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Na medida em que todas as obras da UC Digitalis se encontram protegidas pelo Código do Direito de Autor e Direitos Conexos e demais legislação aplicável, toda a cópia, parcial ou total, deste documento, nos casos em que é legalmente admitida, deverá conter ou fazer-se acompanhar por este aviso. Mobilidade poética na Grécia Antiga: uma leitura da obra de Simónides Autor(es): Ferreira, Luísa de Nazaré Publicado por: Imprensa da Universidade de Coimbra URL persistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/29840 DOI: DOI:http://dx.doi.org/10.14195/978-989-721-032-7 Accessed : 29-Jul-2020 16:59:08 digitalis.uc.pt pombalina.uc.pt Luísa de Nazaré Ferreira Mobilidade poética na Grécia antiga Uma leitura da obra de Simónides IMPRENSA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA COIMBRA UNIVERSITY PRESS (Página deixada propositadamente em branco) Título • Mobilidade poética na Grécia antiga: uma leitur a da obr a de Simónides Autora • Luísa de Nazaré Ferreir a Série Hvmanitas Svpplementvm Coordenador Científico do plano de edição: Maria do Céu Fialho Conselho Editorial José Ribeiro Ferreira Maria de Fátima Silva Director Técnico: Delfim Leão Francisco de Oliveira Nair Castro Soares Edição Imprensa da Universidade de Coimbra URL: http://www.uc.pt/imprensa_uc E‑mail: imprensauc@ci.uc.pt Vendas online: http://livrariadaimprensa.uc.pt Coordenação editorial Imprensa da Universidade de Coimbra Concepção gráfica & Paginação Rodolfo Lopes & Nelson Ferreira Pré-Impressão Imprensa da Universidade de Coimbra Impressão e Acabamento Simões & Linhares ISBN 978‑989‑721‑031‑0 ISBN Digital 978‑989‑721‑032‑7 D epósito L egaL 353373/13 1ª e Dição : IUC • 2013 © Junho 2013. Imprensa da Universidade de Coimbra Classica Digitalia Vniversitatis Conimbrigensis (http://classicadigitalia.uc.pt) Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra Reservados todos os direitos. Nos termos legais fica expressamente proibida a reprodução total ou parcial por qualquer meio, em papel ou em edição electrónica, sem autorização expressa dos titulares dos direitos. É desde já excepcionada a utilização em circuitos académicos fechados para apoio a leccionação ou extensão cultural por via de e-learning Todos os volumes desta série são sujeitos a arbitragem científica independente. Obr a realizada no âmbito das actividades da UI&D Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos DOI http://dx.doi.org/10.14195/978-989-721-032-7 5 S umário Prefácio 9 Nota preliminar 12 Introdução – A tradição dos aedos e dos rapsodos I. Mobilidade poética no mundo homérico 15 II. O testemunho de Hesíodo ( Op . 650-662) 27 III. O aedo de Quios do Hino Homérico a Apolo (vv. 165-176) 33 IV. O Certamen Homeri et Hesiodi 41 V. A tradição dos rapsodos 49 Parte I – Dados preliminares I. As festas públicas e a política cultural dos tiranos 63 II. As condições de mobilidade, o acompanhamento musical e a execução coral 97 Parte II – O espaço de mobilidade de Simónides I. Dados biográficos 115 II. A mobilidade de Simónides 121 II.1. As festas públicas 124 1.1. A composição e execução de hinos 124 1.2. A composição e execução de odes de vitória 126 1.3. As vitórias nas competições de ditirambos 131 II.2. Os patronos 136 2.1. Da Grécia Central e Insular 136 a) Em Atenas durante a tirania 136 b) Os patronos da Eubeia 141 c) Simónides, cantor nacional das Guerras Medo-Persas 143 d) O testemunho do corpus epigramático 151 e) Os Oligétidas de Corinto 155 2.2. Da Tessália 156 a) As famílias aristocráticas 156 b) Epinício para os filhos de Eácio 164 2.3. Da Magna Grécia 164 a) Os tiranos da Sicília 164 b) Mílon e Astilo de Crotona 172 III. A criação de um clássico: os motivos biográficos da lenda de Simónides 173 III.1. Um poeta ganancioso ou a profissionalização do ofício poético? 174 6 III.2. O cultor da memória 179 III.3. Simónides, poeta sábio ou “proto-sofista”? 183 Parte III – F ragmenta selecta : uma leitura da obra de Simónides I. O canto em honra dos homens 189 I.1. Reflexões sobre a condição humana 191 Fr. 520 191 Fr. 521 193 Fr. 522 195 Fr. 523 196 Fr. 526 197 Fr. 527 198 Fr. 541 199 Fr. 542 203 Fr. 579 216 Fr. 581 218 Fr. 584 220 Fr. eleg. 19 221 Fr. eleg. 20 224 Fr. eleg. 21 228 Fr. eleg. 22 231 I.2. O elogio de um esforço individual: a glória nas competições desportivas 239 Fr. 506 239 Fr. 507 241 Fr. 509 246 Fr. 511 249 Fr. 515 252 I.3. O elogio de um esforço colectivo: a glória nas lutas contra os Persas 255 Epigr. XVIII 255 Epigr. XIX 256 3.1. Maratona 257 Epigr. V 257 Epigr. XX (b) 259 Epigr. XXI 260 3.2. Termópilas 262 Fr. 531 262 Epigr. VI 267 Epigr. VII 270 Epigr. XXII (a) et (b) 270 Epigr. XXIII 273 3.3. Artemísio 274 Epigr. XXIV 274 3.4. Salamina 275 Epigr. XIX (a) 276 Epigr. XI 277 Epigr. XII 279 Epigr. XIII 280 7 Epigr. X 281 Epigr. XIV 283 3.5. Plateias 285 Epigr. VIII 285 Epigr. IX 286 Epigr. XV 287 Epigr. XVI 288 Epigr. XVII (a) et (b) 290 Epigr. XX (a) 292 Fr. eleg. 10 294 Fr. eleg. 11 295 Fr. eleg. 13 304 Fr. eleg. 14 305 Fr. eleg. 15 306 Fr. eleg. 16 307 II. O mito: deuses e heróis na obra de Simónides 315 Fr. 575 318 Fr. 577 323 Fr. 555 326 Fr. 543 331 Fr. 553 338 Fr. 545 340 Fr. 567 341 Fr. 595 342 Fr. 550 344 Fr. 551 346 Fr. 559 347 Fr. 572 347 Fr. 564 350 III. A presença da natureza 353 Fr. 508 356 Fr. 586 362 Fr. 597 363 Fr. 593 364 Conclusões 367 Bibliografia I. Edições, traduções e comentários 379 II. Estudos 387 Índices Índice de fontes antigas 407 Índice de autores modernos 441 Índice geral 453 Índice de termos gregos 467 (Página deixada propositadamente em branco) 9 Prefácio Celebram-se no presente ano de 2012 duas décadas da publicação do P. Oxy. 3965, que veio confirmar a reputação de Simónides como intérprete notável da resistência helénica nas lutas contra os Persas. Desde esse ano de 1992, o ‘Novo Simónides’, como de imediato passaram a ser designados os fragmentos papirológicos então revelados, nos quais a batalha de Plateias parece ocupar lugar de relevo, tornou-se objecto das leituras mais distintas e interessantes. O estudo que agora se publica – graças ao incentivo generoso de amigos, de colegas, dos meus mestres, da Coordenadora Científica do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, Professora Doutora Maria do Céu Fialho, e do Director da Classica Digitalia, Professor Doutor Delfim Ferreira Leão – é fruto da investigação realizada durante uma boa parte deste período cronológico e corresponde, com pequenas alterações, à dissertação de doutoramento apresentada à Universidade de Coimbra em Novembro de 2005. Ao longo de vários anos procurei cumprir um sonho antigo de estudar com rigor e persistência a lírica grega do período arcaico. A eleição de Simónides como figura central deste trabalho devo-a ao Professor Doutor José Ribeiro Ferreira, meu orientador pedagógico de várias edições da cadeira de Literatura Grega. A Professora Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, que aceitou orientar este estudo e o acompanhou até à sua conclusão, sugeriu a segunda linha de pesquisa: enquadrar o caso particular de um poeta de fama excepcional, e do qual haviam sido publicados recentemente fragmentos papirológicos, numa situação geral e pouco estudada, a mobilidade dos líricos arcaicos. A mobilidade poética não é um fenómeno exclusivo da Época Arcaica nem tipicamente grego, mas inscreve-se numa tradição enraizada na própria 10 maneira de ser do povo grego. Assim, no capítulo de introdução comento os testemunhos literários mais antigos sobre a existência de poetas itinerantes, os Poemas Homéricos e a obra de Hesíodo, que nos permitem caracterizar a actuação dos aedos, mas alarguei esse estudo à tradição dos rapsodos, que fizeram da mobilidade um modo de vida e continuavam activos no tempo de Xenofonte e Platão. O plano da investigação previa o estudo da mobilidade dos líricos arcaicos sob duas vertentes: o exame das motivações principais desta prática e das condições em que se efectuava. Desta pesquisa resultou a primeira parte da dissertação. Em termos gerais, constitui uma reflexão sobre as condições de trabalho dos antecessores e contemporâneos de Simónides. No entanto, dada a escassez de fontes ou a falta de fidedignidade de algumas delas, tenho consciência de que constitui apenas uma descrição aproximada dessa realidade. Por razões metodológicas, pareceu-me conveniente comentar à parte a documentação respeitante a Simónides, sendo o objectivo fundamental da investigação o estudo dos seus fragmentos principais, mas tendo em consideração as possíveis circunstâncias em que compôs e apresentou as suas obras, bem como os contactos que estabeleceu ao longo da sua vida. Assim, na segunda parte, depois do exame breve dos dados biográficos, comento os elementos, recolhidos dos testemunhos e dos fragmentos, que nos permitem esboçar o espaço de mobilidade de Simónides, tendo em vista dois aspectos principais: as ocasiões de execução da sua obra, designadamente as festas públicas, e as pessoas que celebrou ou com as quais contactou por razões profissionais. O último capítulo desta parte é dedicado às histórias sobre o carácter do poeta, transmitidas pela tradição pseudo-biográfica, fruto talvez de leituras erróneas da sua obra, mas que são também um testemunho da admiração que a figura de Simónides continuou a despertar muito tempo depois da sua morte. O facto de não conhecermos, na maior parte das vezes, o subgénero dos fragmentos que nos chegaram ditou a opção, que segui na terceira parte, de um comentário organizado segundo os temas privilegiados no corpus de Simónides, que compreende fragmentos líricos, elegíacos e epigramas. Embora tenha consultado numerosos estudos, será justo dizer que esta investigação muito deve aos trabalhos de C. M. Bowra, W. Burkert, D. A. Campbell, D. E. Gerber, J. H. Molyneux, D. L. Page, P. J. Parsons, O. Poltera, M. L. West, bem como aos dos meus mestres e colegas. Por outro lado, esta exposição fundamenta-se em muitas fontes antigas, designadamente nos testimonia que D. A. Campbell compilou para a segunda edição Loeb Classical Library da lírica grega do período arcaico. Uma vez que nas últimas décadas temos assistido à publicação em Portugal de traduções de qualidade dos autores gregos e latinos, algumas delas premiadas, e sendo esta tarefa tão exigente, 11 pareceu-me mais correcto citar essas versões. As traduções dos fragmentos de Simónides são da minha autoria. Como foi dito acima, no decurso desta investigação contei com o apoio de muitas pessoas e entidades. Reitero, por isso, o meu agradecimento sincero aos Mestres que orientaram este estudo, a Professora Doutora Maria Helena da Rocha Pereira e o Professor Doutor José Ribeiro Ferreira, aos meus familiares, amigos, colegas e funcionários do Instituto de Estudos Clássicos, do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos e da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, aos meus alunos de Literatura Grega e demais cadeiras, bem como ao Dr. Nelson Ferreira, que acolheu com dedicada paciência a tarefa ingrata de formatar este estudo. Escusado será dizer que qualquer incorrecção é da minha inteira responsabilidade. Agradeço igualmente o apoio financeiro concedido pela Fundação Calouste Gulbenkian, sob a forma de três bolsas de curta duração, que durante o período de pesquisa aliviou as despesas de deslocação às bibliotecas da Sorbonne e da Universidade de Caen. Estou grata a todos. Bem hajam. Coimbra, 31 de Julho de 2012 Luísa de Nazaré Ferreira 12 Nota preliminar Entendemos por corpus de Simónides o conjunto de composições líricas e elegíacas (poemas e epigramas) considerado nas edições organizadas por D. L. Page, M. L. West e D. A. Campbell. Os fragmentos líricos (fr.) são identificados pela numeração contínua de Poetae Melici Graeci , que Campbell adoptou na sua edição. Para os elegíacos (fr. eleg.), seguimos a estabelecida na segunda edição do vol. II de Iambi et Elegi Graeci ante Alexandrum cantati , e para os epigramas (epigr.) a de Further Greek Epigrams . Os testemunhos (test.) relativos aos poetas mélicos são os que figuram em Greek Lyric , de D. A. Campbell. Na citação de autores gregos, seguimos, quase sempre, as abreviaturas de H. G. Liddell-R. Scott-H. Stuart Jones (edd.), A Greek-English Lexicon (Oxford 91996 = LSJ ). Para os autores latinos, as de P. G. W. Glare (ed.), Oxford Latin Dictionary (Oxford 1982). As publicações periódicas são identificadas pelas siglas de L’Année Philologique . Além das indicadas na bibliografia final, ocorrem também as seguintes: Chantraine (P.): Dictionnaire Étymologique de la Langue Grecque. Histoire des Mots (Paris 2009). LIMC : Lexicon Iconographicum Mythologiae Classicae (Zürich-München 1981-1997). OCD : S. Hornblower, A. Spawforth (edd.), The Oxford Classical Dictionary Third edition revised (Oxford 3 2003). P. Oxy .: Oxyrhynchus Papyri (London 1898-). Ao longo da exposição, as edições, traduções, comentários e estudos citados na bibliografia final são identificados pelo apelido do autor e ano de publicação. Além dessas obras, indicam-se nas notas, por extenso, outros títulos que foram consultados pontualmente ou constituem, para este trabalho, bibliografia de carácter complementar. Justifica-se assim a existência de um índice de autores modernos. Não adoptámos o itálico nas palavras e expressões latinas correntes, como vide, ad loc., in, supra, infra., que foi mantido nos termos gregos transliterados (e.g. arete ). Nas referências cronológicas seguimos E. J. Bickerman, Chronology of the Ancient World (London 1968). Salvo indicação em contrário, as datas são anteriores a Jesus Cristo. 13 Introdução A tradição dos aedos e dos rapsodos (Página deixada propositadamente em branco) 15 Introdução – A tradição dos aedos e dos rapsodos I. Mobilidade poética no mundo homérico A actividade dos cantores profissionais não ocupa na Ilíada o lugar de destaque que lhe confere a Odisseia . Nesta podemos apreender, em traços gerais, os contornos da actuação dos aedos que se apresentam nos palácios de Ulisses, de Alcínoo, de Agamémnon e de Menelau, mas é aquela que nos dá conta de uma grande variedade de formas poéticas. Embora nada indique que sejam literárias, sugerem a existência de manifestações de carácter poético‑musical em tempos muito remotos. A primeira a ser referida é o péan ( παιάν ) que os Aqueus entoam em coro para aplacar a ira de Apolo (1. 472‑473). A importância destes versos reside na estreita ligação que se estabelece entre o canto ( ἀείδοντες , v. 473), a dança e a música, sugerida pelo emprego dos termos μολπή (v. 472) e μέλποντες (v. 474), que designam um canto acompanhado de dança e, eventualmente, de música 1. Por outro lado, o segundo hemistíquio do v. 474 centra‑se na função do canto em geral: o deleite do ouvinte ( ὃ δὲ φρένα τέρπετ ̓ ἀκούων , ‘e ele deleitava o seu espírito ao ouvi‑los’). Neste caso, estamos perante uma execução coral que tem em vista um deus (v. 472) identificado pelo seu epíteto ( ἑκάεργον , ‘o archeiro’, v. 474). Em 22. 391‑392 os Aqueus entoam um péan para celebrarem a morte de Heitor, mas neste contexto de morte não há referências a Apolo 2. A descrição do escudo de Aquiles forjado por Hefestos, que ocupa a última parte do canto XVIII (vv. 478‑608), é rica em momentos poéticos e musicais. O primeiro evoca os festejos de casamento (vv. 491‑496), durante os quais se entoava o canto do himeneu ( πολὺς δ ̓ ὑμέναιος ὀρώρει , ‘um grande himeneu elevava‑se até aos céus’, v. 493), e que incluíam, além do canto, a dança ( κοῦροι δ ̓ ὀρχηστῆρες ἐδίνεον , ‘os jovens dançarinos rodopiavam’, v. 494) e a música ( αὐλοὶ φόρμιγγές τε βοὴν ἔχον , ‘flautas e cítaras faziam ouvir os seus sonidos’, v. 495). O trabalho de Hefestos é tão hábil que permite vislumbrar os efeitos que tais festejos provocam nos que a eles assistiam: αἳ δὲ γυναῖκες | ἱστάμεναι θαύμαζον ἐπὶ προθύροισιν ἑκάστη (‘... e as mulheres/ olhavam embevecidas, detendo‑se cada uma nas entradas de suas casas’, vv. 495‑496). 1 Cf. LSJ , s.v. μολπάζω . Vide Willcock 1978: 195, Kirk 1985: 103. Na tradução dos passos da Ilíada seguimos, em geral, a edição crítica de Van Thiel 1996. 2 Trata‑se, provavelmente, como julga Richardson 1993: 146, de um canto pela vitória sobre o inimigo, e não há razão que nos obrigue a supor que era dirigido a Apolo, sendo o deus um dos aliados dos Troianos. Para a etimologia do termo, vide Chantraine, s.v. παιάν . Sobre a ligação do péan ao culto de Apolo, cf. Burkert 1993 [1977]: 288. Vide, em especial, Ian Rutherford, “The Παιάν : A Survey of the Genre”, in Rutherford 2001b: 3‑136. 16 Mobilidade poética na Grécia antiga: uma leitura da obra de Simónides Os dois momentos descritivos seguintes transportam‑nos para o ambiente do trabalho no campo. Se no primeiro o deleite dos pastores que tocam a flauta se torna fatal, porque os distrai e impede de preverem a emboscada de que são vítimas ( τερπόμενοι σύριγξι· δόλον δ ̓ οὔ τι προνόησαν , ‘deleitados com a flauta; não pressentiram a emboscada’, v. 526), no segundo assistimos a uma cena pacífica, na qual se destaca uma criança que toca a cítara e entoa a ‘canção de Lino’ ( λίνον δ ̓ ὑπὸ καλὸν ἄειδε , v. 570) 3, enquanto os vindimadores dançam, cantam e gritam (vv. 569‑572). À dança, que ocupa a penúltima camada do escudo, dedica o poeta dezassete versos desta ekphrasis (vv. 590‑606). Na parte final, detém‑se na atitude da multidão, que contempla os bailarinos com deleite ( τερπόμενοι , v. 604). Estas cenas retratam manifestações de carácter público ou colectivo. A execução poética era também praticada em ambientes íntimos, como testemunha o passo conhecido do canto IX (vv. 185‑191), no qual o poeta descreve a dedicação de Aquiles aos prazeres do canto e da música, enquanto está afastado das lides guerreiras. Tal como nos exemplos anteriores, o poeta sublinha os seus efeitos sobre os humanos ( τὸν δ ̓ εὗρον φρένα τερπόμενον φόρμιγγι λιγείῃ , ‘encontraram‑no a deleitar o espírito com a cítara melodiosa’, v. 186; τῇ ὅ γε θυμὸν ἔτερπεν , ‘com ela deleitava o seu coração’, v. 189). De salientar ainda que, embora Aquiles seja um amador, o assunto do seu canto, κλέα ἀνδρῶν (‘as acções gloriosas dos homens’, v. 189), integra o repertório dos profissionais que actuam nos palácios da Odisseia (cf. 8. 73), pelo que temos aqui um dos exemplos da conexão profunda que liga o herói homérico e o cantor épico, como demonstrou bem Frederico Lourenço 4. 3 Depreende‑se destes versos que era um cântico popular entoado na época das vindimas. A crer no escoliasta e nos versos que cita em abono da sua explicação (schol. B Hom. Il . 18. 570, IV. 558 Erbse = fr. 880 PMG ), era também um lamento fúnebre pela morte de Lino, figura mítica ligada à música e similar a Adónis (cf. Sapph. fr. 140 (b) L‑P). Segundo o fr. 305 M‑W de Hesíodo, era filho da Musa Urânia. Apolo matou‑o, porque se vangloriava de cantar tão bem como o deus (cf. Paus. 9. 29. 6‑7). No passo homérico, a menção dos gritos dos jovens vindimadores pode ser uma alusão ao grito ritual αἴλινον , que se ouvia durante a execução deste cântico (cf. Pind. Thren . 3. 6 = fr. 128c Ma.). Não obstante o carácter fúnebre, o fragmento de Hesíodo indicia que era adequado a ocasiões festivas. Segundo Heródoto, era comum na Fenícia, em Chipre e no Egipto (2. 79). Os estudiosos modernos, de facto, identificam diversas afinidades com cânticos populares orientais. Cf. Farnell 1921: 23‑32, Burkert 1983: 108, Willcock 1984: 272, Lambin 1992: 143‑148; West 1992b: 28‑29, 45‑46, 388; H. J. Rose, E. Krummen, OCD , s.v. Linus. 4 Vide “Aedo e herói”, in Lourenço 2004: 96‑100. O aedo versa no seu canto temas tradicionais e outros inspirados num passado recente: as façanhas dos homens e dos deuses, como ‘os amores de Ares e Afrodite’ e ‘o estratagema do cavalo de madeira’ ( Od . 1. 338, 8. 266‑366, 8. 492‑521), mas também as penas da Humanidade, como ‘o regresso infeliz dos Aqueus’ e ‘a querela de Ulisses e Aquiles’ (cf. Il . 6. 357‑358; Od . 1. 326‑327, 8. 75‑83). Para um exame da diversidade do canto do aedo, vide Hainsworth 1993: 38‑39, Pizzocaro 1999. 17 Introdução – A tradição dos aedos e dos rapsodos Por conseguinte, se a Ilíada parece dar pouca visibilidade aos aedos, em benefício notório das figuras heróicas, há pelo menos um acontecimento que não dispensa a sua presença: as cerimónias fúnebres em honra de Heitor. Após os lamentos de Andrómaca, de Hécuba e de Helena, o corpo do filho de Príamo é transportado para os seus aposentos e colocado no leito (24. 719‑722): οἳ δ ̓ ἐπεὶ εἰσάγαγον κλυτὰ δώματα, τὸν μὲν ἔπειτα τρητοῖς ἐν λεχέεσσι θέσαν, παρὰ δ ̓ εἷσαν ἀοιδοὺς θρήνων ἐξάρχους, οἵ τε στονόεσσαν ἀοιδὴν οἳ μὲν ἄρ ἐθρήνεον, ἐπὶ δὲ στενάχοντο γυναῖκες. Trouxeram‑no para os seus magníficos aposentos, depois deitaram‑no num leito com relevos e junto dele sentaram‑se os aedos que aos trenos deram início: um canto lamentoso entoavam, enquanto gemiam as mulheres. Destaque‑se que nesta cerimónia o canto fúnebre oficial, que contrasta com o gemido das mulheres ( στενάχοντο γυναῖκες ), já recebe a designação de θρῆνος , ‘treno’ (vv. 721, 722), e a sua execução é confiada a um grupo de ‘aedos’ profissionais. Podemos supor que os termos ἀοιδός e ἀοιδή sejam aqui empregues sobretudo para sublinhar a solenidade do canto fúnebre, pois as figuras referidas neste passo da Ilíada não se assemelham aos cantores épicos evocados na Odisseia que, de resto, apenas retrata a actuação a solo do aedo. Correspondem antes, como observou Colin MacLeod, a carpideiros profissionais (“hired mourners”) 5, e o seu canto não versa sobre os κλέα ἀνδρῶν nem tem a função de deleitar quem os escuta. Merece ainda a nossa atenção um momento do “Catálogo das naus” do canto II, no qual o poeta enumera as tropas de Nestor (ou contingente de Pilos), que incluem aliados vindos das regiões da Élide e da Messénia. A referência a Dórion suscita a evocação do castigo do poeta Tâmiris (vv. 591‑600): οἳ δὲ Πύλον τ ̓ ἐνέμοντο καὶ Ἀρήνην ἐρατεινὴν καὶ Θρύον, Ἀλφειοῖο πόρον, καὶ ἐύκτιτον Αἰπύ, καὶ Κυπαρισσήεντα καὶ Ἀμφιγένειαν ἔναιον καὶ Πτελεὸν καὶ Ἕλος καὶ Δώριον, ἔνθα τε Μοῦσαι ἀντόμεναι Θάμυριν τὸν Θρήικα παῦσαν ἀοιδῆς 595 Οἰχαλίηθεν ἰόντα παρ ̓ Εὐρύτου Οἰχαλιῆος· στεῦτο γὰρ εὐχόμενος νικησέμεν, εἴ περ ἂν αὐταὶ 5 MacLeod 1982: 148. Agradecemos a Frederico Lourenço a chamada de atenção para este comentário, bem como a interpretação global do passo. Recorde‑se que no canto XXIV da Odisseia , quando as Musas executam o treno pela morte de Aquiles fazem‑no à vez, alternando entre si ( Μοῦσαι δ ̓ ἐννέα πᾶσαι ἀμειβόμεναι ὀπὶ καλῇ | θρήνεον· , vv. 60‑61). 18 Mobilidade poética na Grécia antiga: uma leitura da obra de Simónides Μοῦσαι ἀείδοιεν κοῦραι Διὸς αἰγιόχοιο· αἳ δὲ χολωσάμεναι πηρὸν θέσαν, αὐτὰρ ἀοιδὴν θεσπεσίην ἀφέλοντο καὶ ἐκλέλαθον κιθαριστύν 600 Os que viviam em Pilos e na agradável Arene, em Trio, onde passa o Alfeu, na boa Épi, na Ciparíssia, e os que habitavam Anfigenia, Ptéleo, Helos e Dórion, onde as Musas encontraram Tâmiris da Trácia e puseram fim ao seu canto, 595 quando vinha da Ecália, de junto de Êurito Ecaliense, pois ameaçava em voz alta obter a vitória, ainda que fossem as próprias Musas a cantar, as filhas de Zeus portador da égide. E elas, iradas, mutilaram‑no, do canto divino o privaram e fizeram‑no esquecer a arte da cítara. 600 Este episódio é um caso típico de hybris castigada pelos deuses, pois Tâmiris, oriundo da Trácia como Orfeu, vangloriava‑se de ser mais excelente do que as próprias filhas de Zeus, constituindo também um exemplo oposto aos relatos da investidura poética de Hesíodo e Arquíloco, que tiveram ambos encontros auspiciosos com as patronas da poesia 6. Sobre este tema, Sófocles compôs o drama perdido Tâmiras , no qual apresentava em cena o castigo das Musas: a cegueira. O passo homérico diverge neste pormenor, pois o poeta é impedido de exercer a sua arte, o que não aconteceria necessariamente se perdesse a visão 7. O passo homérico não está isento de alguma dificuldade, gerada sobretudo pela geografia imprecisa da Ilíada (cf. Kirk 1985: 216). Importa salientar que 6 Hes. Th . 22‑34; Archil test. 3 Gerber ( Mnesiepis inscriptio , SEG 15. 517, col. II). Cf. a célebre representação de um pastor e seis musas numa píxide ática de figuras vermelhas sobre fundo branco, preservada em Boston (Museum of Fine Arts 98.887, c. 460‑450). Willcock 1978: 210 menciona outros exemplos, evocados na Ilíada , de mortais castigados pela sua hybris : Licurgo (6. 130‑140), Belerofonte (6. 200‑202) e Níobe (24. 602‑609). Vide a leitura do passo homérico por Wilson 2009: 56‑59, que interpreta o antagonismo que opõe Tâmiris às Musas como uma representação “of this clash between two musical traditions that expressed ultimately in the different generic performances‑types of hexameter epic and kitharodic lyric.” (p. 58). 7 Willcock 1978: 210 observa que πηρός significa propriamente ‘estropiado’, ‘incapacitado’ (cf. LSJ , s.v.), mas neste passo é tradicionalmente interpretado como ‘cego’. Para uma opinião divergente, cf. Kirk 1985: 217. A perda da visão de Tâmiris é mencionada no fr. 65 M‑W de Hesíodo e em fontes posteriores (e.g. Eur. Rh . 921‑925, Apollod 1. 3. 3, Paus. 4. 33. 3). Sobre a tragédia perdida de Sófocles ( TrGF IV F 236‑245) e a representação do castigo, vide Akiko Kiso, The Lost Sophocles (New York 1984) 2, 10, 53 (com indicações bibliográficas). O mito de Tâmiris teve alguma representação nas artes plásticas da Época Clássica, talvez por influência do teatro (cf. Kiso, ibidem, p. 127 n. 4). Cf. Anne Nercessian, LIMC VII. 1, s.v. Thamyris, Thamyras (München 1994) 902‑904, VII. 2: 615‑616. Vide ainda a discussão do tratamento dramático e iconográfico de Tâmiris por Wilson 2009: 59‑79. 19 Introdução – A tradição dos aedos e dos rapsodos Tâmiris se encontra com as Musas em Dórion da Messénia 8, quando vinha da Ecália, situada na Tessália, o que pressupõe a realização de uma longa viagem. No comentário a este passo, Kirk observa que em Homero não surgem referências aos poetas itinerantes (“wandering singers”). Tâmiris não parece ter, de facto, esse estatuto, pois o segundo hemistíquio do v. 596 especifica que ia a caminho do Peloponeso, depois de ter beneficiado da hospitalidade de Êurito, rei da Ecália (cf. Il . 2. 730), pormenor que o aproxima dos aedos da Odisseia . Por outro lado, os vv. 597‑598 sugerem um confronto num concurso poético 9. No entanto, de concreto apenas sabemos que Tâmiris era um cantor excepcional, que dominava igualmente a arte da cítara. O texto não precisa se era um aedo (apesar de ἀοιδή , ‘canto’, nos vv. 595, 599 10), habituado a deslocar‑se de corte em corte e a participar em concursos poéticos, mas também não exclui completamente estas hipóteses. Por conseguinte, em nossa opinião, este passo contém a única referência da Ilíada à mobilidade poética no mundo homérico, embora não nos ofereça uma caracterização precisa da actuação de Tâmiris. A Odisseia transmitiu‑nos um dos testemunhos mais antigos sobre a existência de profissionais itinerantes que viajavam pela Grécia e asseguravam o seu sustento com a prestação de serviços. Num passo conhecido do canto XVII, Eumeu acompanha Ulisses até ao palácio sem o reconhecer e Antínoo acusa‑o de ter levado para o banquete um mendigo com o fim único de perturbar o bem‑estar dos pretendentes. Indignado, o servo leal observa que só faz sentido acolher um profissional de fora se ele for útil à comunidade (vv. 380‑387): τὸν δ ̓ ἀπαμειβόμενος προσέφης, Εὔμαιε συβῶτα· 380 “Ἀντίνο ̓, οὐ μὲν καλὰ καὶ ἐσθλὸς ἐὼν ἀγορεύεις· τίς γὰρ δὴ ξεῖνον καλεῖ ἄλλοθεν αὐτὸς ἐπελθὼν ἄλλον γ ̓, εἰ μὴ τῶν, οἳ δημιοεργοὶ ἔασι; 8 Esta parece ser a versão mais difundida. Hesíodo, fr. 65 M‑W, situa o encontro na planície de Dótion ( Δώτιον ), ou seja, na Tessália, o que Kirk 1985: 216 considera “mais verosímil do que um encontro no sudoeste do Peloponeso”. Cf. Wilson 2009: 47‑52. 9 As versões posteriores deste mito (e.g. Eur. Rh. 921‑925, Apollod 1. 3. 3, Paus. 10. 7. 2, Ps. Plu. de Mus. 3. 1132b) mencionam concretamente a participação de Tâmiris num concurso poético, no qual tem de enfrentar as Musas, um dado que o texto homérico, em nossa opinião, apenas sugere. 10 Trata‑se da primeira ocorrência da palavra ἀοιδή , também presente num discurso de Polidamante a Heitor no canto XIII (v. 731), no qual evoca a dádiva divina da dança, da música e do canto. Muitos editores consideram o verso espúrio, pois está ausente de um papiro e de vários manuscritos. Para Willcock 1984: 222, “It certainly seems out of place”. Na opinião de Janko 1992: 138, trata‑se de uma interpolação rapsódica. Van Thiel, porém, considera o verso autêntico. A outra palavra da família de ἀοιδή é ἀοίδιμος ( Il. 6. 358), que Helena emprega quando reflecte sobre os infortúnios que inspiram o canto do aedo.