personagem inventado. O que tem da relação daquelas pinturas ou do trabalho de recortes e colagem que eu tenho com fotos antigas, tem sim o interesse pela figura, simplesmente, sem nenhuma outra coisa escondida, eu gosto da imagem, quando eu comecei a trabalhar foi pela primeira vez assim sistematicamente eu fui fazendo retratos mais realistas eu gostei disso, dessa construção dessa figura, e essa construção dessa figura, da representação de uma figura mais realista, eu comecei a me interessar por fazer por fazer cerâmica também até porque muito, Felipe, é uma coisa que vem do ensino tem muita gente que vai para cerâmica e que quer fazer realista e tudo mais, e daí tu tem que ensinar, e daí se eu tinha que ensinar, eu tinha que exercitar também, ensinando muito, eu também sentia necessidade de exercitar, e daí juntou as duas coisas, eu comecei a fazer figuras mais realistas no bidimensional, e comecei a trazer essas figuras mais realistas pro tridimensional, eu comecei a curtir isso, a forma da figura me interessava, então, antes de tudo, vem o interesse pela forma e o interesse pela materialidade, do que o interesse pelo assunto da memória, entende? A materialidade e a forma me interessam, e daí, depois, talvez se construa uma memória inventada disso, uma ficção a partir disso, daí eu não sei, eu acho que tem muito a ver a construção dessa ficção e da relação dessas figuras, tem muito a ver daqui pra frente, ou seja, desse nosso trabalho, até que ponto, por exemplo, tu falou em entidades, até que ponto eles podem ser uma entidade? Talvez reforçar esse sentido de entidade, se for o caso, na construção de uma montagem ? De montagem do trabalho no espaço, a partir disso é que podem se criar essas narrativas, e daí essas narrativas que nascem da montagem podem gerar outras formas que vão servir para completar essa narrativa da montagem ou que essa montagem necessite dessa outra estrutura para completar essa narrativa, a montagem do trabalho no espaço é um outro trabalho entende assim, então assim o que é o trabalho o que é o meu trabalho não é o bidimensional não é o tridimensional não é, o meu trabalho realmente é como como eu levo ele para o espaço, a maneira como eu levar ele para o espaço pode até dar pano para manga para criar outras formas que ajudem a construir esse espaço e ajudem a formatar uma narrativa, eu gosto muito, eu tenho a necessidade muito grande de uma certa comunicabilidade, eu quero fazer com que as pessoas não se sintam burras vendo o trabalho, eu quero que elas olhem e digam, isso é um rosto, ah, isso é um desenho, isso é um telefone, então, eu lido com esse universo que é comum a todo mundo, qualquer um pode entender o trabalho, eu gosto disso, e a partir disso, a partir do que a pessoa se sinta confortável vendo o trabalho, eu começo a brincar com a percepção dela, jogando pequenos elementos que desconstroem aquilo que ela constrói como um universo comum, então assim, ela ao mesmo tempo se reconhece naquilo, mas também pode rir desse reconhecimento, porque ele não é totalmente...ele não entrega totalmente a literalidade do que ele quer dizer, então ele vai brincando com diversas formas de contar, é como se eu permitisse para o espectador diversos caminhos possíveis em que ele se identifica do que pode ser, inclusive a memória a foto antiga é um instrumento conscientemente usado por mim no sentido de que eu quero que a pessoa pense com memória, mas não é necessariamente a memória, o tema do trabalho, mas eu quero que o Felipe veja como memória isso, e tente descobrir a história que está atrás dessa memória, então essas fotos antigas são carregadas disso e eu uso propositalmente elas assim, são fotos de uma época específica que eu gosto de trabalhar, para esse trabalho, talvez daqui um tempo eu mude, mas agora, e trabalhando essa figura na pintura, me fez ter vontade de modelar essas figuras, não essas figuras em 3D, mas a representação figurativa em 3D, e agora vamos ver como ela vai se relacionar com o mas a representação figurativa em 3D, e agora vamos ver como ela vai se relacionar com o espaço, vou ser bem sincero, eu não sei ainda, nao sei o que ela vai ser, nao sei nem o que ela vai precisar a mais, entende? Assim, por enquanto a gente tem figuras, só, talvez, tô percebendo que elas talvez precisem, só as cabeças de baixo, nascendo as figuras a partir das cabeças, não elas completas, não sei, pode ser, elas estão pedindo coisas, a forma pede coisas, e quando a forma pede, vamos ver pra qual caminho ela vai. VIII Quando fecho os olhos, tudo se faz chão. Conversa: Rodrigo Núñez, Felipe Caldas. Transcrição e Design: Pedro Lucas. Galeria Ocre, Porto Alegre, (RS), 2026. VIII Felipe: Rodrigo, tem dois aspectos na tua fala que me chamaram bastante a atenção, o primeiro é o conceito de trabalhar que emerge aí, é esse trabalho, sua etimologia é poiesis, práxis e tripalium, ou seja, o castigo, a relação entre o fazer e o pensar, e a poiesis, esse conceito platônico do não ser ao ser, ou seja, um trabalho que ao trabalhar, nós nos construímos enquanto indivíduo, essa também era, quando o chamado jovem Marx pensava a dimensão do trabalho, o trabalho da emancipação, então ele dizia, o que nos distingue efetivamente dos outros seres, ou seja, homens e animais, é a potência de trabalhar, mas não a potência do trabalhar no sentido capitalista da exploração, no sentido negativo, mas no sentido positivo, e aí ele retoma uma dimensão positiva que já estava presente em Hegel com a ideia da práxis, mas agora um trabalhar que ao trabalhar, a gente se constrói, e coloca em oposição ao trabalhar da alienação, o trabalhar que produz a mercadoria, que produz o fetiche, que produz por sua vez a reificação da mercadoria, ou seja, as relações pessoais intermediadas ou vistas enquanto mercadorias e etc, mas o verdadeiro trabalhar é o trabalhar da emancipação, o trabalhar que, ao trabalhar, eu aprendo coisas e eu me construo enquanto indivíduo, e nesse sentido, a tua fala vai muito em direção a essa dimensão, desse trabalhar que eu to tentando chamar aqui, que eu vejo uma analogia com uma dimensão que é espiritual, o trabalhar que é espiritual, mas eu fiquei pensando que, se simultaneamente ao trabalhar a gente se constrói, tu te constrói e eu também entendo o meu fazer, seja ele teórico, seja ele prático, de maneira muito semelhante, nós trabalhamos, mas nós temos uma outra coisa, que é o outro, eu trabalho e eu me construo por meio dessa interação com a própria materialidade, gerando um objeto, ou gerando uma produção artística que pode ter materialidade ou não, em nosso caso, tem materialidade, mas eu produzo isso também em direção ao outro, e a minha pergunta é, como é que tu vê o outro, o espectador, nesse processo? Por que penso que, no nosso caso, somente o argumento dessa produção, de que ao produzir, eu me produzo enquanto indivíduo e enquanto ser, numa dimensão espiritual, ele serve pra muitos outros fazeres, e não necessariamente esses fazeres nós precisamos colocar ao mundo, colocar numa exposição, entrar em diálogo com o outro, e é nesse sentido que eu gostaria de te ouvir falar, quando o outro entra nessa produção? O outro que percebe, ou o outro que interage, o outro que “consome” essa obra, onde é que entra a preocupação com esse outro que vai olhar para este trabalho? Outro ponto é a ideia da autoficção, eu fico me perguntando como a gente sempre se direciona ao outro quando não é autoficção, toda vez que nós retomamos a memória, nós reinventamos, isso é muito óbvio no campo da história, toda vez que eu to fazendo história da arte, eu to reinventando isso, nunca é o que foi efetivamente, é sempre um processo de reinvenção, quando eu falo de mim pra alguém, tem algo aí de autoficção, então, quando não é autoficção? Quando eu te faço essa pergunta, será que existem escalas para essa autoficção? E se existem escalas, onde está na tua produção, ou qual escala na tua produção estaria essa autoficção, por exemplo, ao falar de mim e de minhas experiências, eu to aqui “fazendo uma curadoria, fazendo uma montagem” gerando em parte, uma autoficção, gerando uma imagem de mim pra ti, então sempre tem algo de ficção, e essa ficção aqui, eu não to pensando como o oposto a realidade, isso é uma ideia do Rancière, ele diz, a ficção não está necessariamente em oposição a realidade, ela é aquilo que constitui realidades, isso está ao encontro de Ernest Bloch, então, como é que tu pensa em tua produção essa relação? IX IX Quando fecho os olhos, tudo se faz chão. Conversa: Rodrigo Núñez, Felipe Caldas. Transcrição e Design: Pedro Lucas. Galeria Ocre, Porto Alegre, (RS), 2026.