1 Vinícius Canali A A Melancolia Melancolia de Ser de Ser 2 3 4 5 Índice 9 Prefácio 9 Prefácio 10 Seu Rosto 10 Seu Rosto 14 Autorretrato 14 Autorretrato 16 Falta é o Nome do Meu SilÊncio 16 Falta é o Nome do Meu SilÊncio 20 Onírico 20 Onírico 22 Pela Via do Corpo 22 Pela Via do Corpo 25 PlatÔnica 25 PlatÔnica 26 O livre Arbítrio é uma Ilusão 26 O livre Arbítrio é uma Ilusão 27 Indiferença 27 Indiferença 28 Medo de ser 28 Medo de ser 32 Término Sem um Ponto Final 32 Término Sem um Ponto Final 33 Entre a Imaginação e o Fim 33 Entre a Imaginação e o Fim 34 Eco de um Encontro atrasado 34 Eco de um Encontro atrasado 36 Saudade 36 Saudade 38 A Única Coisa que Permanece é a Impermanencia 38 A Única Coisa que Permanece é a Impermanencia 39 Doce Veneno 39 Doce Veneno 40 Macabéa 40 Macabéa 41 O Amor Também Afasta 41 O Amor Também Afasta 43 Retrato de Uma FragrÂncia 43 Retrato de Uma FragrÂncia 44 Entre Abelhas 44 Entre Abelhas 6 7 “A esperança é o pior dos males, pois prolonga o tormento do homem” - Friedrich Nietzsche “Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.” - Clarice Lispector 8 9 Este livro surge em estado de emergência, não o inventei, fui coagido em meu âmago a dar-lhe entidade, e por meio dele emito berros de pavor a existência, existência que tanto amo. Extraio claridade do meu breu interior no processo de estetização do relato íntimo, através da busca da angústia junto a afirmação poética. Me comunico calado, venero o valor sublime do vazio e da solidão, o sozinho como algo completo e não como coisa faltante. Tudo o que estou prestes a escrever já habita em essência den- tro de mim, mesmo que eu ainda não tenha acesso e não tenha se manifestado no tecido das palavras. Fragmentos dispersos de uma realidade que me escapa revelam que o meu eu mais autêntico transcende à minha própria percepção consciente. Este projeto nada mais é do que a manifestação do vínculo entre a vida e a minha identidade. O futuro carrega um peso imenso, passo rápido pelos fatos pois tenho medo da verdade, o sofrimento se intensifica na ilusão da sua própria negação. Minha vida é resumida à busca do familiar no infamiliar, sou pesquisador da cultura do impossível. É meu dever te confessar a vida, para que em mim ecoem as verdades que em ti habitam, estendo-te meu amparo e, na reciprocidade, encontro o teu. Prefácio Prefácio 10 Seu rosto Seu rosto Sigo procurando coisas em lugares onde não há nada, somente para ver se encontro o seu rosto Minha mente é repleta de tristeza devido aos fragmentos de saudade causados pelo seu rosto Quando chegar a hora íntima, meu último pensamento será o seu rosto Se encontrarem meu corpo sem vida num campo de rosas, as pétalas que irão me circundar formarão o seu rosto Quando o perito checar o inventário de bens, encontrará no meu bolso um desenho do seu rosto. Só conheci outras faces tentando reencontrar o seu rosto Beijei outras bocas na ânsia de encontrar geometria do seu rosto Acertei lábios errados porque estavam na mesma altura do seu rosto Durante o ato fecho os olhos pra ver seu rosto Uma vez alguém me disse “te amo” e eu respondi “obrigado”, por- que não estava lá o seu rosto Sou agnóstico, mas penso que Deus ensaiou a perfeição a partir do seu rosto 11 Se eu virasse monge, passaria a vida em silêncio contemplando seu rosto Se eu tocasse atabaques numa noite de Gira, talvez no toque ritma- do eu visse o seu rosto Talvez, se eu tentasse jejuar no Ramadã, meu único alimento seria o pensamento do seu rosto Entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, a única coisa que senti ao meu lado foi o seu rosto Se eu fosse comunista, a única propriedade que não dividiria seria seu rosto Se eu fosse capitalista, investiria tudo que tenho na eternidade do seu rosto No anarquismo puro não há regras, exceto a de venerar o seu rosto Na tecnocracia, há infinitos sistemas, mas nenhum que explique o seu rosto Se eu tivesse uma República, a bandeira do país seria o seu rosto Se eu virar travesti é porque quero me olhar no espelho e ver o seu rosto 12 Se eu mudar de sexo, será na tentativa de nascer dentro do que é o seu rosto Se eu usar maquiagem, alinharei minha face ao contorno do seu rosto Se eu usar máscara, é porque não suporto mais ser alguém que não tem seu rosto Essas possibilidades só são, pois tudo o que está em mim me afasta do que há no seu rosto E se um dia folhearem tudo o que escrevi, não verão biografia, verão apenas uma longa oração escrita com a falta do seu rosto. Porque não amei ninguém apenas procurei, em todos, alguma chance de ver de novo, o seu rosto. 13 14 Minto por misericórdia, Na tentativa de negar o sofrimento Que enterrei vivo na intimidade do meu ser Preciso ficar isento de mim mesmo para ver Que na esperança de nem sei o que Encontro minha pulsão de vida, Que é o que nunca me será acessível Uma existência resumida a um contínuo anseio, Onde persigo a oculta essência que em mim habita, Como a saudade que procura o que nunca aconteceu Um coração que passou pela morte do amor, Após degustar a paixão e sua angústia Por isso, nesse espanto de viver, Minha sensibilidade ferida é um espelho quebrado Que reflete o mundo distorcido E a única coisa que sei É a infeliz certeza do desejo De deleitar-me do ser que eu poderia ter sido, Mas jamais serei Autorretrato Autorretrato 15 Essa pior vontade de viver Me faz sentir vivo, Mesmo sabendo que estou morrendo É evidente que viver é bom, Afinal, a minha frente, tenho todas as razões para ser feliz, Porém sou triste 16 Crescemos acreditando que o amor viria como redenção, Como se houvesse uma equação secreta Entre merecimento e afeto Mas o mundo não dança a esse ritmo. O amor não obedece, não calcula, Não se oferece como prêmio, Nem castiga como sentença. Às vezes, ele simplesmente não vem. E isso não fala de valor Mas, sim, da realidade. Há quem passe a vida inteira tentando provar Que é digno de ser amado. Molda-se, apaga-se, esculpe a si mesmo Para caber no espaço do desejo alheio. Constrói um altar com os próprios pedaços Esperando por algo que talvez nunca chegue. E nessa espera cega, perde-se. Esquece que antes de ser amado, é preciso ser. Especialmente na falta. Falta é o Nome do Meu Falta é o Nome do Meu Silêncio Silêncio 17 A falta não é falha. É constituição Não há amor que a preencha, Sucesso que a dissolva, Ou reconhecimento que a apague. Tentamos tapar o buraco Mas ele não foi feito pra ser fechado. Ele está ali, como testemunha do que nos falta, Mas também do que nos move. É a ausência que nos empurra A criar, a buscar, a amar, a errar. Não somos movidos pelo que temos, Mas pelo que ainda nos escapa. A vida não nos deve plenitude Ela nos oferece movimento. E isso, por si só, já é milagre. Quando idealizamos demais, perdemos o agora. Um raro momento infinito Fugimos de nós, da vida possível. E não há prisão maior Do que essa fuga contínua De querer estar sempre em outro lugar, Com outra pessoa, Em outra versão de si. 18 Há beleza na imperfeição. Há poesia naquilo que não encaixa. Há vida nas pequenas mortes cotidianas. E tudo isso merece ser vivido Não pelo extraordinário, Mas pelo afeto que não salva, porém sustenta. Pelo silêncio que escuta, pelo gesto simples. Talvez o verdadeiro amor Não seja o que completa Porém o que caminha ao lado, Enquanto cada um carrega sua própria Falta. As coisas são como são E não como deveriam ser Ainda assim... Seguimos. 19 20 Sonhei contigo essa noite. O vazio se alarga como o próprio tempo, um espaço que não é mera ausência, mas a essência do que não pode ser preenchido. No sonho, te vi como uma ideia, uma abstração sublime que resiste à forma, à palavra, à carne. Eras tudo o que o ser humano não consegue alcançar, uma promessa de plenitude que a realidade insiste em negar. Caminhávamos juntos por um mundo onde o possível se entrelaçava com o impossível, onde a distância entre o que é e o que poderia ser, se tornava indistinguível. Ao despertar, a realidade se impôs como um golpe surdo, revelando a vasta extensão do vazio que tua ideia causa em mim. Esse vazio é mais que uma falta, é a própria natureza do sonho, do desejo. Não é a ausência de ti que me atormenta, mas o conhecimento de que tu existes apenas naquilo que nunca poderei tocar. És o vazio em sua forma mais pura, a encarnação do que não pode ser apreendido; és a manifestação do inefável, a certeza dolorosa de que o ideal é inalcançável. O vazio é o que resta quando o sonho se dissipa, quando a realidade se impõe com sua crueza e me deixa de mãos vazias, mas é, também, no vazio que encontro a tua presença mais intensa, porque és o que falta, o que não pode ser preenchido, o que me faz sentir a profundidade da ausência como uma presença viva. Onírico Onírico