Vernissage Giuditta che decapita Oloferne – Artemisia Gentileschi, 1620 Para lá do nó de carne e pele embrenhado no seu drama sangrento, pouco é visível. O negrume surge modulado com subtil eza , por um impasto que engrossa a própria atmosfera, fumo de mil velas de sebo a condensar - se em redor do visitante. Melhor dizendo, do in truso que testemunha a cena, paralisada em plena matança. Entrevejo depois, atrás do palco do drama, uma estrutura triangular, em madeira; mas a luz, emitida por um candelabro à esquerda do general caído, é como que sugada pelos três corpos em transe: a as sassina Judite, a sua criada e o antes tão confiante e forte Holofernes. A ilusão de estar lá esmaga - nos, tremenda, avassaladora, imersiva. Os óculos preenchem todo o campo de visão; consigo aproximar os olhos dos músculos, das roupas e do sangue. Ultrapas sar os contornos dos objectos causa de imediato uma vibração no joystick e o obscurecimento da visão. O espaço livre entre a cama, as personagens e as paredes é exíguo; no entanto, a passagem é possível, permitindo - me circular em redor da arena onde a arti sta encenou a mil vezes pintada – embora nunca com tamanha brutalidade – degolação. Sinto - me de quando em vez amparado por uma presença invisível – um dos engenheiros ficou com a missão de impedir que os meus passos, dados num outro mundo , me levem a coli sões dolorosas com objectos nada virtuais O estúdio em redor do ringue dos testes foi acolchoado e limpo de armadilhas; mas logo no primeiro ensaio arranjei forma de dar com a testa numa parede Para banda sonora, comecei por escolher um Magnificat de Frescobaldi, para completar o ambiente com música de época. Mas a cena exigia condimento mais cruel; acabei por mudar para a Explosante Fixe de Boulez: angustiante e sombria q.b., sem se tornar explícita nem fácil em demasia – ominosa e serena, não ape nas “cinematográfica”. A consonância perfeita diz muito do esforço de pesquisa e da noção de espectáculo total de Hikaru Saito. Not a : a recriação nunca se limita a ser um mero modelo 3D revestido a texturas engenhosas e bem iluminado. Há no próprio espaço , na luz, algo a pulsar com a mesma vibração física da pintura barroca aqui refeita . Um microcosmo onde as leis da óptica e da perspectiva são diversas das que regem o nosso mundo físico . Ali, assumimos como nossa , sem de tal nos apercebermos, a visão do ar tista, capaz de tudo gerar e transfigurar : da periclitante iluminação aos reflexos do veludo sobre o príncipe chacinado. A pintura escolhida foi a segunda versão desta imagem , hoje n a Galleria degli Uffizi . Tal é notório numa infinidade de diferenças : a mais bem dimensionada cabeça masculina, o penteado de Judite ou a atitude enérgica da serva ( no relato do Livro , ela n em participa na matança ) , segurando a vítima com firme empenho. Mas, claro está, os jactos de sangue que irrompem do pescoço rasgado s ão a mais famosa das divergências: parábolas perfeitas que espalham um pontilhado de morte vermelha sobre os braços, o vestido e até o colo de Judite. No seu braço esquerdo, outra dissemelhança desta variante aperfeiçoada: o bracelete feit o de camafeus com efígies de Artemisa, deusa homónima da pintora, protectora da castidade. O adereço, além de adequado à descrição bíblica ( “vestiu - se como para uma festa” ) , marca uma possível ( e famosa ) nota autobiográfica, pois Gentileschi foi violada aos 17 anos por um amigo do pai, o também pintor Agostino Tassi, apesar de se ter defend ido com uma faca. A múltipla visitação ( existem ainda duas outras pinturas versando a fuga das duas conspiradoras com o seu macabro troféu, a cabeça de Holofernes ) da cena deste crime abençoado por Deus pode portanto ser uma referência vingativa à tragédia pessoal da pintora; ou apenas uma iteração tardia da tendência florentina para representar episódios com oponentes i nvencíveis que acabam trucidados por heróis improváveis, à partida em desvantagem – S. Jorge mata o dragão, David abate Golias, Judite decapita o poderoso general sobre o seu baldaquino; outras tantas metáforas para a resistência de Florença a adversários formidáveis, sendo Milão o mais tenaz Estas digressões sobre história da Arte italiana não devem nunca obnubilar o essencial; aliás, nenhuma destas reflexões articulei enquanto estive dentro daquela pintura tridimensional. Poder circular em torno de uma c ena com tamanho poder pictórico e emocional, sentir - me a atravessar uma realidade até agora só visível em duas dimensões... aproximo - me da blasfémia ao pensar isto, mas não consigo reprimir a ideia de ter agora conhecido esta obra - prima da P intura com uma intimidade que nem mil visitas à Ga l leria me proporcionariam. À medida que procissões incessantes de grandes obras deslizam sobre a nossa ataraxia, vamos perdendo a noção do impacto tremendo que uma pintura desta intensidade teve sobre os seus contemporâneos: a Judite chocou tanto pela violência nela exposta que se viu remetida para um recanto escuro do palácio Pitti. Aliás, só foi paga após intercessão de Galileu, amigo da pintora e estudioso das trajectórias parabólicas que guiam os proj écte is balísticos... e os repuxos de sangue arterial. Caveat : o convite para ser o primeiro crítico de Arte a servir de beta - tester deste programa ( hesito em chamar - lhe jogo, apesar da plataforma a que se destina , uma banal consola ) despertou em mi m algum orgulho; mas também uma animosidade tão imediata quanto preconceituosa, face a todo o desígnio. Criar modelos tridimensionais de obras de génio para serem visitados pareceu - me visar a atracção turística sacrílega e rasteira. Dispositivo para arrancar “ahs” de espanto aos espíritos mais permeáveis à novidade tecnológica e ignorantes das subtilezas dos grandes pintores. Não para encher as medidas aos iniciados nes t es arcanos De regresso ao teste. Os óculos estereoscópicos são leves e aju stam - se sem dificuldade, cobrindo todo o campo de visão; os auscultadores integrados também são confortáveis. O sistema ainda precisa de ser aperfeiçoado : fui instruído para esperar alguns glicthes desconcertantes e sensações de claustrofobia e vertigens. A tecnologia háptica não está operacional; em breve uma luva transmitirá feedback táctil dos encontros com objectos sólidos, servindo também de mecanismo de navegação – dizem - me os engenheiros que faz toda a diferença, para a imersão nestes ambientes virtu ais, podermos ver na imagem as nossas próprias mãos. Apesar dessa eventual lacuna, não consigo atenuar o meu deslumbramento o suficiente para apontar qualquer defeito às recriações. E já experimentara brinquedos como o VArt ; est e s sim meros entreténs para crianças curiosas e adultos incapazes de franquear o mundo da Arte pelas suas portas mais laboriosas. Pressupus, antes de entrar no Judite , que Hikaru Saito, o velho mestre da animação japonesa, dedicara parte significativa da sua vida a uma demanda quixótica , fadada a engendrar apenas aleijões . Imaginei modelos com as medidas certas mas recoberto s por miasmas de filtros electrónicos a dar ao conjunto um bom tom “impressionista”, tudo derretendo num horroroso museu de cera virtual. Ainda por cima, o c hiaroscuro de Gentileschi prefigurava um desafio inultrapassável: a sua escuridão delimita um proscénio onde o Ser se impõe , denso e primitivo – e os corpos afirmam tod o o seu poder , embora amea çados pelas trevas e pela dissolução na luz Esta pintura convida o espectador a deixar - se sequestrar pelas relações entre as anatomias , pelo horror do movimento congelado, pelo olhar já quase inerte do general em agonia. A recriação de Saito possibilita que a promessa ominosa desse magnetismo se concret ize : somos sugados pelo nigérrimo huis - clos da tragédia para tudo podermos examinar de perto; embora interditos de tocar ou influenciar – o voyeurismo do amante da Arte encontra por fim o seu palco de sonho. Mas não vagueamos em redor de uma escultura, num a galeria fora de horas, escurecida e juncada de obstáculos invisíveis – o espaço em si, apesar de bastar uma pressão no joystick para navegar a nossa presença por onde queremos, é viscoso e resistente ao movimento; todo ele, toda a luz é feita de óleo e t udo comunga a irregularidade de uma tela secular. Bal du moulin de la Galette – Auguste Renoir, 1876 Mal retirei os óculos, ainda com as parábolas de sangue marcadas nas retinas, comecei a tomar notas. Enquanto as escrevia, ia percebendo: de nada me iria servir a erudição refrescada de véspera , tanta e tão trabalhosa pesquisa sobre as obras modeladas. Por muit a quinquilharia literat a que regurgite neste meu relatório, o fulcro não viv e aí . Para quê papaguear que Galileu se correspondia com Gentileschi? O cartesianismo pouco me ajudará ; aqui, a verdade não é atingível através do conhecimento. Só na percepçã o pura, na entrega abissal à sensação, poderei encontrar o s termos cert o s para descrever este brinquedo fabuloso Para tal, nada melhor do que um impressionista. Segui, respeitando a cronologia histórica, para o célebre baile de Renoir, a celebração da joi e de vivre da classe operária da Paris da segunda metade do século XIX ( feérica apesar de eclodir no rescaldo da derrota na guerra franco - prussiana – ou talvez por isso mesmo ) Por coincidência ( ? ) , também esta obra tem um a géme a menor, um doppelgänger famoso por ter estabelecido um preço recorde num leilão e, pouco depois, por ter sido am e açado de cremação pelo seu dono, um milionário japonês com planos para o incinerar na companhia de um Van Gogh. Não se sabe qual a primeira versão a ser pintada, nem qual suscit ou o entusiasmo dos críticos n a mostra impressionista de 1877 Desta e nesta tela, muito é conhecido . Renoir alugara bem perto daquele cenário um estúdio onde pintava sem cessar enquanto se alimentava a lentilhas e fazia amigas; entre elas algum as das jovens que ali sorriem e dançam de cabeça descoberta, em desafio às regras do local de diversão – uma mulher decente levaria um chapéu, salvo se fosse uma apressada costureira, de visita apenas para um fugaz pé de dança. Num vestido às riscas azuis, Estelle, irmã da modelo dilecta, Jeanne. Dançando, à esquerda, com um aristocrata - pintor cubano de feições derretidas por uma tristeza absoluta , está Margot. Ela pouco depois adoeceria, de nada lhe valendo o tratamento pago pelo amigo Pierre - Auguste. No o utro lado da tela, o sonhador Rivière toma notas; talvez escreva já o conhecido livro sobre Renoir e o seu círculo? O próprio pintor anotara, a propósito de pinturas como esta, a sentença “o mundo sabia rir naqueles dias. A maquinaria ainda não tinha absor vido toda a vida” – uma reflexão presciente; agora era a Máquina a insuflar uma nova vida naquele fóssil hipercolorido da felicidade parisiense. Nem pensei em consultar o menu das escolhas de acompanhamento musical; agradou - me a valsa indistinta, aglutina da com um puzzle de risos, restolhar de sedas, petits riens de quem se sonha fadado à felicidade eterna – ainda que apenas ali, então preso aos óleos do mestre e agora ressuscitado no mundo vivenciável da realidade virtual. Nota: o crime de Judite revestira - se de carne, sombras e sangue, mas tudo naquele baile vivia da luz. Os raios de sol coados pelas folhas das acácias ( as poucas em Montmartre incólumes aos machados do barão Hausmann ) , pelos candeeiros de cabaret , pelos pró prios corpos dos pares enleados... eram os mais reais e vibrante s protagonistas da dança . O resto, as cores, a beleza, as roupas, as alegrias, apenas se tornava real por acção da luz – melhor, tudo era luminosidade pastosa a coalescer e adensar - se para cri ar a ilusão de entes separados Na realidade, ali vivia um só ser ; multiforme, encarnad o em diversas silhuetas humanas mas un o na sua origem luciferada, circulando da fotão para fotão num rodopio que parecia faiscar a compasso com a valsa. Dois bancos de jardim, virados de costas para o plano da tela, formavam uma baia para me tolher os movimentos. O comando vibrava a cada choque com um obstáculo, sinalizando - me nova violação das fronteiras de um volume implantad o pelo pincel de Renoir. Era - me impossível p enetrar no recinto do baile – ali estava prisioneira uma divindade do Sol; seria até sacrílego examinar as suas encarn ações mais de perto. Admito que esta visita me encheu de uma reverência próxima do religioso. Não de pasmo pela proximidade à obra - prima; ali ás perdi de vista por longos momentos a minha missão de observador e crítico. Ainda mais do q ue na peça anterior, maravilhei - me com a profundidade total da recriação. A realidade virtual fazia enfim jus ao nome: enquanto me movia, a paralaxe alterava a minha visão de todas as manchas pintadas , d as mil cascatas de cor ali desaguadas: braços, sorris os, roupas, folhas, copos, líquidos, movimentos paralisados. As relações entre os dançarinos e os adereço s, vegetais ou artificiais, iam fluindo no torvelinho de novas perspectivas que a cada “passo” do meu trânsito pelo terreiro do baile ia criando novos Renoirs, novos enquadramentos para a feérica dança do Moinho. E, mais uma vez, era o próprio tecido do espaço a rejeitar a lisura homogénea do mundo real , estruturando - se nos relevos de pinceladas longas e espontâneas, seguindo as linhas geodésicas daquele universo, orgânicas e maleáveis. Sem aviso, senti - me à beira da vertigem, prestes a dissolver - me em volutas e breves afloramentos de tinta sob os quais a tela se deixava adivinhar. A es sência do mundo surgia granulosa, como se a escala de Planck tivesse sido inflacionada até alcançar as dimensões do nosso olhar: dimensões físicas e tempo sem a gentileza de um fingimento de regularidade e segurança. Havia ali abismos entre corpos, buracos negros entre olhares. E mais: o perfume a fazer lembrar pó talco, o odor enjoativo que não poderia ter emigrado das flores das acácias para as minhas narinas através dos óculos – sinestesia ou auto - sugestão ? De súbito, o brinquedo de Saito assustou - me . El e não se limitara ao feito imenso de dar tridimensionalidade e vida àquelas obras. Não se tratava de um simples algoritmo mecânico a operar uma transcrição para mais um médium – aquela tecnologia criava mundos únicos, imersivos e hipnotizantes, capazes de agarrar o visitante com a firmeza de um papel autocolante a imobilizar moscas. Um flashback : os rumores em fóruns de viciados em realidades alternativas a bundavam Teria Saito sofrido um esgotamento, sendo internado de emergência num sanatório em Shimoda, incapaz de acompanhar o nascimento d o seu magnum opus ? Ou desaparec era após ter tentado destruir o código - base do projecto AkaManto ? Nesse improvável caso, haveria motivos para eliminar uma tal maravilha, uma tão poderosa ferramenta de divulgação da grand e Arte pictórica? Já de olhos repletos por esta visita à Paris de antanho e à esplendorosa visão de Renoir, encontrei o primeiro erro no programa. Perto do centro do original, um pouco para a direita, destacava - se uma pequena área pixelizada. Aproximei - me e vi um rosto, cristalizando - se em quadrados tremeluzentes. Havia ali um crepitar de movimento, os cristais a rodopiar sobre si mesmos num vórtice hipnótico Quando as nódoas de cor se aquietaram, deram lugar a um a cara . Mas tudo continuava errado: era um rosto de mulher adulta, de maçãs do rosto e lábios entreabertos pintados num vermelho berrante, olhos claros muito abertos, atónitos, mirando - me no que me pareceu uma súplica próxima do terror. Aparentava ser uma mulher; mas a lo calização daquela cabeça pressupunha medidas diminutas do corpo e convidava à confusão com uma criança. Ela aparentava estar imobilizada, presa contra uma árvore pelo corpo e pelo braço direito ( onde estava e em que se ocupava aquela mão? ) de um homem, de cabeça apoiada contra o tronco da acácia. A posição dele, com o corpo oblíquo, tinha muito de obsceno, de rapace. Olhava em frente na pose de quem tenta ocultar um acto hediondo Então, a criança - mulher virou - se para mim, movendo a cabeça e gritando algo. Também devo ter soltado um grito; um dos técnicos correu a desligar o aparelho, arrancando sem cerimónia os óculos da minha cara. Revi pouco depois as gravações da minha promenade Após o glitch , n a da de estranho ficara registado . Mesmo com este desmentid o , o esgar então pintado pela minha imaginação sobre aquela criatura sintética sobreviveu , sempre a crescer em horror e estranheza. Era não uma vítima mas sim uma criança poluída, ou uma anã voraz e lúbrica. Olhara para mim; a seleccionar a sua próxima presa, balbuciou o meu medo. As pinceladas do seu cabelo animadas em labaredas amarelas num incê ndio vicioso, com movimentos senciente s . Voltaria a vê - la logo naquela noite, durante o primeiro dos meus pesadelo s inspirado s pelos testes. Goya avisou - nos: o sono da razão produz monstros. E se a hiperestesia da razão os criasse também, mais ágeis e letais? P elo menos a minha visão , esforçada para lá dos seus limites por uma tecnologia mais real do que o nosso mundo, cede ra durante segundos, abrindo um rasgão por onde vi o que antes estava destinado à invisibilidade O email com o convite de Saito continha alguns avisos; não lhes dei a importância devida, devo confessar, enleado pela expectativa de descobrir Tóquio e ainda por cima poder testemunhar o nascimento de uma nova forma de Arte. “ Vertigens, sensações de pânico irrazoável, desorientação extrema ” – desbravar um continente recém - nascido, com leis e ecossistemas ainda misteriosos, tem de acarretar alguns riscos. Mistero e malinconia di una strada, fanciulla con cerchio – Giorgio de Chirico ( anos 60 ) Por diversos motivos, decidi deixar as restantes obras para hoje, ficando um dia a descansar no hotel, um excelente cinco estre las no bairro de Shinjuku. Cheg ara lá com uma dor de cabeça execr ável . P edi ao room service um tabuleiro de comida – depois não lhe toquei – e tentei adormecer ainda c edo. Acordei várias vezes ofegante e assustado com noções escorregadia s a fugir ao meu pensamento despert o Tinha sonhado com a aparição ameaçadora do pseudo - Renoir; dela apenas ret ive imagens soltas de um a górgona , colorid a e ágil, esgueirando - se a correr por entre uma multidão de japoneses, rumo a mim. Delírios causados pelo jet lag . Ou talvez um fenómeno paralelo às dores que me afligem quando – ocasiões raras – me estreio num novo tipo de exercício físico; devo ter inflamado zonas do cérebro ain da atrofiadas. De manhã, p ara não desperdiçar o Mercedes cedido pelos estúdios, fui espairecer passe ando pel os jardins Shinjuku Gyoen, um oásis de silêncio e recolhimento no meio daquela cidade frenética. Estávamos em plena saison das cerejeiras em flor; segundo o paciente motorista adstrito à viatura, o acto de admirar a beleza efémera destas erupções brancas e rosadas tem um nome: Hanami . A ideia de prestar tributo respeitoso a uma metáfora da vida humana tão deslumbrante quã o breve só poderia ser japonesa. A cerimónia acaba por ser ainda mais bizarra do que aparenta, com legiões de famílias em piqueniques ou passeando tablets e câmaras de vídeo, ecrãs histéricos a florir em estranhos canteiros, vibrantes de cores nunca criadas pela N atureza. Anda por aqui um símile mordaz e preciso do meu presente papel de cobaia ; mas não o vou perseguir – falta - me a energia mental para jogos florais. Aconselhado pelo chauffeur , almocei num excelente ( e barulhento ) restaurante chinês fronteiro ao parq ue; escolha só na aparência bizarra, pois tanto peixe cru já começava a maçar - me. Por sua vontade, o rapaz aguardaria em pé até eu acabar a refeição, para depois cuidar da conta; só após alguma insistência o convenc i a almoçar comigo e conversar um pouco, com as inevitáveis mesuras e um inglês bem superior ao meu. Além de bagatelas sobre a cidade e o s três jardins que acabáramos de visitar, emergiu um dado interessante: ele fora motorista de Saito, até ao seu desaparecimento. Os japoneses gostam de se apre sentar opacos; mas este, diria que por ser jovem, exsudava incerteza sobre quanto me deveria contar acerca d o colapso do seu empregador. Talvez me estudasse, tentando avaliar a entrega do visitante exótico ao desígnio de Saito. Hei - de insistir, pois o r apaz ( gostava de me recordar do nome mas é inútil puxar pela cabeça ) aparenta simpatizar comigo . Pelo menos ao ponto de me oferecer uma excursão nocturna , fora das suas horas de serviço, ao bairro de Kabukich ō – zona red - light , logo irresistível para um ga ijin . Assenti, embora mais logo vá inventar uma qualquer indisposição para não sair do casulo alcatifado do hotel. Afinal, tenho de me preparar para mais um dia de sensações fortes. E uma noit ada entre bares de strip , yakuzas e bebidas de nomes e composiçõ es insondáveis não será a melhor antecâmara para entrar – agora em sentido literal – no mundo do meu pintor preferido. A razão de ser do convite para vir a Tóquio fo ra o próprio Giorgio de Chirico. Saito é um cognoscente do pintor italiano, possuindo mesmo duas das suas “versões” tardias. Segundo o seu programador - chefe, essa paixão terá estado na base do projecto AkaManto ; acima de tudo, o velho mestre queria visitar as praças de perspectivas perdidas e arcadas cavernosa s, as estátuas ameaçadoras e os manequins que incendiavam “o coração e o cérebro” do pintor “como um refrão contínuo”. Eu, dispensada a costumeira modéstia, serei talvez o maior especialista vivo no de Chirico “metafísico”. Esse terá sido o motivo da minha escolha para primeiro crítico da suite digital criada pelo decano dos animadores japoneses – agora, no ocaso dos seus dias, convertido em pioneiro da A rte virtual. Se ntir ia apenas a trepidação de me preparar para invadir uma obra sobre a qual já tanto esc revi e pensei? Receio de uma decepção? Ou o contrário: a atmosfera saturada de presságios da geometria chiriquiana ser ia potenciada até ao insuportável pela tecnologia virtual? E se também ali se acoitam habitantes de pesadelos? A bem da verdade, temia até que o nervosismo causado pelo iminente desembarque na famosa ru a com a menina a rolar o seu ar o me impedisse de adormecer. No hotel, r eguei o jantar com um excelente sake , servindo - me da beberragem com 15 % de álcool como se fosse cerveja. Pouco depois es tava na cama, de portátil ao colo e olhos a teimar em não obedecer às minhas ordens para se manterem abertos. Tinha um problema com a informação disponível: a data de manufactura da obra apontava não para um original mas para uma cópia tardia. Em 1914, o jovem Giorgio ocupava um atelier na rua Campagne - Première, em Montparnasse, então colada aos subúrbios industri ais de Paris. Viria depois a descrever a constelação de elementos obcecantes que se agrupou ao seu redor em “novos signos zodiacais” , destinados a refulgir no centro de tantas das suas obras: de uma cabeça em papier machê numa montra a uma luva de zinco pi ntado balouçando sobre a porta de outra loja. “Os demónios da cidade abriram - me a rua”, eis a sua síntese daqueles dias de revelação e clareza alucinatória. Preparando o “ M istero ”, ele desenh ou primeiro dois esboços com a criança , num deles em corrida paralela ao plano da folha , dirigindo - se a um edifício em cunha, noutro já com a composição adoptad a n a pintura final. E a qui jaz o busílis: ess e quadro não seria “final”. Após renegar o seu período metafísico, de Chirico procederia a uma hipócrita e lucrativa manobra de auto falsificação das suas obras proto - surrealistas mais famosas, além de produzir inúmeros pastiches a imitar o espírito com que os tais “demónios” haviam possuído os seus anos de juventude. Depois, ainda mais tarde, chegou a produzir cópias dessas cópias, datando - as de maneira fantasiosa, para não dizer fraudulenta. Não devia sair barato manter o descomunal apartamento na Piazza di Spagna , a abarrotar de dourados e pratas, habitado por florestas de lustres e feíssimas telas da fase neoclássica, produzidas quando o visionário sem fé cismara intitular - se pictor optimus . Recordei então a deprimente visita ao lar romano do meu ídolo – sobretudo o seu quarto minúsculo, uns esquálidos seis metros quadrados onde à justa se encaixa um catre de dimensões prisionais; isto ao lado dos aposen tos principescos da sua mulher... Regressemos ao significativo: de novo uma pintura com duplos, gémeos, doppelgängers . Havia naquela escolha de elenco um mecanismo subterrâneo por desvend ar. Adormeci enquanto matutava nisto e tentava rememorar o ditado romano sobre dinheiro e bem - aventurança ainda hoje pendurado nas costas do cavalete final do maestro Giorgio. Cheguei aos estúdios antes das onze da manhã. Enquanto preparavam o aparelho e m e afivelavam os óculos ao crânio, alguém esclareceu o pequeno enigma: não fora possível negociar os direitos ligados ao original daquela obra, sequestrad o numa colecção privada americana. Para desgosto de Saito, a aguarela presente no museu Carlo Bilotti, no laranjal da Villa Borghese , teve de servir. A bem da transparência , nova confissão: sentia - me dividido ao avançar para mais este teste. Há muito me habituei a ver no de Chirico tardio um usurpador da sua própria obra; mas nem assim consigo deixar de sentir o fascínio emanado por qualquer das suas telas metafísicas, por mais espúria que seja ; teria ele o dom de pintar o que mais ninguém via, mesmo depois de abjurar esse segredo? Ou será apenas um caso de fetichismo rasteiro, de reverência ante todos os objectos tocados pelas mãos do génio? Com um zumbido agudo e uma agitação de linhas luminosas, a rua misteriosa ergue - se em meu redor. Senti - a e só depois a vi. Abro os olhos devagar, focando - os primeiro em nada , depois num a panorâmica geral , idêntic a à t rivial bidimensionalidade, com o polegar muito quieto sobre o joystick , evitando a menor das deslocações para a vertigem. Antes de avançar, observo e catalogo: os edifícios à esquerda e à direita, arcadas distorcidas por ângulos abrupt o s e discordantes. A menina em corrida para o desconheci do enquanto brinca com o seu ar o – não é uma mera silhueta negra, idêntica à do original , pois tem rosto, carne modelada pela luz, um vestido verde. O vagão – nesta versão sem rodas – com as portas às escâncaras. Do seu interior caíram dois embrulhos, ausentes da tela de 1914 ( onde um enigmático sólido em esboço toma o seu lugar? ) . As sombras de uma estátua e de uma chaminé industrial – testemunhas revelada s não aqui mas noutra pintura do mesmo ano, o Enigma de um Dia O adereço em parte cómico: um grande animal, talvez um leão, adormecido dentro do vagão. A única peça musical disponível é a coetânea Syrinx , de Debussy; as suas notas pastorais soam incongruentes mas, de um modo oblíquo e gradual, acabam por reforçar a atm osfera onírica que sufoca as linhas e a luminosidade daquela imagem ( permit indo - me ainda ouvir o eco dos meus próprios “passos” ) . Eu teria seleccionado uma composição mais atonal, de Webern, por exemplo. Mas seria escolha inferior, um pleonasmo escusado de angústia e Weltschmerz Devo fazer um esforço para silenciar esta maré de anotações mentais e o seu ruído erudito; redundam n uma cortina entre os meus olhos e a rua de Giorgio de Chirico. Um esforço para forçar o hediondo cair do véu Deslizo para o vazio sideral. Sem respirar, pois sei estar em paragens de atmosfera rarefeita, onde apenas a ausência pode sobreviver. Para lá do vagão e do seu estranho passageiro ador mecido. Banhado por aquele “sol outonal, tépido e sem amor” que tudo revela, isola e individualiza, sob um céu composto por milhões de pequenos traços em viagem do azul c erúleo para um horizonte glauco, trepida do com ameaças de destinos sem paralelo preste s a revelar - se. A rua estremece , máquina secreta. Olho para a menina e as suas feições vibram na mesma frequência; ela não se move mas não deixa por isso de estar viva e expectante, pronta para enfrentar os monstros que lançam aquelas sombras sem fim. É a luz de todas as tardes incandescentes da minha vida: as estações de comboios descompostas em ruínas; a interminável praia da infância, o seu padrão de toldos listrados; a mulher talvez amada, sorrindo na Acrópole; um copo de cerveja com um reflexo inespera do no seu interior. Em tudo revejo o mistério dos escassos dias em que me senti de facto vivo – os demais foram apenas reverberações esbatidas daqueles segundos de claridade. E aqui a claridade nunca se atenuará, o Sol jamais desaparecerá no horizonte montanhoso. O software permite - me avançar, embora a um ritmo milimétrico ; julgo sentir ( tal é impossível, claro ) uma gravidade tremenda a puxar - me para trás, a impedir - me de avançar para o segredo. Levo o meu avatar para lá do edifício da direita; torna - se visível a estátua culpada da longa sombra sobre a rua: é o esperado conde de Cavour ( dos jardins públicos de Turim ) , sobre um pedestal cúbico, com a sua mão aberta, paralisada como se quando o orador se aprestava para o anúncio de uma verdade proibida. Na base da estátua, há algo a mover - se – melhor, algo a tremer e cintilar. Aponto o meu olhar para lá. Acaba de se formar, esculpida no gr anito puído, uma palavra: “Candeia”. Em português? Sem entender porquê, aquelas letras comunicam - me a iminência de um cataclismo capaz de tudo ali apagar; por instantes, enchem - me de um terror gratuito . Não tenho tempo de a ler uma segunda vez; a inscrição eclipsa - se. Mais um glitch ? Ao longe, as silhuetas de um par, talvez em conversa, imóve is sobre o chão alaranjado. Também el e s esperam . P or alguém ? Olham para mim? Mesmo antes de duas colossais chaminés vermelhas, um muro da mesma cor delimita a arena, encerrando todas os conhecedores da nudez do mundo naquela praça inóspita e, apesar de tudo, acolhedora – sinto - me capaz de ali viver, ou de ali morre r, naquele preciso segundo. Da direita, aproxima - se um comboio a vapor; o seu fumo ergue - se numa bola sólida, apesar do vento que sacode as flâmulas nos cantos dos edifícios. Os escorços contraditóri o s de todos aqueles sólidos já não me soam estridentes. O meu olhar, os meus meridianos interiores, tudo se adapta sem vertigens à cavalgada dissonante dos pontos de fuga, enquanto eles se multiplicam sem cessar. Linhas geodésicas divergem antes de se encontrarem por fim no centro da piazza Percebo só agora: de Chirico não pintou um espaço hostil e desalmado; criou sim todo um sistema de percepç ões , o norte de uma nova topografia do mundo . Ali, tudo nos será enfim revelado, no mais belo e cruel dos dias. Não devo, não posso olhar para um Sol capaz de espalhar aquelas sombras, de derramar aquele âmbar que nos aprisiona , insectos capturados na teia de um entardecer eterno. Mas ouso - o. Crucifixion – Francis Bacon, 1965 Dos minutos ou horas seguintes, recordo cambalear para fora da sala de testes, com uma assistente minúscula, de trancinhas, a oferecer - me água ou chá . Pouco mais. Terei visitado as restantes obras do programa? N ada me vem à ideia . Alguém chamou o motorista para me devolver ao hotel. À saída, outr o flashback espúri o : gente com câmaras fotográ ficas e microfones gritava o meu nome com vários graus de distorção na pronúncia. Que me poderia querer aquela gente? Num momento de pânico ( ou talvez apenas agora reveja a cena com essa impressão ) , enfrento um friso de caras distorcidas num labirinto de e spelhos berrantes; sempre o rosto da criança - demónio do Renoir, olhando para mim, fazendo - me caretas em japonês, atrás de máquinas que aqueles vultos me apontam como se fossem armas exóticas. Só não ca io porque o rapaz da limusina me ampar a a tempo, encaminhando - me para o alívio do ar - condicionado e dos vidros fumados. Tive de abrir uma das janelas. O interior do automóvel, ninho de peles reluzentes decorado a puxadores cromados e miríades de luzes amarelas, deformava - se em resposta a cada m ovimento meu; um estômago acolhendo uma refeição indigesta. A piorar a indisposição, um cheiro que reconheci após alguns segundos de quase - enjoo: as flores das acácias regressavam, mas com um travo artificial, granuloso, fabricado por nervos em desarranjo, não pelo mundo exterior. Lá fora , nada estava melhor: a rua deslizava por nós em vagas de pontos de vista conflituos o s, ondas de distorção a sacudir cada linha, cada edifício como uma bandeira ao vento. O céu estava errado , sem sombra de nuvens nem vestígio dos omnipresentes jactos Afinal não saíra da piazza melancólica ao desligar os óculos. Todas as superfícies, todos os planos que por nós desfilavam impunham - se aos meus olhos n o enigma de vultos encriptados, cifras a sinalizar - me ameaças além do entendimento dos sentidos. Ausência. Tremor. Imensidão. Fechei os olhos e a janela. A escuridão não me acudiu: em vez dela, um panorama de sombras e parcas claridades a iluminar corpos em movimento, dedicados a uma qualquer carnagem insuportável. A promess a de sangue e de dor, a caverna íntima em contraste com a anomia e a perda de sentido do exterior. Sentia uma perturbação maior a subir - me à consciência. Concentrei - me num só ponto das costas do banco do condutor, uma costura a linha branca, desviada da ve rtical por uma fracção de milímetro. Devia esconder - me naquele erro tão humano, focar nele toda a minha atenção. E falar, romper a opressão do silêncio, estabelecer um contacto com alguém no exterior do abismo. – Para onde me leva? Da outra vez n ão fizemos e ste caminho para o hotel! – Não se preocupe – retorquiu o motorist a, encarando - me pelo retrovisor enquanto ajeitava a pala do boné. – Vi - o sair aflito do estúdio; pensei em circular enquanto recupera E avisaram - me de que tem jornalistas à espera no Park Hya tt . Devemos entrar pelas traseiras. Mas, se me permite, está tudo bem consigo? Deseja parar para um café, medicamentos? – Não sei, não sei. – A costura imperfeita resistia enquanto âncora d o meu equilíbrio – Diga - me só isto : “candeia” é uma palavra japon esa ? – Sim. Esperava essa pergunta. – Havia uma nota triunfal e sorridente na voz do rapaz. Mal a soltou, deu uma guinada à direita, para fora da movimentada avenida onde nos arrastávamos aos solavancos. – O sensei aviso u - me. É simples: trata - se de um vocábulo aqui deixad o pelos portugueses; significa “pequeno candeeiro”, a azeite. Foi lá colocada, na pintura do artista italiano, para si. Uma vez que a mencionou, terei de o levar a outro local, antes do hotel. Aproveite para repousar ; demoramos menos de meia hor a. Arigato – O quê? Isto é inadmissível ! – A minha irritação era mais teatral do que sentida; tudo para me distrair da parada de aberrações cénicas a desfilar em redor do automóvel. – Foi o seu patrão, o seu... sensei quem lhe ordenou isto? Vamos ter com ele? – Sim, sim. Não se preocupe. Entretanto, para contrariar os efeitos que está a sentir, tente não falar e concentre os olhos num objecto imóvel. Excelente conselho. Nem tentei a pergunta óbvia: “efeitos” de quê, afinal? O jovem ao volante evitava, co m as melhores maneiras, oferecer - me mais pormenores. Derramava indicações paisagísticas e históricas sobre Hiroo, o bairro que atravessávamos, com a calma de um imperturbável guia turístico, não de um cúmplice neste aparente rapto. Ainda não me sentia com forças para me queixar, quanto mais para actos dramáticos, porventura abrir a porta e atirar - me de cabeça para uma sarjeta de Tóquio. Passados alguns quil ómetros, comecei a confiar de novo nos meus olhos. O bastante para os deixar vaguear pelas ruas. Ali, as casas eram mais baixas, algumas vivendas tradicionais de telhados em arrebiques e janelas quadriculadas entre prédios com lojas e excitados a núncios de “ Wines ” de