INTRODUÇÃO Âmbito do Trabalho O Plano Estratégico de Cabo Verde para o Desenvolvimento Sustentável (PEDS) tem na Economia Digital uma das prioridades e é considerada uma área essencial para o desenvolvimento do país que se quer tornar num Centro de Referência Digital na região. A Visão do Governo para a economia digital é a seguinte: “Em 2030 Cabo Verde será, através da transformação da Economia Digital, uma Economia transformada e digitalizada, um hub regional das telecomunicacções, um centro regional da inovação, do empreendedorismo e da Excelência e um mercado regional de referência da economia digital”. O Projecto Tech Park pretende ser um dos motores da visão. Pretende-se assim aumentar o número de pessoas com melhor acesso à Internet em banda larga; melhorar a segurança e redundância do acesso internacional; diminuir os custos de banda larga, Internet fixa e móvel; e aumentar o tráfego internacional da Internet. A banda larga é vista como um bem de construção de um futuro assente na modernização e sofisticação de novos serviços, constituindo uma das prioridades do Governo. Neste sentido, o foco está em transformar Cabo Verde em “cyber islands”. Ao fazer com que a maior parte dos cidadãos tenham acessibilidade à Internet com qualidade, está-se a criar a sustentação para uma infinidade de potencialidades, contribuindo, significativamente, para o desenvolvimento económico e social do País. A Internet como bem essencial deve ser acessível, universal e inclusivo. O acesso gratuito deve ser garantido na educação e investigação. Para isso, será necessário fortalecer os pilares digitais do país, incluindo o ecossistema de dados e segurança cibernética, e alavancar o investimento em capital humano, promovendo um programa nacional de capacitação digital. A universalidade do acesso e a alta disponibilidade da conectividade a custos económicos competitivos, pressupõe uma reforma energética do país como factor determinante na transformação digital da economia. 2. ENQUADRAMENTO MACROECONÓMICO DE CABO VERDE Cabo Verde é um país insular, localizado no Atlântico médio a 650-850 km a oeste da costa ocidental de África (África Subsaariana). Ocupa um território de cerca de 4.000 km2, com desafios estruturais, inerentes à sua localização e dispersão geográfica (10 ilhas das quais 9 habitadas) bem como à sua juventude como nação, mas que tem conseguido alcançar um estatuto de economia em desenvolvimento, num ambiente de crescente liberdade política e social. A população era de 570.000 habitantes em 2021. Estima-se uma projecção de crescimento que poderá atingir os Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 8 621.141 habitantes até 2030, espalhados pelas nove ilhas habitadas. Refira-se que cerca de 88% da população vive em quatro ilhas, com a seguinte distribuição: 56% em Santiago, 15% em São Vicente, 9% em Santo Antão e 8% na ilha do Fogo. Metade da população de Santiago vive na capital, cidade da Praia. A população urbana da Cabo Verde corresponde a cerca de 65% da população do país. A diáspora é uma das características de Cabo Verde. Cerca de 1,5 milhões de cabo verdianos vivem oficialmente no estrangeiro pelo que a sua influência é enorme no país para não falar do papel económico que tem devido às remessas dos emigrantes que constituem uma importante entrada de divisas no país e que contribuem em 16% do PIB. Em média, cerca de 250 mil cabo-verdianos residentes na diáspora têm direta ou indiretamente o seu segundo centro de interesse económico fixo em Cabo Verde. Figura 1 – Projecção da População até 2030 Fonte: INE CV – Projecções demográficas Antiga colónia Portuguesa, tornou-se independente a 5 de Julho de 1975, tornando-se desde 1990 numa economia aberta que tem mantido fortes laços com a Europa, particularmente com Portugal. Desde as reformas de liberalização do comércio, o país tem mantido uma relação de abertura comercial acima de 90%, ancorada em vários acordos bilaterais, regionais e internacionais. A moeda nacional, o escudo Cabo-verdiano, está indexada ao Euro sob uma parceria especial com Portugal, sendo 1 Euro = 110,265 ECV. Cabo Verde, país de rendimento médio baixo, como muitos dos outros países pertencentes aos SIDS (Small Island Developing States), partilha um conjunto de desafios económicos que têm tido implicações directas na sua estratégia de desenvolvimento, nomeadamente a fragmentação do seu território e da sua população, e o aumento dos custos do comércio que impedem a integração económica do mercado interno de bens, serviços e trabalho. Por outro lado, esta fragmentação aumenta os custos de contexto e cria um novo custo, o chamado “custo da insularidade” inflacionando assim o custo da prestação de serviços essenciais, nomeadamente os serviços de saúde, de educação, eletricidade, água e saneamento e telecomunicações. Tabela 1 – Principais Indicadores em 2020 Indicador Valor População Total 412.086 População Activa 218.351 População Empregada 186.627 0 200000 400000 600000 800000 2010 2012 2014 2016 2018 2020 2022 2024 2026 2028 2030 Projecção da População entre 2010 e 2030 Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 9 População Desempregada 31.724 Taxa de actividade (%) 53% Taxa de Emprego (%) 45.3% Taxa de Desemprego (%) 14.5% Fonte: INE CV; BCV A preocupação com a boa governação e transparência, a modernização e a eliminação da burocracia levou o país a empreender reformas constantes em vários sectores sobretudo no sector público, o que lhe permitiu atingir a posição 135 (em 190 países) na classificação do estudo anual do Banco Mundial Doing Business 2020, a posição 112 (em 140 países) no estudo The Global Competitiveness Report 2019 do Fórum Económico Mundial (WEF) e a posição 134 (em 148 países) no estudo Competitive Industrial Performance Index de 2018 da UNIDO, indicando um longo caminho a percorrer. Segundo dados produzidos pelo Banco de Cabo Verde e o Instituto Nacional de Estatística ao longo dos anos, os indicadores económicos e financeiros do país melhoraram consideravelmente, apesar de se terem degradado com a crise financeira global de 2008 e a subsequente crise da dívida europeia, mas equilibrando-se com o aumento da entrada de turistas e as remessas de emigrantes. A economia assenta, sobretudo, no sector dos serviços, com o comércio, os transportes, o turismo e os serviços públicos a representar cerca de 75% do PIB. A produção alimentar tem um peso reduzido no PIB (4,9% em 2020), o que implica a importação de cerca de 70% dos bens alimentares. O PIB que tinha vindo a crescer a uma taxa média anual de 1,4% ao ano entre 2009 e 2016, sofreu uma queda acentuada em 2020 devido ao Covid 19 com forte impacto no sector do turismo. As projecções para os próximos anos estão fixadas em torno de 4% ao ano e não consideram o impacto da pandemia do Covid-19 em 2020. Em 2021 a economia registou um crescimento de 7,1%, impulsionada por uma retoma gradual da procura externa e, sobretudo, do turismo. Para 2022 e 2023, e num cenário de limitações de entradas de turistas, período de seca e os efeitos do conflito Rússia-Ucrânia, perspetiva-se uma subida respectivamente de 5.1% e 5.7%. Atualmente com um produto interno bruto (PIB) de cerca de 2 mil milhões de dólares e PIB per capita de 3.500 dólares, Cabo Verde tem vindo a crescer a uma taxa média anual na ordem dos 5-6% e a focalizar-se no sector de serviços, que atinge já cerca de 75,5% da atividade nacional. O turismo e o investimento estrangeiro ligado ao turismo, incluindo a construção, continuam a ser os principais motores do crescimento. Saliente-se também que em 2016 a análise global das empresas em Cabo Verde permitiu afirmar que 90,5% das empresas são classificadas como Micro e Pequenas Empresas (MPME), 7,1% são médias empresas e somente 2,4% são consideradas grandes empresas. A tabela seguinte resume os principais indicadores macroeconómicos do país. Figura 2 - Taxa de Crescimento Real do Produto Interno Bruto (em %) 2020 2021 2022 (p) 2023 (p) Crescimento real do PIB -14,8 7,1 5,1 5,7 Crescimento real do PIB per capita 0,5 2,4 2,8 2,7 Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 10 2020 2021 2022 (p) 2023 (p) Inflação, medida pelo IPC 0,6 1,9 6,5 3,5 Saldo orçamental em % do PIB -9,1 -7,3 -6,3 -5,6 Saldo contas correntes, em % do PIB -15,0 -11,3 -14,1 -6,2 Dívida Pública 154,9 155,3 158,5 151,9 Fonte: BCV e Banco Mundial; 2021 Para garantir a macro estabilidade, Cabo Verde acedeu a financiamentos internacionais significativos e empréstimos concessionais que lhe permitiu um grande aumento do investimento público em infraestruturas chave, nomeadamente em aeroportos, portos, estradas, eletricidade, água, barragens e saúde. Contudo, esse nível de financiamento devido à recessão gerou pouco crescimento e degradou consideravelmente o nível da Dívida Pública, o que expõe o país a riscos consideráveis para a estabilidade macroeconómica. Mais de 75% da dívida de Cabo Verde é externa sendo que com instituições multilaterais representa cerca de 50% e os restantes empréstimos bilaterais e comerciais são semi-concessionais, com vencimentos originais de 20 anos e taxas de juros entre 1,4% e 1,7%. A Dívida Interna que representa 25% da dívida é composta principalmente por Obrigações do Tesouro. A economia de Cabo Verde é de pequena dimensão e não tem conseguido criar economias de escala, pelo que a sua estrutura de exportação é fortemente penalizada por este facto. A economia é suportada pelo sector dos serviços, cuja exportação representou mais de 90% das exportações em 2021, dominado essencialmente pela indústria do turismo. 3. ENQUADRAMENTO GLOBAL DA TRANSFORMAÇÃO DIGITAL E PRINCIPAIS TENDÊNCIAS Introdução A era digital está prestes a causar uma maior disrupção do que as revoluções tecnológicas anteriores pois a mudança está a acontecer de forma muito mais rápida e está a alterar fundamentalmente a maneira como vivemos e trabalhamos. A massificação da automação nas fábricas, a desmaterialização dos processos na administração pública, a digitalização dos processos de trabalho nas empresas, a utilização intensiva dos telemóveis e da Internet têm vindo a evidenciar a natureza mutável da inovação e do trabalho e as implicações associadas ao futuro do emprego em todos os sectores e países. Os governos e a sociedade têm de se preparar e definir estatégias de resposta à mudança tecnológica de forma a adaptarem-se com sucesso ao processo da transformação digital. É importante que todos os stakeholders possam estar envolvidos no processo sendo importante definir à partida o significado de alguns conceitos chave do processo de transformação digital (TD). Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 11 A transformação digital (TD) é a adopção de tecnologia digital pela organização para digitalizar produtos, serviços ou operações não digitais. O objectivo da sua implementação é aumentar o valor através da inovação, invenção, experiência do cliente ou eficiência. Trata-se pois de reinventar o modelo de negócios e reinventar os processos. A transformação digital é uma mudança fundamental na forma como uma organização opera, comunica e se envolve com os clientes. É uma ruptura com a maneira 'tradicional' de operar para se tornar mais digital. Trata-se também de fomentar uma cultura digital e proceder ao upskilling das competências das pessoas na organização, pois é preciso uma equipa com competências digitais para trabalhar ao longo da transformação. É o processo de usar tecnologias digitais para criar novos - ou modificar os existentes - processos de negócios, a cultura e experiências do cliente para responder aos requisitos de negócios e de mercado em constante mudança. As empresas incorporam tecnologias nos negócios para impulsionar mudanças fundamentais ganhando maior eficiência, maior agilidade nos negócios e, por fim, criando uma nova proposta de valor para os funcionários, clientes e accionistas. A digitalização consiste no uso de tecnologias digitais para mudar processos e projectos de negócios, e requer uma reflexão sobre como capacitar funcionários para usar novas plataformas de software projectadas para ajudar a lançar serviços e produtos mais rapidamente. Apesar da transformação digital poder incluir esforços de digitalização, vai além do nível do projecto e afecta toda a organização. Trata-se de usar tecnologias e canais online para se tornar num negócio digital. Um exemplo é o uso da computação em nuvem (Cloud) para armazenar dados ou a automação para simplificar os fluxos de trabalho. Para a maioria das empresas, a transformação digital exige uma mudança de mentalidade e de pensamento tradicional para uma abordagem experimental mais colaborativa. Essas novas formas de abordar o trabalho revelam novas soluções que, por sua vez, podem melhorar a experiência do cliente, impulsionar a inovação dos funcionários e estimular o crescimento das organizações. Meios necessários para a transformação digital em África Segundo dados das Nações Unidas e do FMI, a economia digital em África deverá valer cerca de de 180 biliões de USD em 2030, e o processo de transformação digital irá ser um factor chave na implementação da Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA), que por sua vez irá dinamizar ainda mais o sector das tecnologias de informação no continente e criar oportunidades de desenvolvimento a nível das competências digitais, das infraestruturas tecnológicas, do empreendedorismo digital/fintechs e da regulação e enquadramento jurídico necessário de suporte à TD. A implementação de uma estratégia de transformação digital nos 54 países africanos terá de ser adaptada à realidade local de cada país e aos seus objectivos de desenvolvimento. Necessitará de uma visão e do empenho dos líderes políticos e dos vários stakeholders tanto do sector público como privado que irão prestar apoio através de assistência técnica, formação e serviços de consultoria. Além disso, a experiência noutros países tem demonstrado também que um dos drivers da transformação digital passa pelo desenvolvimento do empreeendedorismo no país. Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 12 Os diferentes níveis de desenvolvimento em cada um dos países significa que as abordagens políticas também precisam de ser específicas para cada país. Vários estudos desenvolvidos pelo BAD, Banco Mundial e UIT apontam para os seguintes drivers que deverão permitir uma rápida transformação digital nesses países: As competências digitais dos recursos humanos A capacidade de liderança do processo de TD e de gestão da mudança A adopção de tecnologias digitais pelo sector público e pelas empresas As infraestruturas tecnológicas de acesso adequadas e de qualidade (conectividade com largura de banda de alto débito) a custos acessíveis; A política do Governo no digital, a legislação em vigor e a adesão das instituições no país; O acesso a programas de financiamento internacionais; A capacidade do empreendedorismo tecnológico no país como motor de desenvolvimento do digital Nos países industriais de sucesso, estes factores fazem parte de uma política integrada do Governo que permitiram à Administração Pública relacionar-se de forma mais ágil com o cidadão e as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) tornarem-se mais competitivas ao desenvolverem-se ao longo das cadeias de valor dos sectores industriais identificados como os de maior potencial de crescimento e atractividade graças à adopção de processos e tecnologias digitais que alavancaram a produtividade e eficiência de funcionamento. Encontram-se actualmente a decorrer um conjunto de programas de apoio à transformação digital no continente africano, dos quais se destacam os seguintes: Estratégia de Transformação Digital da União Africana (2020 – 2030) Digital Economy Assessment for Africa (DE4A) do Banco Mundial EU – Africa Global Gateway Pan-African Initiative for the Digital Transformation of Technical and Vocational Education and Training (TVET) Digital Transformation with Africa (DTA) Oportunidades da TD na Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA) África é um dos continentes mais apetecíveis para a realização de negócios actualmente. A população é jovem e em rápido crescimento, e existe uma procura crescente por bens de consumo, alimentos e serviços financeiros digitais. Estes factores combinados fazem do continente um mercado atractivo e uma oportunidade para o sector privado das TICs e consequentemente na transformação digital necessária ao bom funcionamento das actividades. O acordo que prevê lançar o Tratado de Criação da Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA), foi assinado em 2018 por 44 dos 55 países africanos. África representa um mercado potencial de 1,2 mil milhões de consumidores, com um Produto Interno Bruto (PIB) acumulado que ascende a 2.500 mil milhões de dólares (2.030 mil milhões de euros), uma oportunidade de transacções comerciais e investimentos entre países africanos, a possibilidade de gerar grande Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 13 riqueza para o continente, acelerando o investimento, diversificando a economia e aumentando o comércio. Os governos deverão lançar medidas apoiadas por processos digitalizados que apoiem os investidores a investirem fora dos seus países de origem africanos e nos mercados regionais e que servirão para dinamizar a integração regional e a implementação da zona de livre comércio. Dessa forma, os países africanos ganharão massa crítica e economias de escala que não possuem actualmente. Por outro lado, os governos deverão realizar investimentos em parceria com o sector privado de forma a combater as barreiras e constrangimentos que impedem um maior investimento no continente. A Zona de Livre Comércio Continental Africana inscreve-se também no quadro de um processo que, até 2028, prevê a constituição de um mercado comum e de uma união económica e monetária de África, razão pela qual também está em curso a implementação do Passaporte Único Africano. A TD deverá acautelar a interoperabilidade entre sistemas de informação internacionais. O mercado único deverá também aumentar fortemente o comércio intra-africano e fornecer uma plataforma para os actores envolvidos nos datacenters acelerarem a implantação de nova capacidade. A contribuição das exportações realizadas entre países africanos como % do total das exportações africanas foi apenas de 17% em 2017, valor baixo em comparação com a Europa (69%), Ásia (59%) e América do Norte (31%). Removendo as taxas ao abrigo do AfCFTA levará a um aumento do valor das exportações intra Africa entre 15% (50 biliões USD) e 25% (70 biliões USD) até 2040, dependendo do grau de liberalização. Ao reduzir o custo das importações e acedendo a equipamentos de comunicação e de segurança de rede, irá incentivar-se as empresas a estabelecerem ou a aumentarem as actividades em África, com benefícios correspondentes para todo o sector das TICs e o desenvolvimento massivo de datacenters no continente africano. Impacto da Indústria 4.0 no continente africano A digitalização da economia através da utilização cada vez maior de tecnologias digitais está a mudar o panorama global da indústria e desencadeou o que se denomina actualmente por indústria 4.0. Em África como em Cabo Verde, deverão ser delineadas políticas industriais capazes de facilitarem a industrialização do país num contexto que se está a tornar cada vez mais digital e que coloca simultaneamente oportunidades de desenvolvimento mas também desafios importantes ao país. Apesar do continente africano se encontar num estado de desenvolvimento industrial tecnológico diferente da Ásia, da Europa ou dos Estados Unidos, as tecnologias anunciadas no desenvolvimento da Indústria 4.0 vão permitir a países como Cabo Verde saltarem etapas para atingirem com maior rapidez um grau de desenvolvimento industrial maior. Conforme espelhado na descrição da Indústria 4.0, para facilitar a entrada das novas tecnologias digitais sem grandes disrupções, o Governo deverá preparar a nível do ensino e da formação no país, conteúdos programáticos capazes de oferecerem as competências necessárias para os recursos humanos desempenharem funções num novo contexto digital nas fábricas e nas indústrias. Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 14 Apresentam-se de forma sintética, algumas oportunidades e desafios com que os países terão de lidar futuramente na vertente industrial, no novo mundo digital. Tabela 2 – Oportunidades e Desafios da indústria 4.0 em África Oportunidades Desafios Contribuição crescente para o PIB da economia baseada na Internet (i.e. e-commerce, plataformas electrónicas) Criação de novos modelos de negócio Integração nas cadeias de valor globais e regionais Investimento na educação, na formação e inovação digitais Custo da mão de obra tradicional vs robôs Nichos em segmentos de alto valor acrescentado nas indústrias menos automatizadas (têxtil, calçado, bebidas, alimentos) Energias renováveis Irrigação de precisão Negócios baseados na Internet Inclusão financeira Adequação das actuais políticas indústrias à economia digital Critérios para atrair uma indústria para um país num mundo digital Situação tecnológica do desenvolvimento industrial nos países em África Níveis de conectividade elevados exigidos pela economia digital Nível de digitalização dos países e existência de redes de banda larga (i.e. taxa média de penetração da Internet) Nível de conhecimento das novas tecnologias Risco de aumento de desemprego devido à automatização intensiva Fonte: World Economic Forum, Banco Mundial; Análise dos consultor Conclusões Vários factores na economia global vão condicionar o desempenho da economia digital em África mas sugerem simultaneamente que irão existir um conjunto de oportunidades no sector das TICs em Cabo Verde graças ao processo de transformação digital em curso. A nova revolução na política industrial exige que os países respondam às necessidades específicas e dinâmicas expressas pelos sectores industriais transformadores com políticas adequadas de transformação digital e direccionadas para os sectores, e com um foco especial na economia circular. Hoje a produção é global e está inserida em cadeias de valor globais que estão a sofrer um processo de digitalização progressivo. As CVGs oferecem a possibilidade a uma empresa de poder entrar num segmento específico do mercado global apesar destas cadeias de valor serem muito intensivas em termos do suporte logístico, uma área que tradicionalmente pode representar um problema para as empresas africanas. O desenvolvimento industrial nos países africanos continua muito abaixo da média de outros continentes como a Europa, a Ásia ou os EUA, situação que poderá ser modificada graças ao processo de TD em curso. O continente africano importa a maior parte dos produtos manufacturados e continua dependente da agricultura e dos produtos não processados que acrecentam relativamente pouco valor às transacções comerciais. As transacções dentro do continente africano entre países ainda são reduzidas e o investimento em África com origem em países do continente africano é escasso. O Tratado de Criação da Zona de Livre Comércio Continental (AfCFTA) poderá ser uma alavanca de desenvovlimento comercial e industrial do continente africano e de integração regional, alavancado pela transformação digital em curso. Em África como em Cabo Verde, deverão ser delineadas políticas industriais no âmbito da indústria 4.0, capazes de facilitarem a industrialização do país num contexto que se está a tornar cada vez mais digital e que coloca simultaneamente oportunidades de desenvolvimento mas também desafios importantes ao país. Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 15 3.1. A Transformação Digital na Indústria: Indústria 4.0 O impacto da Indústria 4.0 será ampla e profunda, atingindo todos os sectores económicos e áreas de negócios e coloca vários desafios particularmente difíceis de ultrapassar aos países em desenvolvimento, nomeadamente no continente africano e especialmente na áfrica subsaariana, região mais jovem do mundo da qual faz parte Cabo Verde. Na realidade, segundo o World Economic Forum no Estudo de 2017/18 sobre o futuro do trabalho, realçava-se o facto de nessa região mais de 60% da população ter menos de 25 anos de idade, e de até 2030, a população em idade activa do continente africano vir a aumentar 66%, de 370 milhões de adultos em 2010 para mais de 600 milhões em 2030. 15 a 20 milhões de jovens africanos por ano irão juntar-se à força de trabalho actual nas próximas três décadas, o que exige capacidade de se criarem postos de trabalhos de qualidade para absorver este capital humano. Além disso, as empresas que têm vindo a recrutar em África identificaram como um dos principais obstáculos à acitividade a mão-de-obra existente, com qualificações inadequadas para o trabalho a realizar. Foi o caso de 41% de todas as empresas na Tanzânia, 30% no Quénia, 9% na África do Sul e 6% na Nigéria segundo o Banco Mundial. A situação tenderá a agravar-se com o desenvolvimento da indústria 4.0 em África. Só na África do Sul, 39% das competências essenciais exigidas em todos os postos de trabalho serão totalmente diferentes até 2025. Prevê-se que 41% de todas as actividades de trabalho na África do Sul serão susceptíveis de serem automatizadas, assim como 44% na Etiópia, 46% no Nigéria e 52% no Quénia. A indústria 4.0 é um dos principais impulsionadores da Quarta Revolução Industrial. A primeira revolução industrial foi desencadeada pela energia da água e do vapor para se passar do trabalho humano intensivo para a fabricação mecânica. A segunda revolução industrial foi construída tendo como base a energia eléctrica para criar a produção em massa. A terceira revolução industrial utilizou a electrónica e as tecnologias da informação para automatizar a fabricação. A quarta revolução industrial a decorrer baseia-se na tendência actual de automação e troca de dados em tecnologias de manufactura. Inclui sistemas ciberfísicos, a Internet das Coisas Industrial (IoTI), a inteligência artificial (AI) e o Cloud Computing. As tecnologias de suporte à indústria 4.0 residem no desenvolvimento da realidade virtual (VR), da realidade aumentada (AR), da impressão 3D, da robótica avançada, da interconexão de equipamentos, objectos e materiais entre eles. A Indústria 4.0 é implementada gradualmente, muitas vezes com a digitalização como o primeiro passo importante. As tecnologias digitais permitem novos modelos de negócio e oportunidades de criação de valor e são atingíveis para a maioria dos países desenvolvidos, o que já não é o caso nos países em desenvolvimento, como a maioria deles em África. O grande potencial das normas de gestão da inovação consiste no facto de poderem ajudar os países em desenvolvimento e as economias em transição a saltarem etapas para entrarem na era da Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 16 Indústria 4.0. Estes quadros orientadores são relevantes para todos os tipos de organizações, incluindo para as pequenas e médias empresas. A 4ª revolução industrial, de acordo com o Fórum Económico Mundial seria baseada nos dois drivers seguintes, ou seja, • uma automatização de processos de fabricação levados ao extremo, onde os robôs se estão a tornar cada vez mais importantes graças à inteligência artificial (apoiado pelo Big Data) que invade gradualmente as empresas, o sector público e a privacidade dos cidadãos. • uma conectividade extrema, que remove obstáculos como a distância e o tempo de comunicação e os transforma em comunicações de alta velocidade entre pessoas e máquinas através da Internet das Coisas. Este é o caso por exemplo do conceito da fábrica inteligente (smart factory), caracterizada por interligar máquinas e sistemas dentro dos locais de produção, mas também entre estes e o exterior (clientes, parceiros, e outros sites de produção). Os sistemas de produção virtual e física de todo o mundo poderão desta formar cooperar num futuro muito próximo. A indústria 4.0 é o resultado da convergência e da aplicação de um conjunto de tecnologias: robótica avançada, cloud computing, Big Data analytics, realidade aumentada, fabricação aditiva (impressão em 3D), e a cibersegurança. Nesse contexto, as empresas implementam um conjunto de sensores para recolher dados num ambiente cloud seguro e usam métodos avançados de análise analítica para obter resultados. O objectivo de um fabricante é criar um ambiente de trabalho integrado e automatizado em que os fluxos de trabalho ao longo da cadeia de abastecimento sejam optimizados, assim como os fluxos com clientes e fornecedores. O objectivo consiste em permitir a diminuição dos tempos de espera e de inventário e no limite permitir uma oferta personalizada ao cliente a um custo equivalente a uma produção em massa. Os robôs optimizam as cadeias logísticas para uma produção mais eficaz e previsível. Já é o caso no sector dos produtos de consumo, das confecções ou da aeronáutica com o controlo à distância dos contentores equipados com sensores RFID (radio frequency identification) permitindo o seguimento dos bens em toda a cadeia logística, bem como o encaminhamento do pedido. De acordo com a Federação Internacional de Robótica, existem actualmente mais de 1 milhão de robôs a executarem tarefas nos locais de trabalho e no sector automóvel estas máquinas já realizam 80% do trabalho de fábrico de um carro. Impacto dos novos modelos de negócio A 4ª revolução industrial está a transformar os modelos tradicionais de negócios, com a chegada de novos participantes, adoptando tecnologias digitais disruptivas básicas, algoritmos preditivos e ameaçando as actividades de concorrentes que atuam de maneira tradicional no mercado. É o caso da Uber, Airbnb, Amazon ou Google com o carro autónomo. Estes novos challengers têm como factor de diferenciação a adopção de redes digitais que ligam o mundo físico, digital e biológico colocando em rede plataformas eletrónicas, a tecnologia e os utilizadores, e permitindo novas formas de partilha de informação, de inteligência distribuída e de criação de valor. Cada vez mais empresas perceberam que a transformação digital é inevitável para se Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 17 manterem competitivas no mercado e estão actualmente a trabalhar na digitalização das empresas e dos modelos de negócio tradicionais. Automação dos empregos A 4ª revolução industrial terá um grande impacto na automação de trabalhos repetitivos de baixo valor. O caso da Foxconn (fabricante dos produtos Apple e Samsung) ilustra essa situação. Em Maio de 2016, numa das suas fábricas na China, na província de Guangdong, a empresa substituiu 60.000 funcionários por robôs em tarefas repetitivas nas linhas de montagem de produtos, a fim de obter melhor rentabilidade (menos defeitos, maior velocidade de trabalho, mais horas de trabalho) e permitir que os funcionários subam na cadeia de valor, concentrandose no controlo de processos, controlo da qualidade e actividades de investigação e desenvolvimento. Por um lado, a produtividade dos empregos existentes será significativamente melhorada graças ao uso intensivo de autómatos; por outro lado, a 4ª revolução industrial impulsionada por uma onda de novas tecnologias e novas formas de trabalhar em rede irá criar uma procura por empregos de um tipo completamente novo. A Alemanha e os Estados Unidos, com economias industriais tradicionais, vêem nessa nova revolução industrial uma oportunidade para tornar a indústria mais competitiva e inverter a tendência de deslocalização para países de mão-de-obra mais barata, permitindo a abertura de fábricas em mercados nacionais. Novas Competências na Indústria Como existirão menos pessoas em empregos de baixo valor acrescentado, também haverá menos gerentes para supervisioná-los. Funções chave como as de gestores de dados (data managers), programadores (software developers), investigadores ou especialistas em informação analítica (analytics specialists), exigirão competências que são diferentes daquelas que a maioria das pessoas na indústria possuem. O perfil da força de trabalho terá de mudar face a esta nova revolução industrial. Os fabricantes terão de tomar medidas para combater o problema, fornecendo formação adequada (requalificação e upgrade) e recrutando indivíduos adaptados às exigências da indústria 4.0, que exige competências na área da digitalização empresarial e industrial. Iremos assistir certamente a uma polarização da força de trabalho, enfatizando cada vez mais a automação de actividades de baixo valor acrecentado e afectando também os empregos com mão de obra de qualificação média. A força de trabalho deverá ser mais flexível e o tipo de competências diferentes face ao novo modelo e automação e de conectividade. Os funcionários também terão de saber trabalhar num contexto de mudança, aprender novas competências e formas de trabalhar. O caso de África Em África, a instabilidade a nível das competências adquiridas face às exigidas decorre do facto de muitos empregos na região estarem a tornar-se mais intensos na utilização de tecnologias digitais. A título de exemplo, segundo o Banco Mundial, a intensidade média das tarefas envolvendo a utilização de tecnologias de informação e comunicação (TICs) na África do Sul aumentou 26% na última década, enquanto que 6,7% de todo o emprego no sector formal no Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 18 Gana e 18,4% de todo o emprego no setor formal no Quénia ocorre em trabalhos em que se recorre à utilização intensiva das TIC. Como noutros continentes, em África a tendência nas profissões mais promissoras aponta para que os trabalhadores tenham as competências necessárias para poderem desempenhar actividades em profissões nas quais se irão utilizar de forma intensiva as TICs, nomeadamente nas indústrias criativas, na cadeia alimentar, no design 3D, na gestão e tratamento de dados e na educação e na saúde. Assim, espera-se que a longo prazo exista um forte potencial de crescimento do emprego em actividades ligadas à economia sustentável e ao ecosistema, o sector das TICs e em novos formatos de trabalho. Segundo o Fórum Económico Mundial, os maiores benefícios a longo prazo dos empregos intensivos em TIC em África provavelmente não estão na distribuição de produtos ou serviços digitais, mas no design digital, na criação e na engenharia. Para construir um pipeline de competências futuras, os responsáveis pela área da educação em África devem conceber currículos preparados para o futuro que estimulam o pensamento crítico, a criatividade e a inteligência emocional, bem como acelerar a aquisição de competências na área das ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) de forma a potenciar a colaboração dos indivíduos num novo modelo de trabalho impulsionado pela 4ª Revolução Industrial. Assim, o tipo de educação e o trabalho na África Subsaariana determinarão os meios de subsistência de quase um bilião de pessoas na região e irão impulsionar o crescimento e o desenvolvimento das gerações futuras. Com uma das populações mais jovens do mundo, é imperativo que os investimentos adequados sejam feitos na educação e na aprendizagem que são valorizados pelo mercado e preparam os cidadãos para o mundo de amanhã. Além disso, à medida que a transformação global do trabalho se intensifica em África, os políticos, os líderes empresariais e os trabalhadores deverão preparar-se para gerir proactivamente este período de transição. Um esforço será necessário para eliminar o défice de competências no continente. Big Data Segundo a IDC, o mercado de software e de serviços Big Data (business intelligence, aplicações analíticas, integração analítica e gestão de dados) deverá atingir os 270 biliões de USD em 2025. O Big Data pode ser considerado como um dos principais produtos de mercado da 4ª revolução industrial pois é o resultado de um trabalho de análise de dados feito de preferência de forma automática e em grande escala aproveitando a conectividade das redes que permitem a recolha de dados a uma escala planetária sobre um determinado tema graças à Internet e à conectividade dos objetos nesta rede (IoT), sejam eles smartphones, tablets, PCs, máquinas industriais, carros ou electrodomésticos. A quantidade de informação processada duplica todos os 2 anos e irá atingir em 2025, 175.000 biliões de Giga Bytes (175 Zettabytes) de acordo com o Fórum Económico Mundial e a IDC com uma taxa de crescimento média anual de 61% entre 2019 e 2025 Essas informações vêm de biliões de pessoas e de milhões de empresas que vivem e trabalham on-line, e dos milhões de sensores e dispositivos de comunicação que enviam e recebem dados pela Internet. Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 19 Três exemplos de sectores que ilustram esse fenómeno são apresentados de seguida, nomeadamente o retalho, a energia e a saúde. Sector do retalho Os mais recentes desenvolvimentos em inteligência artificial foram capazes de criar aplicativos que rastreiam o percurso do consumidor no supermercado a partir do seu telemóvel. A empresa está interessada no mapeamento da experiência do consumidor, no mapeamento do percurso e na comunicação digital com o cliente. Esta informação ligada à gestão inteligente das cadeias de abastecimento permite uma automatização inovadora e flexível das cadeias de valor e a automatização da procura, permitindo ganhos significativos. Aplicações para smartphone já permitem a desmaterialização das filas de espera com a criação de ticket virtual e a monitorização remota do tempo de espera. Outro exemplo é o "Touchless Commerce", onde o cliente só precisa colocar o cabaz de compras num espaço próprio e uma câmara 3D vem em seguida realizar o scanning de todos os produtos, identificando as embalagens. Para pagar, o cliente só precisa de olhar para a câmara para reconhecimento facial e da íris. Sector da energia A instalação de contadores inteligentes na rede permite a recolha automática de dados do consumidor em tempo real. O mesmo princípio se aplica às redes de painéis solares e das eólicas, permitindo ganhos de produtividade muito significativos. Sector da saúde A recolha de dados de pacientes portadores de pacemaker permite a monitorização e o controle em tempo real, remotamente, via tablet ou smartphone, pelo médico. Impressão 3D De acordo com a IDC, o mercado da impressão 3D (compras globais de impressoras 3D, materiais, software e serviços relacionados) deve atingir os 42 biliões de USD até 2025, com uma taxa de crescimento média anual de 23% entre 2018 e 2025. Os sectores onde a procura será maior incluem a indústria automóvel, com peças para prototipagem rápida, o sector médico e odontológico com próteses e implantes, o sector aeroespacial e defesa e a construção de máquinas específicas por encomenda. A impressão 3D tem o potencial de mudar os métodos tradicionais de produção na indústria e democratizar a produção de produtos manufacturados. A Realidade Aumentada De acordo com a IDC, o mercado de realidade aumentada (AR) deve atingir os 226 biliões de USD até 2026, com uma taxa média de crescimento anual de 83% entre 2021 e 2026. A crescente procura por dispositivos de AR e de aplicações médicas, o aumento da procura por AR no sector do retalho e no comércio electrónico, e o aumento dos investimentos em aplicações e dispositivos de AR são os principais impulsionadores deste mercado. Diagnóstico e Recomendações para a Transformação Digital 20 Inovação em pleno desenvolvimento, a realidade aumentada sobrepõe objectos virtuais à realidade através de um écran de tablet ou de smartphone. A tecnologia é usada por exemplo para evitar erros de instalação em aeronaves, para eliminar erros de interpretação ao instalar a cablagem eléctrica na aeronave e para trabalhos de manutenção. Os mecânicos