1 2 E - book gratuito 3 FLIPERAMIGOS — Resenhas e Crônicas Retrogamers © 2025 Sammis Reachers Conheça mais sobre o trabalho autoral e editorial do autor: https://linktr.ee/sreachers 4 Sumário Índice de Jogos por Console ...................................................................................... 06 Apresentação ................................................................................................................ 09 CRÔNICAS Em busca do fliperama perdido ................................................................................. 13 As Casas de Fliperama e seus muitos tipos: De volta aos anos 80 e 90 ........... 16 No tempo dos fliperamas ........................................................................................... 22 Um papo e um TOP 10 ................................................................................................ 26 1999: De como um Dreamcast veio bater em minha porta ................................. 28 RESENHAS Top 7 mais difíceis shoot 'em ups do Mega Drive - Os jogos de navinha infer- nais! ....................................................................................................................... ... ........ 33 (Retro)games envolvendo viagens no tempo ....................................................... 46 De férias com Nintendinho: Cinco jogos de plataforma pouco conhecidos que vão te surpreender ....................................................................................................... 62 De férias com Nintendinho 2: MAIS cinco ótimos jogos de plataforma pouco conhecidos para você debulhar nas férias! .............................................................. 71 De férias com Nintendinho 3: OUTROS cinco jogos "um homem, uma mis- são" para você detonar ................................................................................................ 83 Os Jogos Bárbaros - Conan e seus congêneres nos retrogames ........................ 94 Cadillacs and Dinosaurs: Memória & Análise .................................................... 109 Yooo Joe!!! Os jogos dos Comandos em Ação para o Nintendinho ................. 114 A divertida trilogia de beat ‘em ups "perdida" do SNES: Rushing Beat ........ 121 Os (bons) beat'em ups que (quase) ninguém jogou .......................................... 132 Demon Front: O divertido "Metal Slug" que poucos fãs da franquia jogaram... ou conhecem ................................................................................................................. 14 1 5 Viajando pela história e pelas culturas através dos... jogos beat 'em up! ..... 145 Em escala de cinza: Os Castlevanias do Game Boy ........................................... 150 Quatro (bons) shmups do Nintendinho, baseados em helicópteros! ........... 158 HOOK, o divertido beat 'em up da IREM - E a humana busca por vida eter- na .......................................................................................................................... ... ....... 165 Little Samson: A pequena joia dos 8 bits .............................................................. 172 O ano era 2000, e os caras fizeram um (bom!) beat 'em up da Mulan - Mas es- queceram de avisar a Disney! (Legend of Heroes) .............................................. 177 Mystical Fighter, divertido beat ‘em up exclusivo do Mega Drive ................ 183 Sonic Blast Man 2: Divertido e exclusivo beat 'em up do SNES ..................... 188 Chuva de balas dos arcades para seu celular: Os shmups da Psikyo ............. 193 As heroínas dos 16 bits ............................................................................................. 206 Mega Drive: Rocket Knight Adventures ............................................................. 222 Haunted Castle: O cruel Castlevania dos arcades ............................................. 227 Nekketsu Oyako, um beat 'em up "velha guarda" no PlayStation 1 ............... 233 Um passeio pelo paraíso: O universo de shmups do PC Engine/Turbografx 16 .......................................................................................................................... ... ....... 238 BÔNUS Carta aos Fliperamas ................................................................................................ 256 Fliperama ................................................................................................................... .. 258 The Arcade Fire .......................................................................................................... 25 9 Renato Cascão & Sammy Maluco: Uma dupla do balacobaco ( e - book free ) ........................................................................................................................... ... .. 282 Sobre o autor ............................................................................................................... 28 3 6 Atari Babarian ........................................ 98 Conan Hall of Volta .................... 106 Time Pilot ...................................... 49 Commodore 64 Barbarian, The Ultimate Warrior .. 98 Conan Hall of Volta ..................... 106 Rastan ........................................... 99 NES Astyanax ........................................ 66 Conan: The Mysteries of Time .... 106 Conquest of the Crystal Palace ..... 88 Cross Fire ...................................... 90 Dragon Fighter .............................. 85 G. I. Joe - A Real American Hero . 115 G. I. Joe: The Atlantis Factor ....... 118 Hammerin Harry ........................... 78 Kabuki: Quantum Fighter .............. 69 Kick Master ................................... 64 Little Samson ............................... 172 Low G Man .................................... 76 Power Blade .................................. 72 Power Blade 2 ............................... 74 Shatterhand .................................. 67 Silk Worm .................................... 163 Spartan X 2 .................................... 92 The Ultimate Stuntman ................. 80 Tiger Heli ..................................... 159 Time Diver: Eon Man .................... 86 Time Lord ...................................... 50 Twin Cobra .................................. 162 Twin Eagle .................................. 160 Vice: Project Doom ....................... 63 Game Boy Castlevania Legends .................... 154 Castlevania: The Adventure ........ 152 Castlevania II: Belmont's Reven- ge ................................................ 153 Master System Danan, The Jungle Fighter ........... 104 Rastan ........................................... 99 Time Soldiers ................................ 52 PC Engine Atomic Robo Kid Special ............. 247 Burning Angels ............................ 249 Download .................................... 244 Final Blaster ................................ 245 Final Soldier ................................ 241 Gokuraku! Chuuka Taisen (Cloud Master) ....................................... 250 Gunhed (Blazing Lazers) .............. 253 Hana Taaka Daka!? ...................... 251 Heavy Unit .................................. 247 Legendary Axe 1 .......................... 105 Legendary Axe 2 .......................... 105 Soldier Blade ............................... 242 Super Star Soldier ....................... 240 Terra Cresta 2 ............................. 244 Índice de Jogos por Console 7 The Lost Sunheart (Boken Danshaku Don) ............................................ 248 Violent Soldier ............................ 243 W - Ring - The Double Rings ......... 246 SNES Barbarian .................................... 103 Battle Blaze ................................. 102 Brawl Brothers (Rushing Beat 2) . 126 Kendo Rage ................................. 215 Knights of the Round .................. 146 Legend ........................................ 102 Magical Pop ’ n ............................. 217 Sonic Blast Man 2 ........................ 188 Super Metroid ............................. 213 Super Valis IV .............................. 220 Rival Turf! (Rushing Beat 1) ......... 123 The Peace Keepers (Rushing Beat 3) ................................................. 129 TMNT IV: Turtles in Time ............... 54 Weapon Lord .............................. 102 Mega Drive Alisia Dragon ............................... 210 Blades of Vengeance ................... 101 Cadash ........................................ 102 Dahna Megami Tanjou ................ 101 El Viento ...................................... 211 Gaiares .......................................... 35 Golden Axe .................................. 100 Grind Stormer ............................... 41 Hellfire .......................................... 40 Mystical Fighter ........................... 183 Phelios .......................................... 38 Rastan Saga 2 .............................. 100 Rocket Knight Adventures ........... 222 Second Samurai ............................ 56 Sword os Sodan .......................... 105 Syd of Valis .................................. 219 Trouble Shooter .......................... 209 Truxton .......................................... 42 Undead Line .................................. 44 Valis 1 .......................................... 218 Valis 3 .......................................... 220 View Point ..................................... 36 Neo Geo Ninja Combat .............................. 138 Ninja Commando .......................... 58 Sengoku 2 ..................................... 59 PlayStation 1 Nekketsu Oyako .......................... 233 Mobile Dragon Blaze ............................... 203 Gunbird ....................................... 201 Gunbird II .................................... 202 Samurai Aces ............................... 195 Strikers 1945 I ............................. 198 Strikers 1945 II ............................ 199 Strikers 1945 III ........................... 199 Tengai .......................................... 196 Índice de Jogos por Console 8 Arcades Arabian Magic ............................. 148 Black Tiger ................................... 104 Blade Master ............................... 135 Cadash ........................................ 102 Cadillacs and Dinosaurs .............. 110 Demon Front ............................... 141 Golden Axe .................................. 100 Haunted Castle ............................ 227 Hook ............................................ 165 Karate Blazers .............................. 134 Knights of the Round .................. 146 Legend of Heroes ........................ 177 Metamorphic Force .................... 136 Nastar (Rastan 2) .......................... 99 Rastan ........................................... 99 Rastan Saga 3 (Warrior Blade) .... 100 The Astyanax ............................... 103 Time Soldiers ................................ 52 Vandyke ...................................... 100 Warriors of Fate .......................... 147 Índice de Jogos por Console 9 Apresentação Nascido em 1978, minha infância e adolescência trans- correram nas décadas de 80 e 90. Na adolescência eu tinha duas grandes paixões, ou mais que isso, mas essas duas eram as mais regulares e onerosas: quadrinhos e jogos ele- trônicos. Passei pela clássica segunda geração dos conso- les caseiros, mas vivi realmente as terceira, quarta, quinta e sexta gerações. Além de ter experienciado toda a vibe dos fliperamas, verdadeiros "templos" onde eu depositava meu tempo e suadas fichas. Falando em anos 80, jogos e qua- drinhos, o título e a arte de capa deste livro fazem referência a uma revistinha nascida e extinta nos anos 80, a Superamigos, que trazia histórias da DC e era editada pela saudosa Abril (por sua vez, inspi- rada na saudosa animação Super- friends/Superamigos, dos anos 70/80). A partir de 2020, com a eclosão da pandemia de Covid, e seu lock- down, o tempo “ocioso” de todos, para o bem e para o mal, foi cata- pultado para muito adiante. Assim, pude dedicar um tem- po maior à jogatina nos emuladores, o que fazia, até ali, 10 apenas muito esporadicamente. Comecei então um movi- mento natural de escrever resenhas e análises de jogos por pura diversão e higiene mental, uma fuga ou descanso das atividades editoriais e literárias mais "sisudas" a que geral- mente me dedico. Mas a inspiração para tudo isso veio de meu amigo Luiz Miguel Gianeli, que, com seus livros Muito Além dos Videoga- mes , iniciou um movimento de memória e literatura retro- gamer, buscando falar de games a partir de uma perspecti- va cristã, um tipo de enfoque quase que inédito e profun- damente necessário tanto hoje quanto – e ainda mais – quando ele surgiu. Além dos livros Muito Além dos Video- games, o esforço logo avançou para a publicação de uma revista homônima. Hoje o trabalho conta com uma equipe de colaboradores, da qual tenho o prazer de fazer parte, e dispõe de site , canais no Youtube e nas redes sociais e muito mais. Pois bem: No segundo volume de seus livros de crônicas (2019), Luiz convidou diversos amigos e personalidades do universo retrogamer a escreverem crônicas relatando alguma memória que julgassem interessante. E assim inici- ei minha carreira como escritor retrogamer. Os textos aqui compilados foram escritos entre 2019 e 2025, e publicados em meu blog Azul Caudal . Muitas das crônicas e resenhas também foram publicadas na Revista Muito Além dos Videogames, ou em seu site. Os meus gê- neros preferidos, é claro, aqui prevalecem: os beat ‘em ups, jogos de "andar e bater"; os shoot ‘em ups ou shmups, os 11 populares "jogos de navinha"; e os games de plataforma 2D. Cada texto possui, ao final, a indicação da data de publi- cação no blog. Para auxiliar nas consultas, inserimos um índice dos jogos resenhados, indicando a página onde ocor- rem. São mais de 120 games! Optamos por trabalhar com um formato e tamanho de fonte que otimizasse a leitura em smartphones. Fliperamigos existe apenas como livro eletrônico, pois, se fosse impresso, um livro colorido e com esse tanto de páginas ficaria economicamente inviável. Por fim, a título de bônus, inseri ao final deste volume dois poemas sobre eles, os fliperamas, bem como o conto The Arcade Fire Este livro é na verdade um tributo. Um tributo a uma era que me moldou, um tributo ao menino que eu fui, o coleci- o n a d o r d a r e v i s t a Videogame , o jogador de Phantom System numa TV preto - e - branco que sofria para conseguir um jo- go novo, o aficionado em fliperamas onde entreguei uma parte feliz de minha adolescência. E um presente a outros que viveram o que vivi, ou que desejam conhecer um pou- co daquela época e seus fantásticos jogos de videogame. Sammis Reachers 12 CRÔNICAS 13 Durante minha infância e pri- meira adolescência, talvez o prazer maior, dos muitos que tí- nhamos, mesmo pobres, eram os games. Digo muitos prazeres pois na época (e isso a juventu- de de hoje precisa recuperar) dosávamos as atividades ao ar livre com as virtuais. Dentre as diversas amizades comuns à idade, cresci mantendo um núcleo principal de três amigos – Wilson, Ronaldo e Wilson – amizade que dura até hoje (tenho 41 aninhos já). Jogar nos consoles era ótimo, mas a experiência mais gratificante era com certeza os flipera- mas. Primeiro porque a qualidade dos games era melhor: se em casa eu me debatia com um Phantom System, console nacional da Gradiente que operava o sistema Nintendo 8 Bits, ligado numa pequena TV em preto - e - branco, nos ar- cades eram placas do então poderoso, quase divino Neo Geo, e outras placas (e jogos) fenomenais da Sega, Capcom etc. Eu e meus amigos nos digladiávamos para conseguir di- nheiro para jogar algumas fichas. Era algo religioso: Não podíamos passar um dia sem “pranchar” ou “apertar uma ficha” – as gírias locais para jogar uma partidinha. O ritmo era de franca fraternidade: aquele que possuía grana no dia pagava para os outros. Com pena, mas pagava... Por vezes, catávamos ferro - velho (reciclagem) para conseguir algum 14 money. Certa vez, desconhecedores das leis ambientais, fo- mos para a mata cortar lenha para vender a uma padaria que mantinha um forno à lenha (graças a Deus hoje os for- nos são elétricos ou a gás!). Quantas aventuras e andanças, em nossas velhas bicicle- tas ou no poder das finas canelas, em busca de novos flipe- ramas que abriam aqui e ali, e novos jogos que de quando em quando chegavam! Amigos, naquele tempo o momento máximo da experiência com arcades era jogar numa cabine para QUATRO JOGADORES. Isso mesmo: elas eram raras e enormes, pois apenas alguns jogos (geralmente de beat ‘em up) permitiam tal “luxo”. Como era maravilhoso chegar no maior fliperama das redondezas, ou ir até o shopping no centro da cidade de Niterói (RJ), em conjunto com meus três amigos, e poder jogar Tartarugas Ninja 2, Captain Commando, X - Men ou mesmo Cadillacs and Dinosaurs. Era um pandemônio, um arranca - rabo, um salseiro dana- do!!! Cada um tinha seus personagens certos para jogar. E a jo- gatina tinha lá sua estratégia: eu era quase sempre o melhor jogador; assim, eu e mais um cuidávamos dos chefões, en- quanto os outros cuidavam da arraia miúda, os retardatá- rios que enchiam a tela na parte dos chefões. Por ser o me- lhor jogador, às vezes eu jogava com o pior personagem, pa- ra equilibrar a aventura (no Captain Commando, era o Ba- by; no Cadillacs, era a mulher ou o Jack). Eram exercícios de estratégia em conjunto, fraternidade e empatia. A regra geral era não deixar o companheiro ser moído na pancada! Pois hoje há quem diga (e acredite: naquela época tam- bém!) que os games são instrumentos de solidão, que en- cerram jovens em seus quartos e corações. Não creio nisso. 15 Fiz dezenas de amigos de perto e longe em minha juventu- de, apenas frequentando fliperamas ou trocando (por em- préstimos) fitas de videogame nintendinho, depois CDs de Playstation 1 ou mesmo Dream Cast. A amizade com meus amigos fortaleceu - se em muito de- vido a essa convivência gamemaníaca . O tempo gasto com jo- gos era tempo em que permanecíamos juntos, estreitando nossos laços, nos conhecendo melhor, rindo, discutindo, sendo mais humanos. A Bíblia diz que há amigo mais chegado que irmão. Esses meus amigos, os Três Mosqueteiros do Jardim Nazareth (eu era o Dartagnan) foram e de certa maneira são os irmãos que não tive, e devo isso em parte aos games. Nossa relação se tornou mesmo familiar, e minha casa era cidade aberta on- de eles vinham praticamente todos os dias: dois deles, ir- mãos, perderam a mãe na infância e o pai, desequilibrado, os renegou; outro perdeu o pai igualmente ainda na infân- cia. Hoje os três, mesmo absorvidos pelas responsabilida- des da vida adulta e morando um pouco distantes uns dos outros, não deixaram de jogar seus consoles, e todos inicia- ram seus filhos no mundo dos games, e jogam com eles, mantendo a corrente, construindo estratégias em conjunto, se divertindo, dando do que da vida não receberam e sendo o que pais e filhos devem ser: amigos. Publicado originalmente no livro Muito Além dos Videogames: Crônicas dos Meus Amigos 13/07/2019 16 As Casas de Fliperama e seus muitos tipos: De volta aos anos 80 e 90 Saudade doída, curtida no álcool feito pimenta no pote, e no formol até, é a saudade de fliperama. Pra quem viveu a vibe arcadiana, a lembrança de um fliperama consegue tra- zer quase a época toda no bojo ou gabinete. A época que di- go são os anos oitenta e noventa, ou ainda mais especifica- mente o meinho, a meiota, de meados de uma década até meados da outra. E fliperama, você sabe, tinha de todo feitio. E aqui não fa- lo da cabine de madeirite com tela de tubo, mas do ambien- te onde eles eram alocados, do bar à casa de dedicação ex- clusiva. Cada um com seu charme e sua feiura, sua carga de alegria ou perniciosidade. Vamos exercitar a memória. Vou rememorar alguns tipos de fliperamas que vivi, e espero que você, que viveu a épo- 17 ca, possa se reconhecer e reconhecer alguns deles, se não todos. E, a você que não viveu, que possa aprender e se di- vertir com a variedade dos tais. O melhor fliperama era o Fliperama Capital : aquele que unia proximidade, quantidade e qualidade de máquinas e frequência considerável de jogadores. Geralmente esse era aquele fliperama fiel, em que você ia com mais frequência, ou deixava para os fins de semana e outras datas episódi- cas. Era a casa de diversões por natureza, por apresentar uma boa quantidade (6, 8, 12?) de máquinas, permitindo a variação – ainda que você no final fosse ali por uma ou duas máquinas, apenas. Normal. Ah, importante: Ele apresenta- va um ambiente geralmente neutro, sadio (na medida do possível), ou, para uma expressão mais atual, não - tóxico. Falando em casa de diversões, vamos logo para eles, os Fliperamas de Shopping . Sim, esses fliperamas de shopping atuais, onde todos os jogos são mecanicamente interativos, ou seja, unem eletrônica com mecânica e ciber- nética (mecatrônica), a sementinha do mal já estava lá, nos primeiros deles nos anos 90. Bonitos, caros, grandes, caros, nem sempre cheios, CAROS. Sim, caro definia e define o fli- perama de shopping. Mas era legal, tinham máquinas que você não encontrava em outro lugar. Me lembro de uma do Exterminador do Futuro (Terminator) cujos controles eram duas metrancas UZI, e cada uma tinha o nome de um personagem. Um deles era Sammy, um atrativo a mais para este coroa que vos escreve. Outra coisa interessante é que o fliperama de shopping permitia a você ver jogadores “haoles” (termo havaiano para designar surfista não - local, estrangeiro e até “trouxa”), de fora do universo flipermaní- a c o – p a i s c o m s e u s f i l h o s p e q u e n o s , m e n i n a s c u r i o s a s o u 18 acompanhando o namoradinho, e outros mais que nunca entrariam num fliperama “de rua”. Sabe aquele personagem inescapável de todo fliperama (sim, de todos os que citei ou vou citar), o cara duro, vicia- do, geralmente bom jogador, e que ficava à toa o dia inteiro no fliperama, só à espera de uma chance de “salvar” alguém, garantir a ficha de um jogador inábil (“pegar uma aba”, co- mo dizíamos por aqui)? Os fliperamas de shopping eram paraísos, oásis, haréns para esses caras. Ei, se você foi um desses, não se ofenda! Tive bons amigos no ofício, e já fui salvo mais vezes do que gostaria de admitir... E, confesse- mos: ver um desses viciados pegar uma ficha já “perdida”, com seu personagem já “na alma”, só com um risquinho de life , e fazer uma arruaça, virando a mesa para o nosso la- do (sim, agora somos uma equipe) era dos espetáculos que faziam a ida a um fliperama valer a pena, quase tanto quan- to simplesmente poder jogar. Mas voltemos para a rua, lá aconteciam as coisas. Outro tipo de fliperama podemos chamar de Monaural ou Binaural (feito aquele CD do Pearl Jam ). É aquele um, solitário, ou aqueles dois flipers colocados no barzinho da esquina, na porta da locadora, até no barbeiro. Um quebra - galho para uma hora de necessidade, uma tá- bua de salvação para um lugar desprovido. Lanterna dos afogados! O fliperama talvez mais agradável de nossa lista era o “ Secret Point ” (opa, mais um termo do mundo do surfe). Aquele fliperama com três, quatro, cinco cabines, bons jo- gos e o melhor – ZERO crowd, zero população. Era chegar e, na maior parte das vezes, as máquinas estarem vazias, te esperando, quase convidando como uma princesa chama por um Don Juan. Aqui tínhamos o Bar do Djalma, um bar 19 “escondido” numa rua sem saída, acessível, para piorar, por uma pequena ponte que só comportava bicicletas ou mo- tos. Para melhorar, dentro de uma das três cabines havia um Neo Geo, e os jogos eram constantemente trocados. Conheci quase toda a carteira de jogos do console assim, no aconchego. Lugar de paz e alegria, saudade forte! Dentre os fliperamas de rua, de considerável tamanho, podemos elencar um (sub)gênero que podemos chamar de Cave, ou Caverna mesmo. Era aquele fliperama escuro, sombrio, com ares de anos 70 ainda. Talvez tivesse até uma – ou várias – máquina de pinball por lá. Não ficavam muito cheios, atraíam roqueiros, alguns adultos ou adolescentes finais, e o cigarro era um mal onipresente. Cenário de fil- me noir ! Mas o pior dos lugares era o que hoje podemos chamar, num termo que não se usava na época aqui no RJ, de Quebrada Esse podia estar situado no centro da cidade – geralmen- te numa das ruas mais sujas (física e/ou metafisicamente), onde fazia vizinhança com casas de baixo meretrício, bi- roscas e cabeças - de - porco (pesquise, meu jovem). Podiam estar também no interior ou sopé de favelas. Essa casa de diversões sortidas reunia uma galera pesadérrima – pivetes e pivetões, batedores de carteira, viciados em tóxicos (cigarro na época era vento), e até gangues. Entrar num lu- gar desses, sem ser um de seus habitués , era atividade teme- rária. Aqui tínhamos um no centro da cidade de Niterói, na rua São João (sim, que reunia casas de prostituição, biroscas, pontos de jogo do bicho, bancas de camelô, moradores em situação de rua e duas igrejas neopentecostais, para promo- ver o equilíbrio na força e salvação para aqueles que acor- 20 dassem daquele torpor). Lugar pesado, uma mão no joys- tick e outra na carteira. Sombrolhos enfezados, desconfian- ça, moleque olhando moleque de cima a baixo, gírias ainda mais restritas circulando entre os locais. Uma memória pi- toresca: Morando em São Gonçalo, uma vez por mês ia ao centro de Niterói, cidade vizinha, comprar quadrinhos nas bancas de gibi usado. Geralmente ia acompanhado de meu amigo Ronaldo. Era ou vínhamos de uma fase ruim e, crias da periferia, nós dois poderíamos ser colocados no time dos brigões, ou ao menos gostávamos de nos acreditar assim. Quando entrávamos em tal espelunca, eu, mais centrado, avisava ao amigo: “Ronaldo, já sabe. Aqui só tem pivete, e esses caras todos se conhecem. Se começar uma briga aqui, não dá pra gente não. Então é o seguinte: Caso algum ma- landro meta a mão no seu bolso enquanto estiver jogando, ou tente pegar nossa bolsa (estava cheia de nosso tesouro, gibis Marvel/DC!), você prancha logo a cara dele e a gente corre pro terminal rodoviário (que ficava próximo). E eu faço o mesmo. Bota logo um a zero e vaza!” Acredite, era nesse espírito marcial, misto de burrice, presunção e cora- gem, que ali entrávamos. Sim, amigos, hoje é engraçado, mas era loucura – e risco de vida – total! Pulemos para outro tipo, um todo especial: O fliperama “ Cápsula do Tempo ”. Aquele lugar onde a máquina ou as máquinas só e sempre tinham jogos antigos, atrasados em relação ao entorno, ao momento. Um exemplo raso: Em tempos de Street Fighter 2 e Samurai Aces nos arcades, vo- cê chegava lá no bar do tiozinho e se deparava com Pac - Man e um Galaga. E quando, um ano depois, os jogos final- mente eram trocados, eram substituídos por mais games do tempo do ronca. E você pensava, decepcionado: “Mas quem administra essa bagaça??!!!”. Tais lugares ou jogos, okay , ti-