VIVENDO NA WEB Exposição Híbrida Clara Goldscheider Você já tentou encontrar uma lembrança digital? Talvez tenha perdido seu Skyblog, percebido que um jogo em Flash sumiu ou se lembrado de um fórum onde passava horas. Talvez você nunca tenha experimentado a emoção de navegar pela web. Por mais vasta e maravilhosa que seja, a internet está cada vez mais habilidosa em esconder seus tesouros. Um espaço público sem fronteiras? Cresci junto com a internet. Lembro-me dela como um espaço um tanto caótico e misterioso, que dava acesso a conteúdos tão diversos quanto fóruns sobre coelhos anões, blogs e sites pessoais, ou enciclopédias com conteúdo escrito por especialistas. É verdade que era difícil se orientar sem saber exatamente o que se procurava, mas também era possível encontrar tópicos fascinantes escritos por entusiastas em sites com cores berrantes e papéis de parede imponentes. O que eu mais gostei nessa rede foi saber que milhares de outras pessoas estavam compartilhando suas ideias e que as fronteiras pareciam desaparecer. Talvez uma ilusão, mas uma ilusão frutífera, que alimentou a imaginação de toda uma geração. Queremos salvar a internet? A publicidade já existia na internet muito cedo, mas ocupava menos espaço na nossa navegação. Hoje, pop-ups, banners e outros anúncios em vídeo estão por toda parte, cada vez mais difíceis de evitar. As redes sociais, os últimos bastiões da expressão popular, impõem suas regras implícitas de publicação. Algoritmos de recomendação nos confinam a círculos estreitos, diminuindo gradualmente nosso desejo de explorar. Até mesmo nossas caixas de entrada se tornaram nada mais do que um cemitério de spam. Nesse cenário saturado e padronizado, onde podemos encontrar conteúdo imperfeito criado por humanos? Diante dessa realidade, a tentação de querer parar tudo e abandonar a web que idealizamos é grande. Ainda existe beleza na web. No entanto, ainda existem muitas maneiras de reviver o espírito da web. Vamos começar analisando seus arquivos sob uma nova perspectiva. Em vez de tratá-los como dados frios, optei por uma abordagem mais sensível. As capturas de tela se tornam um material vivo, tratadas da mesma forma que a fotografia, usadas para compor uma galeria digital com ecos materiais. Este projeto foi concebido como uma jornada acessível ao público, permitindo o desenvolvimento da imaginação em torno dos arquivos digitais. Nota de intenção Descrição Este projeto surge da observação do desaparecimento lento e silencioso de inúmeros websites. Apesar do trabalho diligente do Internet Archive e de outros coletivos de arquivistas e pesquisadores, a história da web permanece ameaçada. Os recentes ataques direcionados a essas infraestruturas servem como um forte lembrete da fragilidade desse patrimônio digital*. Ao mesmo tempo, o uso da internet é hoje amplamente dominado pelas plataformas GAFAM. Essa centralização direciona a circulação de nosso conteúdo e memórias coletivas, enquanto deixa os espaços mais livres e espontâneos da web na sombra. O risco é duplo: o desaparecimento gradual dos vestígios dessas práticas criativas e a dependência de infraestruturas privadas que condicionam nossa relação com o passado digital. O projeto "Living on the Web" visa redescobrir e transmitir essa memória frágil. Ele se estrutura em torno de duas dimensões complementares: uma galeria virtual e um eco material. A exploração assume a forma de um espaço 3D na plataforma New Art City, organizado em três salas: A primeira (o Mundo Desaparecido) é dedicada ao que restou do GeoCities, uma plataforma pioneira da web faça-você-mesmo, agora extinta, a partir de fragmentos que ainda são acessíveis. A segunda sala (O Mundo Íntimo) reúne minhas próprias memórias, numa abordagem mais pessoal que também abrange o ambiente em que se desenrolaram. A terceira sala (O Mundo Vivo) é um jardim compartilhado, aberto à coleção de memórias digitais do público. As duas primeiras salas apresentam um eco material: um relicário para O Mundo Desaparecido e slides reconstruídos a partir de capturas de tela das minhas memórias. Juntos, esses objetos ampliam a galeria e lhe conferem uma existência física, inscrevendo os arquivos num horizonte temporal mais longo e permitindo sua transmissão para além da tela. Por meio dessa abordagem dupla, Habiter le web me permite experimentar novas maneiras de habitar, compartilhar e preservar a memória digital. O objetivo é transmitir essa história sensível da web como um espaço público que podemos continuar a habitar e reinventar. https://archive.org/details/vanishing-culture-report/page/n1/mode/2up Mundo desaparecido Mundo íntimo Mundo vivo Quarto 1 O Mundo Desaparecido Link para a sala: https://newart.city/show/monde-disparu O Mundo Perdido é um espaço que permite o reagrupamento de fragmentos de uma plataforma desaparecida, icônica dos primórdios da web. O GeoCities foi um serviço popular de hospedagem na web fundado em 1994 que desapareceu em 2009 após ser adquirido pelo Yahoo. No seu auge, a plataforma era o terceiro site mais visitado da internet. Nesta sala, compilei uma coleção de capturas de tela que testemunham sua existência e o que ela pode ter representado para os usuários da internet. Cada fragmento é apresentado no mesmo nível: blog de pesquisa, artigos e depoimentos coexistem sem hierarquia. Visão geral Captura de tela Seleção de elementos presentes Hardware Echo Relicário O relicário do GeoCities é um gabinete de computador transformado em uma vitrine em miniatura. Ele contém pequenos painéis com GIFs e a interface do GeoCities, sobre um fundo preto pontuado por pequenas luzes. O objeto torna tangível o que, embora ainda acessível, já pertence a outra era. Encontre GIFs em https://gifcities.org Quarto 2 O Mundo Íntimo Link para a sala: https://newart.city/show/monde-intime O projeto "Mundo Íntimo" reúne minhas memórias pessoais, tangíveis e intangíveis, misturando fotogrametria do meu quarto e objetos, capturas de tela, interfaces digitais e fragmentos de inspiração para a web do futuro. O espaço foi projetado para recriar um ambiente no qual essas memórias ganham significado. Cada objeto, cada imagem interage com os outros, criando camadas de memória que refletem como minhas experiências digitais e materiais se entrelaçaram ao longo do tempo. Essa sobreposição de elementos nos permite perceber a memória como um espaço vivo, onde o tangível e o virtual interagem. Em conjunto, esses fragmentos compõem uma constelação pessoal: um espaço habitado por minhas memórias, que mescla contemplação, exploração e imersão. Visão geral Captura de tela Seleção de elementos presentes Slides de captura de tela O projetor de slides contém minhas memórias pessoais e capturas de tela impressas em folhas sobrepostas. Essa sobreposição me permite redescobrir esses fragmentos sob uma nova perspectiva, explorando a arqueologia da mídia e oferecendo uma interpretação original desses fragmentos digitais. Hardware Echo Quarto 3 O Mundo Vivo Link para a sala: https://newart.city/show/monde-vivant O Mundo Vivo é a última sala da galeria. Assim como o “Mundo Íntimo”, este espaço não se limita à web: inclui também tudo o que constituiu nossos ambientes digitais — softwares, ícones, papéis de parede, jogos, interfaces... Esses fragmentos desenham uma paisagem comum onde se misturam memórias de navegação e vestígios materiais do mundo digital. O jardim cresce ao ritmo das contribuições, reunindo memórias dispersas para torná-lo um espaço coletivo em constante evolução. Visão geral