ESCRITA entre 1730 - 31 para o Collegium Musicum de Leipzig, essa obra é um modelo de equilíbrio entre forma e conteúdo. Passados 275 anos de morte do compositor, impõe - se a pergunta: " - QUEM INTERPRETA O VERDADEIRO BACH ? " - Sua música surpreende por resistir a qualquer meio, seja um instrumento de autor, um teclado eletrônico ou um ringtone de celular: ao ser tocada, seu autor é logo identificado. Na história da Humanidade, da pré - história aos dias de hoje, o fenômeno musical sempre teve o seu nascimento em meio sagrado, em rituais sacros expressos em melodias e ritmos que têm sua gênese num ambiente religioso, antes de tornar - se profana, o que é inerente ao ser humano e prevê uma visão mística e espiritualizada da vida e da realidade. Nos anos 1960, enquanto a Europa Central vivia um intenso processo de secularização, floresceram estudos sobre a música antiga, especialmente sobre o barroco europeu, para saberem como soavam seus instrumentos de cordas de tripa e arcos curtos, os de metal sem pistons e outros existentes em museus. Foram analisados diapasões que variavam de 415 a 456 e, nos teatros do século XIX, apenas os cantores reclamavam da falta de um padrão internacional, só estabelecido em1956 (440 Hz), porque vários, de afinação tão aguda, podiam produzir perda vocal em 10 anos. Essa investigação levou à organização de alguns ‘protocolos’, princípios válidos para a prática da execução barroca, servindo como referência para a expressão do estilo dessa época. Porém muitos grupos passaram a considerar sua execução em instrumentos antigos como expediente exclusivo para a legitimidade de sua interpretação. Um erro, porque o que nos leva à uma interpretação viva e verossímil de um compositor é menos a questão se o instrumento é antigo ou moderno do que a empatia que nos conduz ao resgate do ‘ Zeitgeist ’ de sua época e contexto e, daí, ao entendimento e à incorporação do espírito que passa a emanar por trás das notas frias da partitura. Intérpretes vocacionados sabem que a Música repousa por detrás dela e que sem a libertação desse espírito a obra é morta, servindo à distração do público como uma peça decorativa numa estante de museu. Criação e vocação são carismas diferentes, Assim, foi amadurecendo essas reflexões, há mais de três décadas, que a Cia. Bachiana Brasileira acabou por adotar, entre outros, cinco princípios básicos para "dar voz" a Bach: 1 - Sonoridade : Som flautado, com vibrato apenas no acabamento da nota; 2 - Messa di voce : A "barriga barroca", onde notas longas crescem e decrescem elasticamente, sem vibrato romântico; 3 - Articulação : Notas que antecedem outras de maior duração são executadas mais curtas que seu valor real; 4 - Dinâmica : crescendo e decrescendo restritos às diagonais ascendente (crescendo) e descendente (decrescendo), uma vez que ‘crescendo’ e ‘decrescendo’ juntos no ‘tutti’ orquestral foi invenção da Escola de Mannheim, posterior a Bach; 5 - Ornamentos : Apojaturas no tempo real e trinados apoiados na nota superior, trinando a seguir; O Concerto para Dois Violinos BWV 1043, segundo a Cia. Bachiana Ao lado desses cinco princípios, três foram os pilares estabelecidos para a interpretação dessa obra: 1. O ‘chiaroscuro’ da filosofia maniqueísta e da pintura barroca na música : A obra é um Concerto Grosso , forma criada por Corelli e aprimorada por Torelli e, principalmente Vivaldi, baseada na alternância entre soli (solistas) e ripieno (tutti). Essa estrutura espelha o chiaroscuro da pintura barroca, o "jogo de luz e sombras" que também expressava da polarização da época entre Bem e Mal, Fé e Razão, Igreja e Estado, aqui refletida também na ordem dos movimentos rápido - lento - rápido. Dos princípios acima citados, o que sublinhamos com maior ênfase nos três movimentos foi o do Messa di voce , aqui usado principalmente como recurso para a realização de um diálogo gentil entre solistas e orquestra, particularmente no pungente segundo movimento, de modo a excluir, com elegância, qualquer atitude de competição entre os interlocutores, o que Bach soube fazer; 2. O pathos Germânico presente na convicção e na necessidade de Segurança: Os alemães, à diferença de outros europeus, não se lançaram aos mares no período das grandes navegações, tempo que muitos imaginavam um "abismo" atrás do horizonte. Essa cautela diante do desconhecido, que não pode see formulado pela racionalidade, encontramos na própria sintaxe da sua língua: nas orações subordinadas, o verbo vem no fim da frase, o que obriga o que fala a planejar seu pensamento antes de falar, assim como o ouvinte a esperar até o fim para entender o que foi dito – desde a mais tenra idade. É um olhar de cima, que gerou a águia como símbolo na alma alemã. Esse traço cultural cria uma capacidade extraordinária de planejamento e êxito em projetos, mas também a condição de refém do idealismo, do ideal em detrimento do real, o que o torna avesso a aventuras e a qualquer impulso onde não se sinta seguro. Contudo a força e a vitalidade deste povo intensamente musical e religioso, em meio a cortes vizinhas cada vez mais dominadas pelos valores materialistas da burguesia em ascensão, fez com que ele conseguisse levantar e oferecer ao mundo, em menos de dois séculos, uma cultura e um perfil próprios, capazes de influenciar toda a humanidade na música, nas artes, na filosofia, na ciência, na literatura e demais áreas do conhecimento. Para um regente sério, é fundamental conhecer esse ‘pathos’ germânico, caso deseje aprofundar - se na interpretação de Bach, Beethoven, Brahms, Wagner e tantos outros. 3. O diálogo em Bach como representação musical da unidade na diversidade Nessa obra Bach usa a forma do concerto grosso de Vivaldi, mas deixando de lado o espírito de competição de seu conteúdo, para dar espaço ao coração ecumênico que Bach derramaria na sua obra - testamento, a Grande Missa em si menor, escrita sem encomenda e quase que secretamente ao longo de 25 anos (1723 - 1748), como uma carta escrita à posteridade por alguém que sofria com a perda da unidade da Igreja. Não a viu montada em vida: antes, como que cancelada pelas rivalidades religiosas, só teve sua estreia completa em 1856, 106 anos após sua morte e 27 após o resgate de Bach para o mundo por Mendelssohn em 1829. Isto se deu provavelmente pelo fato dela ter sido a sua única composição coro - orquestral em que Bach usou o texto integral do Ordinarium da Missa latina, e não em alemão, sendo que, nela, está o Credo do Concílio de Nicea ( Symbolum Nicenum ). Por fim, o manuscrito inclui uma declaração de próprio punho, onde se lê: “Esta Missa é o meu credo como cristão e músico numa declaração só.” Tal revelação já foi objeto de palestra nossa no V Festival Bach, que montamos em 2022, e cuja explicação não cabe nessa pequena tribuna. O que podemos dizer é que na Parte 2, no próximo vídeo, abordaremos como este compositor acabou por tornar - se um caso extraordinário de barroco protestante, especialmente por ter quase sempre representado o sagrado em sua colossal produção musical, o que era considerado herético por diversas denominações evangélicas, em particular as de linhagem calvinista. Os diálogos entre os dois violinos, representando a unidade na diferença Ao invés da competição entre ‘ Soli x Ripieno’, ou mesmo a entre os solistas, Bach interage as vozes generosamente, como faria mais tarde no “Domine Deus”, do Gloria da Missa em si menor: - um primeiro motivo é apresentado pela Flauta e respondido exatamente igual pelos primeiros violinos no compasso seguinte, nas mesmas notas, como num eco de aprovação. Quando o tema é apresentado pelos solistas, o tenor começa na tônica, sendo logo respondido com o mesmo motivo na dominante pela soprano, dentro do mesmo compasso. Aí tem início o extraordinário, pois que começam a cantar unidos em terças e ou sextas, porém com textos diferentes, representando a unidade que representam na diferença: - O tenor entra cantando “ Domine Deus, Rex coelestis, Deus Pater omnipotens ”, seguido pelo soprano com o texto “ Domine Fili, unigenite Jesu Christe altissime ”. Aqui Bach representa musicalmente o versículo de João 30, 10, em que Jesus declara, para escândalo dos judeus, “ - Eu e o Pai somos um”, ou seja, o Pai é o Criador e o Filho é a sua Palavra, sendo ambos Um em essência, não havendo a possibilidade de disputa ou diferença. Após dois compassos instrumentais, tudo é repetido, com as mesmas notas, iniciando com imitação e logo unidos nos mesmos intervalos, sendo que, agora, quem entra primeiro é o soprano cantando as notas anteriores do tenor, “ Domine Deus, Rex coelestis (...) seguido do tenor cantando o “ Domine Fili , (...)” e daí por diante, o movimento inteiro. Enfim, o que passa a termos aqui é um ‘ concerto grosso ’ sem competição entre os solistas ou entre estes e a orquestra, mas em perfeita unidade, harmonia, proporção e simetria. Uma obra prima genial, que assim precisa ser descoberta pelos seus intérpretes, para se tornar viva e atualizada a cada geração. Mais uma vez, os nossos aplausos a todos estes maravilhosos artistas que participaram com talento e sensibilidade da performance desta apresentação! A seguir, publicaremos a Parte 2 dessa nossa Homenagem a Bach, tendo como solista uma estrela venezuelana entre nós, o venezuelano Alexis Ângulo, que nos brindou espetacularmente, como solista, com a Suite em si menor, BWV 1067. Aguardem!!! Ricardo Rocha, 12 de dezembro de 2025 BACH, Domine Deus, Gloria, páginas 2 e 3, entradas alternadas de solistas, imitações e coloraturas simultâneas com textos diversos entre Tenor e Soprano