RECONHECIMENTO Pequenas vitórias Em tempos difíceis Entre tropeços, risadas e fé, sigo reconhecendo o caminho Edição, 2025 Autor: Justo dos Santos Sobre o Autor Falar de mim é como tentar segurar fumaça: quanto mais aperto, mais escapa. Mas ainda assim, insisto. Porque minha história não é feita de linhas retas, e sim de curvas, tropeços, quedas e algumas reviravol tas dignas de novela das oito, dessas que a gente assiste preso à poltrona, sem conse guir desviar os olhos, mesmo sabendo que o final talvez seja surpreendente ou doloroso. Nasci carregando no peit o duas certezas: a fé em Deus, que foi o fio que nunca se partiu, mesmo quando o mundo parecia querer arrebentá - lo e o colo da minha mãe, que sempre foi meu abrigo de carne, osso e lágrimas. Amigos vieram como labaredas: alguns iluminaram os caminhos escuros, outros queimaram, deixando cicatrizes que, com o tempo, se transformaram em histórias e aprendizados. Mas todos, de um jeito ou de outro, me ensinaram algo sobre coragem, paciência, amor e traição. Já experimentei o gosto amargo do fracasso, daqueles que fazem a gente quase engolir a própria sombra, e aprendi que levantar - se depois dele é um exercício diário de pers istência. Já sentei em bancos de sala de aula e descobri que o verdadeiro exame não está no papel, mas na vida que insiste em nos colocar contra a parede, testando nossa paciência, nossa ética e nossa capacidade de amar e perdoar. Já bati de frente com por tas que se fecharam sem explicação e, ao mesmo tempo, agradeci pelas janelas que se abriram silenciosamente, oferecendo oportunidades inesperadas e encontros que mudaram minha trajetória. Minha trajetória é feita de contrastes: da dor, da alegria de tr ansf ormar lágrimas em palavras, da coragem de assumir que não sou invencível, mas insisto em continuar. Cada erro, cada sorriso, cada queda e cada acerto se tornaram matéria - prima para o que escrevo hoje, lembranças que ardem, mas também iluminam. Sou autor de obras que nasceram mais de cicatrizes do que de vitórias fáceis: Entre Fariseus e Miolos Perdidos, uma crítica com humor temperado de ironia, onde observo o mundo e suas contradições sem medo de apontar o dedo, mas sempre com um sorriso sardônico; A Santa que Chora no Escuro, onde até o silêncio sangra, revelando dores escondidas que muitos preferem ignorar; O Tal do Amor, que não descobri por completo, mas continuo tentando decifrar, explorando suas nuances, enganos e encantos; Ninguém Entende um Itachi U chiha, uma confissão disfarçada de homenagem, que mistura paixão, obsessão e uma pitada de nostalgia. Carrego uma alma que é metade riso e metade interrogação. Gosto de escrever como quem deixa rastros numa estrada poeirenta: talvez alguém venha atrás e en contre o caminho, ou talvez apenas ria das minhas pegadas tortas, sentindo a humanidade crua e imperfeita que tento capturar em palavras. No fundo, não me considero “um autor” apenas. Considero - me um sobrevivente daqueles que tropeçam na própria sombra, ma s ainda assim encontram motivo para rir e escrever. Se a vida me deu páginas em branco, não foi para que eu as deixasse intactas, mas para que rabiscasse nelas até que fizessem algum sentido, até que minhas memórias, alegrias, dores e reflexões se transfor massem em algo que pudesse tocar alguém, mesmo que só por um instante. Prefácio Escrever sobre reconhecimento é, de certa forma, escrever sobre cicatrizes. Nem todas são visíveis, mas todas contam uma história. Algumas nasceram das derrotas que o mundo chamou de fracasso; outras, dos silêncios que ninguém entendeu, mas que eu aprendi a transformar em trincheira. Cada uma delas carrega memórias, lições e, às vezes, o amargo gosto de lágrimas que se recusaram a cair. Reconhecimento não é sobre grandes feitos, mas sobre os pequenos milagres que se escondem no ordinário: um riso arrancado no meio da dor, uma amizade que nasceu no instante menos esperado, uma conversa que se tornou farol em noite escura, um gesto simples que aqueceu o coração quand o tudo parecia desmoronar. São detalhes sutis, quase imperceptíveis, mas que constroem a arquitetura invisível da vida. Se reconheço algo em mim hoje, é que não cheguei até aqui sozinho. (Mas aonde eu cheguei? Bom, deixa quieto!) apenas sei que Deus segurou minhas mãos quando até eu mesmo quis soltá - las, mostrando que a fé pode ser a corda que nos mantém de pé. Minha mãe or ou quando eu já não tinha maia ânimo para dobrar os joelhos, tornando seu colo e suas palav ras uma fortaleza invisível. Amigos ouv iram - me, quando eu precisava falar , e mesmo os que vieram para ferir, de forma inesperada, acabaram servindo como moldura para o que hoje se chama “Pequenas V itória s ” Cada presen ça, cada ausência, cada gesto, bom ou ruim, deixou sua marca, moldando quem s ou. Não prometo respostas neste arti go, mas deixo rastros; uns sé rios, outros cheios de ironia, para que quem leia se reconheçam também. Para que perceba que cada vida é feita de dores, de quedas e, principalmente, de levantadas; que cada lágrima pode ser transformada em aprendizado; e que cada tropeço é oportunidade de fortalecer os passos futuros. No fim, o que permanece não são apenas os acertos ou as glórias, mas a coragem de continuar, mesmo quando tudo ao redor insiste em parecer difícil demais. Este texto é um convite: olhe para dentro, veja suas próprias cicatrizes e, quem sabe, sorria ao perceber que você também sobreviveu, aprendeu e se tornou a lguém digno de reconhecimento, primeiro de si mesmo, e depois do mundo. Introdução O reconhecimento, em sua definição mais ampla, é o ato de identificar, aceitar e compreender algo seja uma pessoa, uma experiência, um valor ou até mesmo a si próprio. Do ponto de vista científico e psicológico, o reconhecimento está ligado à memória e à consciência: é quan do o cérebro associa algo presente a algo que já viveu, transformando lembranças em aprendizado. É o processo que nos permit e dizer “eu já vi isso antes” mas também o que nos ensina a dizer “agora eu entendo”. Mas, para além da ciência, o reconhecimento é um fenómeno da alma. É quando a mente se cruza com o coração e ambos aceitam que o passado não pode ser mudado, mas pode ser compreendido. E é isso que este livro carrega. Não falo de reconhecimento como fama, mas como auto - reconhecimento o de olhar para trás e enxergar não apenas os erros, mas também as pequenas v itórias; não apenas os tropeços, mas também os passos firmes que, mesmo curtos, me trouxeram até aqui. Falo das terras que pisei, das pessoas que conheci, das vezes que quase desisti, e das pouc as mas preciosas vezes em que consegui vencer. Porque reconhecer é, antes de tudo, reverenciar a própria história. Não cheguei ainda aonde quero e confesso, talvez nem saiba ao certo onde é esse “lá”. Mas sei que cada momento vivido foi um alicerce, uma p onte para continuar. E é isso qu e esta obra representa: o ato de me reconhecer para seguir. 1 Capítulo 1 – Reconhecimento da Dor e do Fracasso Falar de dor nunca é simples. Muitos preferem esconder, outros disfarçam com risadas, e alguns acreditam que ignorar é o mesmo que superar. Eu, no entanto, aprendi que o verdadeiro reconhecimento começa quando a gente encara o que doeu, sem maquiagem, sem desculpas. Fracassar foi uma das experiências mais didáticas da minha vida. Houve dias em que t udo parecia apontar para o sucesso, e ainda assim o chão cedia. Houve provas que não passei, portas que se fecharam, oportunidades que escorreram entre os dedos como areia fina. O mundo chama isso de derrota; eu chamo de treinamento. Porque no silêncio do “não”, descobri minha voz. Nos olhares de desdém, encontrei coragem. Nas lágrimas escondidas, percebi que ainda havia vida pulsando. E vida que pulsava com sede de recomeço. Reconhecer a dor não me fez menos forte, me fez mais humano. Reconhecer o fracasso não diminuiu minha caminhada, apenas redefiniu a rota. Se hoje caminho com passos firmes, é porque antes precisei rastejar em pedras cortantes. E há uma ironia nisso tudo: os fracassos que me envergonharam no passado, hoje são as his tórias que mais inspiram quando alguém me pergunta quem eu sou. Talvez porque a dor, quando reconhecida, se transforma em poesia; e o fracasso, quando aceito, abre espaço para vitórias que não cabem em títulos ou diplomas. 2 Capítulo 2 – Reconhecimento das Vitórias Depois da poeira dos fracassos, surgira m as pequenas grandes vitórias: aquelas que, se alguém olhasse de fora, talvez passassem despercebidas. Mas eu sei os pesos que tiveram. As palavras foram minha maior trincheira. Foi nelas que encontrei refúgio, mas também a coragem de me expor. Vieram, então, os frutos que jamais imaginei colher: Entre Fariseus e Miolos Perdidos, onde ironia e espiritualidade caminham lado a lado; A Santa que Chora no Escuro , revelando o lado escondido da f é e da dor; O Tal do Amor, que ousa tocar no que muitos preferem evitar; E Ninguém Entende um Itachi Uchiha, esse grito enigmático que alguns compreenderam melhor do que eu mesmo. Cada uma dessas obras não nasceu do conforto, mas da inquietação. São cicatr izes transformadas em páginas, dores remodeladas em frases, reflexões que se negaram a morrer dentro de mim. Não são apenas textos: são testemunhos de batalhas internas, de noites em que a solidão parecia esmagadora e de momentos em que a escrita foi o úni co abrigo possível. Não se tratam apenas de livros ou textos. Sãos marcos, lembretes de que, se a dor tem força para destruir, a escrita tem ainda mais força para reconstruir. Cada letra carregada de emoção, cada parágrafo moldado por lágrimas ou risos con tidos, é uma ponte que liga quem fui ao que ainda posso ser. São faróis que, mesmo frágeis, iluminaram noites de confusão, e serviram de guia quando o caminho parecia perdido. Reconheço as vitórias não como troféus expostos em prateleiras, mas como pontes e lembretes silenciosos de crescimento. Elas me mostram que o valor de um feito não se mede apenas pelo brilho externo, mas pelo impacto interno e naqueles que, de alguma forma, encontram reflexo de suas próprias dores e alegrias nas minhas palavras. E se o mundo insistir em medir o sucesso pelo número de conquistas visíveis, eu escolho medir pelo número de vidas que minhas palavras tocaram. Porque, no fim, a verdadeira vitória não é o aplauso que ecoa, mas o silêncio que se transforma em entendimento, a mente que se abre, o coração que se aquece, e a alma que se sente menos sozinha. Cada vitória, por menor que pareça, é um testemunho de resistência, de coragem e de 3 persistência. E, olhando para trás, vejo que essas v itórias não são apenas minhas são co mpartilhadas com todos que se permitiram ler, sentir e se reconhecer. 4 Capítulo 3 – Reconhecimento das Pessoas Ninguém caminha sozinho. É verdade que muitas batalhas precisaram travar dentro de mim, mas não posso negar que ao redor existiram vozes, presenças e até silêncios que me moldaram. Deus Deus, não é apenas um conceito distante ou uma palavra dita em oração. Para mim, Ele é o Autor invisível das minhas páginas, aquele que escreve nos espaços em branco da minha vida quan do eu ainda tento segurar a caneta com mãos trémulas. Muitas vezes, quando a dor parecia esmagar tudo, foi Ele quem permitiu que eu sentisse cada corte, cad a queda não para me destruir, mas para me ensinar a força de me reerguer. E quando a esperança parec ia impossível de encontrar, foi Ele quem soprou vida sobre mim, quase silenciosamente, como um vento que não se vê, mas que faz as folhas se moverem e os caminhos se abrirem. É curioso pensar que, nas horas mais solitárias, quando até eu duvidava de mim me smo, eu percebia sinais que não poderiam ser coincidência: uma conversa inesperada, uma oportunidade surgida do nada, um abraço que dizia mais do que palavras poderiam transmitir. Tudo isso era Ele, escrevendo pacientemente a história que eu só começaria a compreender muito depois. Reconhecer Deus na minha vida é perceber que nenhum tropeço foi em vão. Cada lágrima, cada fracasso, cada momento de silêncio absoluto foram lições com assinatura divina. Não porq ue e le quisesse me punir, mas porque queria que eu entendesse a importância de cada gesto, de cada escolha, de cada sentimento. Ele foi meu porto seguro invisível, aquele que nunca pediu reconhecimento, mas que sustenta tudo o que sou e tudo o que ainda posso ser. E, por isso, ao falar de reconhecimento, não posso deixar de agradecer ao primeiro e mais constante companheiro da minha vida: Deus. Porque se há algo que permanece quando tudo parece escapar pelas mãos, é a presença d’Ele, firme, silenciosa e transformadora. 5 Minha Mãe Falar da minha mãe é falar de abrigo, de força silenciosa e de amor que não exige aplausos. Ela não é apenas a mulher que me deu a vida; ela é a raiz que sustenta a árvore que sou, mesmo quando ventos fortes tentam me derrubar. Cada oração que ela fez por mim, cada conselho firme, cada olhar repreensivo carregava mais poder do que eu podia perceber na hora, e hoje reconheço a dimensão disso. Minha mãe foi o colo que acolheu minhas lágrimas quando eu ainda não tinha palavras para explicar a dor. Foi a mão qu e segurou a minha quando o mundo parecia um deserto sem saída. Cada gesto dela, por menor que parecesse, era um lembrete de que eu não precisava enfrentar sozinhos os desafios que a vida coloca à minha frente. E mesmo quando não entendia suas exigências, h oje vejo que eram ponteiros apontando o caminho certo, ensinando disciplina, coragem e paciência. Ela é aquela presença constante que não precisa ser notada para ser essencial. Nos momentos de alegria, ela sorri junto comigo; nos momentos de frustração, el a está lá, firme, oferecendo força com ou sem palavras, e presença constante . Se há alguém que merece ser reconhecido por cada vitória que alcancei, essa pessoa é minha mãe. Porque antes mesmo de eu aprender a caminhar sozinho, ela já me ensinava a levanta r depois de cada queda. E mais do que tudo, ela me mostrou que amor verdadeiro é silencioso e persistente. Não é aquele que aparece só quando convém, nem o que espera retorno imediato. É o que permanece, mesmo quando o mundo teima em se afastar, é o que segura nossas mãos quando achamos que já não podemos mais. Minha mãe é isso: força, proteção e amor na forma mais pura, e eu sou eternamente grato por cada instante que ela esteve ao meu lado, mesmo quando eu não entendia. E aqui entra meu pai. Admito: não foi fácil. Durante muito tempo, nossa relação foi mais feita de ruído s do que de diálogos. 6 Falar do meu pai é navegar entre ruídos e silêncios, entre atritos e aprendizados. Nossa relação nunca foi feita de caminhos retos; muitas vezes, parecia q ue nossas vozes se cruzavam apenas para gerar choque, e não diálogo. Mas, olhando para trás, vejo que cada conflito, cada diferença, foi, de certo modo, uma lição disfarçada. Meu pai não foi sempre espelho para meus passos, mas foi advertência para minhas escolhas. Ele mostrou, mesmo sem qu erer, que experiência tem peso, que os atalhos que parecem fáceis podem ser armadilhas, e que quem já percorreu esses caminhos tortuosos tem o direito de alertar. Era duro ouvir, às vezes parecia injusto, mas, com o tempo , compreendi que essas advertências eram formas de cuidado. Ele também me ensinou que não é necessário ser perfeito para ser um exemplo. O pai que tropeça, erra, levanta e tenta de novo é tão valioso quanto aquele que acerta sempre. Cada falha dele se torn ou uma oportunidade de aprendizado para mim: sobre paciência, sobre humildade e sobre a complexidade de ser humano. E, mesmo quando o orgulho ou a raiva nos afastavam, havia uma base firme que não se rompia: o vínculo de sangue. Não posso negar que ele é meu pai, com todas as imperfeições e acertos, e que o amor por ele é real, mesmo quando o orgulho quer esconder. Hoje, reconheço que sua presença, mesmo nas falhas, con tribuiu para a minha formação, fez - me mais atento, mais crítico e, de certa forma, mais resistente. Meu pai me mostrou, acima de tudo, que amar alguém nem sempre significa concordar, mas significa compreender, aceitar e, quando possível, aprender. E se hoje eu posso caminhar com mais segurança e clareza, é porque parte dessa força veio dele, ainda que tenha demorado a reconhecer. 7 E como falar de família sem citar meus irmãos? Artur dos Santos Ah, o Art ur... irmão de sangue e de implicância. A gen te pode até discordar de tudo de música, de comida, de ideias e até de quem tem razão (geralmente eu, claro) mas no fundo existe um elo que é mais teimoso que nós dois juntos. Crescemos dividindo brinquedos, broncas e, às vezes, até culpas que nem sempre eram minhas (ou talvez fossem, mas deixa quieto). Artur é aquele tipo de irmão que não precisa estar sempre perto pra eu sentir que ele está por perto. Temos um laço estranho, desses que se esticam mas não rompem. A gente briga, se cala, e no minuto seguinte está rindo de alguma besteira como se nada tivesse acontecido. Ele me irrita, mas me ensina; me provoca, mas também me defende quando o mundo parece injusto. E o mais engraçado é que, por mais que a gente se bata nas ideias, eu sei que, se um dia tudo desabar, o Arthur vai ser o primeiro a aparecer com aquele olhar meio debochado, tipo qu em diz: “Eu te avisei, mas tô aqui, bora reso lver”. E isso é amor de irmão torto, barulhento e verdadeiro. Elias Ever dos Santos Elias é diferente. É aquele irmão que a vida colocou a uma certa distância, talvez pra eu aprender que presença não é só estar perto fisicamente. Mesmo longe, ele sempre foi inspiração. Foi através dele que descobri o encanto pelas palavras, o gosto pela poesia e o poder que um verso tem de mudar um dia inteiro. Enquanto eu ainda tentava entender o mundo, Elias já o traduzia em metáforas e ideias. Foi com ele que aprendi que escrever não é só alinhar palavras bonitas é colocar a alma no papel, é transformar o invisível em visível. Ele é o tipo de poeta que consegue encontrar sentido até no barulho do vento ou numa xícara de ca fé esquecida na mesa. O engraçado é g que, por mais que ele tenha sido exemplo, ele nu nca impôs isso. Ele só existia e, no existir dele, eu via arte. Às vezes, penso que ele escreve até quando fica calado, porque até o silêncio dele tem ritmo. E se hoje eu tenho coragem de me expor nas palavras, devo parte disso a ele. Elias me ensinou, sem perceber , que poesia também é herança e essa, sim, ninguém pode tirar. 8 Também não posso esquecer de falar dos irmãos que a vida me deu sem precisar de laços sanguíneos. Bernardo Wapota é um deles, meu irmão mais novo por escolha. Tivemos infância compartilhada, crescemos lado a lado, correndo, rindo e tropeçando juntos. Se não dividimos sangue, dividimos chão e memórias, e isso é quase mais forte. Gonçalves Alcino é outro nome que não pode faltar. Chamá - lo de amigo é pouco, porque quando a vida me golpeava, ele não era apenas companhia, era porto seguro. Em muitos momentos, foi a mão firme que segurou o barco quando a tempestade queria me levar, e às vezes também era o primeiro a rir da minha queda antes de me ajudar a levantar porque amizade de verdade também tem esse tempero. E como não falar de Laurindo Bartolomeu e Evaristo Silvano? Com eles, aprendi que as dores podem ser divididas e transformadas em piada. Quanta s vezes não nos reunimos para partilhar fracassos, desilusões e tropeços? E em vez de chorarmos, dávamos gargalhadas das nossas próprias desgraças, como se rir fosse a forma mais sábia de sobreviver. No fim das contas, era como uma terapia colectiva improv isada, só que sem psicólogo e sem cobrança apenas a vida, três cadeiras e muita ironia. Esses dois me ensinaram que algumas dores só se curam com gargalhadas compartilhadas. Não é exagero dizer que eles transformam frustrações em comédia: um tropeço vira p iada, um fracasso vira história engraçada para contar e repetir, e as desilusões? Ah, essas se transformam em risadas que ecoam por dias. Juntos, Laurindo e Evaristo são quase um departamento de humor e consolo. Onde um exagera, o outro corrige com sarcasm o; onde um cai, o outro puxa a cadeira e provoca: “você de novo?”. Eles são a prova viva de que a vida pode ser levada com leveza, mesmo quando nada parece certo. E o melhor de tudo é que a amizade com eles não exige perfeição, nem formalidade. É simp les: você chega com problemas, eles chegam com piadas, e no fim, vo cê sai com o coração mais leve e muitas vezes, com lágrimas de tanto rir. Laurindo e Evaristo não são apenas amigos. São terapeutas da vida, e o consultório deles é a própria realidade, dec orada com ironia, gargalhadas e algumas doses de caos controlado 9 Também não posso me dar ao luxo de esquecer pessoas que, sem pensar duas vezes, estenderam a mão para mim. Nem sempre foi ajuda material e ainda bem. As coisas mais valiosas que alguém pode oferecer são tempo, atenção, simplicidade, sinceridade, companhia, consolo e qualidade de presença. Curioso como a vida funciona: começa torta, mas no fim ajeita - se e entrega presente embrulhada de formas estranha Pessoas que eu n unca imaginei ter como amigos ou sequer como conhecidos acabaram se tornando parte da minha história. Eu olhava pra certos indivíduos e dizia por dentro: “Nada... pessoas assim nunca vão estar na minha lista.” Mas a vida, essa bandida profissional, adora con trariar - nos. E pronto... aconteceram. Entre olha res e kools , fui colecionando gente boa. Noé Clássico: o “ businessman .” Aquele que sempre tem algo para dizer, uma opinião formada, um ponto de vista que às vezes até contraria o universo, mas que vem sempre carregado de razão e energia. Noé é aquele mano que, mesmo no silêncio, passa a mensagem de que caráter é raro, mas ainda existe. Das conversas longas aos conselhos curtos, ele tornou - se um dos poucos que conseguem ser sérios e engraçados ao mesmo tempo. U m Real Nigga no s entido mais puro da expressão, presença forte, lealdade tranquila, e uma visão da vida que, se fosse escrita num livro, muita gente pagaria para ler. Mango Mupinga (Edy) : Simplicidade duas vezes, porque uma só não chega para descrever. É dedicação em forma de pessoa. Leal, trabalhador, com sonhos que batem no teto e furam o céu. O típico jovem que não brinca com o tempo: se houver tarefa, ele faz; se houver oportunidade, ele agarra. É dele aquela frase que já devia estar estampada em camis etas: “Epha wy, vamos só já fazer... o importante é fazer dinheiro.” Com o Edy percebi q ue persistência não é escolha, é sobrevivência. Que jovem parado é jovem atrasado. Aprendi que amanhã pertence a Deus, mas o hoje... o hoje é responsabilidade nossa. E claro, se há uma cena em que ele é craque, é no radar feminino: nenhuma gata lhe escapa. Mas pronto, isso fica para outro capítulo. 10 Isaac Mande: o companheiro do Hustle E agora vamos falar de um companheiro que a vida me deu justamente nas batalhas da vi da. Não foi num escritório, nem numa sala climatizada, nem num daqueles ambientes finos onde as pessoas fingem saber viver. Mas debaixo da árvore, no hustle puro. Num dia de sol que parecia castigo, vi - o ali atrás da sua máquina de costura, tranquilo como sempre. Cheguei nas calmas: Mano, tenho duas calças no mbaz... vou trazer pra dares um toque. Foi assim que, sem força, nasceu uma irmandade. Com ele, não existe teatro: a lealdade é vivida, a cumplicidade é natural e o companheirismo não precisa de explicar Chegamos até àquele nível de e mprestar dinheiro sem remorso, epa, isso já diz muito, porque dinheiro é assunto sério M as o mais valioso é outra coisa, o Isaac faz pa rte da melhor terapia do mundo; rir das desgraças da vida. Quando a vida aperta, nós est amos lá, na mesma sombra, a transformar problemas em piadas para não sermos nós a virar piada. O Isaac é isso: um irmão que cheg ou devagar, ficou para sempre, é a prova que Deus sabe colocar anjos com forma de costureiro no nosso caminho. E existe aquela p essoa que não dá pra colocar em nenhum rótulo Nilma: É espelho quando quero me entender, enigma quando penso que entendi, e tempestade quando a vida já estava calma demais. Entre conversas que parecem brincadeiras e provocações que quase viram guerra, ela deixou de ser só uma presença e virou parte da minha história. O pessoal diz que nós d ois somos tipo fogo e gasolina, juntos, é emoção garantida. Outros dizem que parecemos um livro bom, mas sem final. E há quem jure de pé junto que somos namorados. Quando a gente diz que não, eles arregalam os olhos e soltam: “Então são malucos mesmo!” E talvez estejam certos: malucos por rir das próprias discussões, por se entenderem em meio ao caos, por acharem graça nas brigas e paz nas ironias. Com ela aprendi que nem tudo se explica. Tem gente que a gente sente, e pronto. A Nilma me irrita e me faz rir com a mesma facilidade, e talvez seja esse o segredo: o caos dela combina com a minha impaciência. 11 Tem quem nos veja e pense: “esses dois precisam de terapia”. M as a verdade é que a gente se entende, do nosso jeito meio torto. Ela chegou não pra completar, mas pra cutucar, e às vezes é disso que a gente precisa pra crescer. Se me perguntarem o que somos, eu respondo: um belo problema que ainda não quero resolver. A gente briga, discute, se provoca, mas no fundo há sempre aquele cuidado disfarçado de ironi a. Somos tipo café sem açúcar forte, às vezes amargo, mas impossível de deixar de lado. E mesmo com tudo isso, fica o reconhecimento: Nilma é da quelas pessoas que não passam ficam. Pode não ser cena de novela, mas é a história que eu não pularia nenhum capítulo. São pessoas que fi zeram parte da minha história, fazem, na verdade, e por isso merecem reconhecimento. E como me chamam sempre de bandido, já devem estar a perguntar: “Por que ele só mencionou uma figura feminina?” Yea... nem eu consigo me descrever direito. Falar de mim é como apertar fumo nas mãos: quanto mais aperto, mais desaparece. Acho que s ou um enigma ... E s e a vida é feita de capítulos, então este capítulo não é escrito apenas por mim, mas por todos os que decidiram, de alguma forma, caminhar ao meu lado. Alguns com sangue, outros com afinidade, alguns com risos, outros com advertências. E se, por acaso, eu esqueci alguém, não é por falta de importâ ncia, mas porque minha memória às vezes gosta de tirar férias sem aviso. Mas quem caminhou comigo sabe: pode não estar escrito aqui, mas está tatuado em mim. Por fim, até mesmo os desconhecidos merecem menção. Leitores, críti cos, companheiros de passagem cada um deles, de alguma forma, me marcou. Cada elogio foi combustível, cada crítica foi martelo que lapidou, e até os silêncios reflexivos tiveram peso. 1 2 Capítulo 4 – Entre Linhas e Entrelinhas Escrever, para mim, nunca foi apenas um hobby. També m não foi só terapia. Escrever sempre foi um ato de sobrevivência. Há quem cante para aliviar a alma, há quem corra, há quem beba. Eu escrevo. E escrevendo, às vezes consigo enganar a vida, como quem dá um nó no destino e o obriga a dançar no meu ritmo. Muitos dizem: “ah, ele tem jeito para as palavras”. Mal sabem que esse jeito nasceu mais de experiências adversas que de talentos. A verdade é que cada vírgula que coloco já custou algumas noites sem sono, cada ponto final é o eco de algo que precisei de ix ar morrer. Não é dom é disciplina, é ferida, é resiliência. A maldição útil Alguém disse que escrever é uma maldição. E eu concordo. Mas, veja bem, não é daquelas maldições ruins que acabam contigo. É a maldição que dói e cura ao mesmo tempo. Quando pego n a caneta ou no teclado, não estou apenas registando palavras. Estou exorcizando fantasmas, transformando em frases aquilo que a garganta não consegue pronunciar. E, curiosamente, cada vez que compartilho essa dor, alguém do outro lado se identifica. É como se a maldição fosse colectiva , e o q ue escrevo não fosse mais meu passa a ser de quem lê. O riso escondido na dor Quem acompanha minhas reflexões já notou: muitas vezes, falo de dores com um sorriso escondido. É porque descobri cedo que a vida é cínica de mais para se levar tão a sério. Então ironizo. Transformo derrotas em parábolas engraçadas. Faço da tragédia um conto curto. Brinco com a tristeza até ela cansar e ir embora. Não faço isso porque sou frio, como alguns já me acusaram. Faço porque, se não fo r assim, a dor me engole. É um riso estratégico. 1 3 As minhas páginas como espelham ? Entre as linhas que escrevo, cada leitor vê o que quer. Uns encontram fé, outros encontram sarcasmo. Alguns acham amor, outros lêem mágoa. E eu não corrijo ninguém. Porque as minhas páginas não são janelas transparentes, são espelhos rachados. Quem olha, vê um pedaço, mas nunca o todo. E talvez seja isso mesmo que eu queira: que cada um complete com a sua própria dor ou esperança. Personagens que nasceram de mim Nas m inhas páginas, já dei vida a santos que choram escondidos , porque sei que até a fé tem seus abismos. Já desenhei amores que oscilam entre o céu e o inferno , porque aprendi que o coração gosta de se contradizer. E quando precisei me reconhecer como alguém incompreendido, não hesitei em assumir o papel de Itachi Uchiha: mal interpretado, criticado, mas fiel ao seu propósito silencioso de proteger. A diferença é que eu não precisei de um Sharingan, bastou uma caneta e coragem para soltar palavras que, muitas vezes, ninguém queria ouvir. O humor como salvação Não pensem que é tudo dor e sombra. Quem me conhece sabe que o humor é a minha arma secreta. Embora as vezes seja preciso me conhecer melhor, para descobrir esse meu lado. Rir de mim mesmo, rir da situação, rir até do impossível. Quantas vezes já não fui acusado de ser frio, impaciente, enjoado? Pois bem, transformei esses rótulos em piadas internas. No fim, percebi que o humor é a forma mais bonita de resistir se m perder a leveza. É a gargalhada que impede o coração de azedar. Por que continuo escrevendo ? Escrevo porque não consigo parar. Escrevo porque é a forma mais pura que encontrei de não explodir por dentro. Escrevo porque nas páginas posso ser quem realmente sou, sem máscaras, sem rótulos, sem filtros. 1 4 E, ironica mente, cada vez que escrevo, sinto - me salvo , por aquilo que chamo de maldição. Sim, escrever é uma maldição. Mas é também a minha salvação diária. 1 5