AREAL 1 Karinna Alves Gulias Anda uma mulher vestida de negro, da cabeça aos pés, descalça, árida. As costas vergadas de cansaço, como um berimbau cedendo à tensão da corda e cabaço. Um parêntese negro, perdido no areal, e olhando para uma árvore, que também só e curva, se deixa chacoalhar com a forte brisa da tarde. O sol, a pino, lhe queima a pele através do pano negro que absorve a luz e lhe traz suor à cara avermelhada. Ela, que no início do seu caminho em direção ao nada deixou cair atrás suas escolhas entre beleza ou vulgaridade, achou uma árvore e ali se destina a descansar. A caminhar, a caminhar, com os pés queimados e machucados. Não é uma autoflagelação ou peregrinação. Ressoam as campanas do silêncio nos ouvidos distanciados de uma mulher que não se encaixa num mundo humanizado. Vértice de uma legislação: um viver caído, sempre caído. Como os frutos passados de uma árvore. Esses que ao menos aos pássaros lhes trazem alento e alimento. Uma azeitona negra no chão. Uma semi-comida, outra inteira; ou sendo a mesma azeitona em seu espaço-tempo, evolui no seu auto-entender. E lhe supera como a brisa a separação entre ódio e amor, afinidade e inveja, ser boa ou má. Asquerosa fruta; em quem será o amor presente? Seu manto negro se conjuga com o solo em que vai passando e forma nomes, movendo plantas e morros, arroios e dunas num mover de passos sem intenção. Deixando pegadas, ela derrama atrás de si um passado topográfico. Forma vales e pedras com o passar dos pés cobertos. Calhaus e calhaus. Ao parar, levanta seus olhos ao céu e vê uma forma gigante, azulada a passar entre as nuvens. À distância, devagar e imponente. Além de possuir um aspecto cetáceo, não se sabe se é uma nave ou coisa parecida. Uma curiosidade pervade a sua consciência. Ela retorna os olhos ao chão e, ao caminhar o espaço com os olhos, esses chegam próximos a um amplo corpo de água um pouco mais adiante. Ao aproximar-se mais, vê que a água reflete tudo ao redor, com a exceção dela mesma. Um lago de mitos; será o domínio de baleias ou espaçonaves? Com sede de céu, seus corpos garimpeiros – da água parada. Refletidas pela inércia de uma vastidão de água, elas sempre tocarão o céu. Ela abaixa o manto da cabeça e os seus cabelos começam a esvoaçar com o vento. A sua curiosidade para com aquela visão a deixa estática por um momento. Apenas os cabelos negros se mexem. Aparecem mais duas naves ao lado daquela que já entrava lentamente AREAL 2 Karinna Alves Gulias nos céus — duas mais baleias, menores em tamanho. Era como se o areal em que a mulher estava fosse um porto de navios com boca, que voam. Então, inesperadamente, a nave cetácea maior começou a dirigir-se ao areal, aproximando-se cada vez mais da mulher. Entrou- lhe, de repente, uma sensação de pavor e saiu correndo o mais rápido que pôde, dentro do seu cansaço. As pernas tremiam-lhe, mas continuava a correr. A nave continuava a aproximar-se, até que ela, já sem energia, caiu na areia, virou o rosto para a nave e fechou os olhos. Uma pantera negra fitava-a no escuro, nos olhos fechados. Aluvião. Quando abriu os olhos, ela estava dentro da água. Por um breve momento, era apenas um estar e não um ser. Um estar na água. Os olhos viam o céu. Azul alaranjado. Se pode ver sem ser; os pensamentos se juntam ao silêncio ou aos ruídos e se tornam um momento passageiro. Estar. A pantera negra que lhe agarrou pelos olhos vinha de dentro. Um sonho. Seus braços começaram então a existir, dentro do seu campo de visão, e ela começou a nadar à procura de uma margem. Fascinação com um Eu. Muita água batendo. Com um caixote, saí rolando sobre a areia, desnuda. Olhei ao redor e parecia estar em um areal distinto. Eu era distinta. As baleias já não estavam sobre as águas ou em qualquer lugar. E eu, pelada, já não tinha mais o meu manto para me tapar do sol e dos olhares. O que aconteceu? Quiçá a nave baleia me traduziu para outra língua? Talvez a sua. Não sei dizer ao certo. Com cada passo, a areia crescia e eu tinha fome. Voltei ao mar e comecei a cavar a areia na beira, para ver se encontrava tatuís, porque ao redor não havia nada. Não encontrava nada. Bebi a água do mar para ver se sanava a sede e a fome. Foi então que recebi o que parecia ser um presente. Uma grande quantidade de vôngoles apareceu ao passo de uma onda. Abri os braços e os recolhi em um abraço. Ao olhar mais adiante, vi uma sombra escura mover-se embaixo da água. Movi-me rápido à areia. Sentei-me e abri os vôngoles um a um. Sem muito desgosto. O sol, no horizonte, parecia estático no estado de pôr do sol. Eram alaranjados o sol e o céu. E era estático também o meu estado de ânimo. Sem saber muito que fazer. Respirando a inércia da água, apenas, até encontrar o firmamento. AREAL 3 Karinna Alves Gulias Eu não poderia tocar o seu céu de minérios, talvez a minha pele se tornasse fria ao toque. Enquanto eu rezo por informação, isso é tudo o que eu posso tocar: aquela desconhecida nave mineral voadora na minha imaginação. E a sombra movendo-se na água. Ao comer os berbigões, me sabiam bem, apesar de estarem crus. Um a um, me subiam nuvens ao céu. Um acontecimento espantoso. O que seria aquilo? E por que ocorria comigo? Acho que qualquer um se perguntaria isso. Seria uma súplica do meu corpo para que renunciasse ao suicídio das minhas ambições? Uma carta da minha imaginação lembrando-me que eu ainda existia, em algum lugar, mesmo que involuntariamente e sem o meu poder. Desde há algum tempo, perdi a vontade de sonhar; de validar a realidade, seja minha ou alheia. A minha espiritualidade era a única capa que me sobrava e me mantinha. Posso dizer que, sem sonhos, a vida se torna exageradamente séria. De luminosidade escassa. Seguida de convulsões idiopáticas. Tendo a busca pelo espírito como o único anzol da vida. Eu explodiria o mundo em mil pedacinhos se fosse para encontrar a paz do meu ser. Muitos creem que ser feliz é gostar de viver no fausto. Ser feliz é simplesmente sanidade e paz mental. Só, nada mais. É uma busca primordial, mais do que criar prosperidade ou propriedade. A realidade é ambivalente e as pessoas não fazem sentido. São demasiado turvas, especialmente depois que a juventude passa. Redigi-la-ia, a realidade. Verifico o meu ser, só. Vazia. No mundo de uma baleia eu me perco outra vez, mas me sinto um pouco mais feliz. Visualizo o meu futuro. E me agarro a este fio. Parece-me um bom, simples futuro. Encontro o meu olhar com as nuvens que eu criei e vejo-me aprendendo mais uma língua estrangeira. É um movimento inofensivo, esse de tomar o controle de uma língua estranha. Expandi-la, contraí-la, mudar o seu formato. Mas os que nos ouvem, sempre indispostos a ouvir algo estranho, tornam-na indesejada. Os sem-teto, os viajantes, que vivem desabrigados dos juízos da tribo e abraçados pela linguagem talvez o entendam. Meu estômago arde um pouco. E pela primeira vez sinto pudor da minha nudez. Tenho a sensação de estar sendo vigiada, mesmo sem ver ninguém à volta. Começo a incomodar-me comigo mesma e a buscar saídas. Levanto-me e continuo andando. Quero gastar os meus pés, para ver se doem. AREAL 4 Karinna Alves Gulias A verdade é que esta é a primeira vez que penso dentro de mim. Será que alguém me está pensando? O meu sangue pulsa na orelha e a minha respiração intensifica. Só me ouço a mim. Eu e silêncio. Eu e tudo. E o meu corpo, que fala comigo. Eu ouço-o agora. Ele pulsa e respira. Aquece e dói. O areal anda com os meus pés. Tudo parece esticar e expandir, mas nada de novo aparece diante de mim. É como se a praia fosse um espaço infinito. O que eu faço? Eu não sei o que fazer... AREAL 5 Karinna Alves Gulias Será que o tempo está passando? Os meus pés doem um pouco mais. O tempo existe apenas no meu cansaço e na dor? AREAL 6 Karinna Alves Gulias Paro para descansar um pouco. Sim, vou descansar. Por que continuar, se nada muda? Nada muda. Nada muda. Nada muda. Meus pensamentos estão se repetindo, outra vez. Nada muda. Nada muda. Vou deitar. As nuvens que comi ainda estão acima. Será que devo comer mais? Para sair daqui? Eu vou comer mais. Depois. Depois que eu descansar. Eu estou muito cansada. Cansada. Cansada. Cansada. Cansada. As nuvens são bonitas. Parecem de verdade. São fofinhas e brancas. Fa Fa Fo Fi AREAL 7 Karinna Alves Gulias AREAL 8 Karinna Alves Gulias Ahm? Não foi um sonho? Eu ainda estou aqui? Eu ainda estou aqui?! Hanff! Que horror! Eu vou voltar ao mar e comer mais vôngoles. É a única coisa que eu fiz até agora que mudou algo. O sol não mudou de posição. As nuvens que eu comi antes não mudaram de posição. Nada de novo e nem ninguém apareceu até agora. Por que estou aqui? O que é isto? Eu vou morrer aqui? De tédio? Ah... De que adianta chorar? Ao menos chorar é normal. É a única coisa normal aqui. E a dor. E o cansaço... Ai... Puff... Vou me levantar agora. Vamos fazer algo além de chorar, Layla! Eu vou andar até a borda e ver se o mar me traz mais comida. Estou com fome outra vez. Será que isso significa que o tempo passa aqui também? Claro que o tempo passa! Como não passaria? Talvez eu esteja em algum tipo de realidade virtual. Isso faz mais sentido. Isso faz muito sentido... Mas por que me enfiaram nesta realidade virtual? Para quê? O que querem comigo? Por que andar de volta ao mar demora menos que me distanciar dele? Essa deve ser uma pista. Eu devo fazer algo perto do mar ou no mar. Mas o quê? Apenas comer? Será que eu sou uma prisioneira? Mas por quê? Para quê? Outra vez, não faz sentido. Vou sentar na beira da água outra vez e ver se me dão comida. AREAL 9 Karinna Alves Gulias # Gerar massa – Buraco # passos # # sem informação # buraco def create # Agua do mar # Desenhar céu com configuração de nuvens por berbigões # Aplicar movimento de processamento e presença # Pôr-do-sol if __name__ == "__main__": () O que foi isso? Algo está acontecendo comigo. Sinto-me estranha... eu acho que vou vomitar. Ai... O que é isso? Não me sinto bem... Tenho uma gana enorme de pular na água. Estou ficando sem ar... uhhf, uhhhf, uhhhf. Não faz sentido. Eu vou entrar no mar... De um tirão, jogada à água, um sentimento de estar voltou a reinar no corpo. E o sentimento de ser se dissipava pouco a pouco, assim como o sufoco da falta de ar. A água envolvia o corpo – aquele corpo estranho, desnudo. Abraçava-o como uma mãe amorosa. Era morna e calma. E a cada abraço que o corpo sentia, ondulações pronunciavam-se na superfície da água em anéis que repercutiam. A mulher, com a nova língua aprendida, traduzia-se em um peixe, desnudo. Sem resistir às correntes ou a qualquer estímulo que sentia sobre si. As forças opostas neutralizadas. Sem reação, sem medo, ela tornou-se uma com o mar. E o mundo que antes existia virou também água. Converteu o tempo e dobrou-se sobre seu próprio colo. Sem domesticação, no virar de um peixe, a mulher, chamada uma vez Layla, numa transformação fez-se sombra da grande baleia, que navegava pelos céus daquele areal isolado. Um manto negro, investigando as elevações do terreno e criando mapas de várias imaginações.